De ameaça a oportunidade: peixe-sapo invasor pode virar fonte de renda no litoral do Paraná

Novo projeto pretende avaliar se a carne do animal é boa para consumo e envolver os pescadores no monitoramento dessa espécie

28/04/2026
Foto: squidpastry/ iNaturalist/ Creative Commons/ Reprodução

Uma espécie invasora (não-nativa) tem dado o que falar no Complexo Estuarino de Paranaguá, no litoral do Paraná. O peixe-sapo do Golfo (Opsanus beta), introduzido provavelmente por meio da água de lastro de navios mercantes, não possui inimigos naturais na região e representa um risco à biodiversidade local. Contudo, uma ideia pode transformar o aparente problema em solução.

A proposta do projeto comandado pelo Instituto Meros do Brasil, com o apoio do Programa Biodiversidade Litoral do Paraná (BLP), engloba entender melhor o impacto dessa espécie no estuário e envolver os pescadores no seu monitoramento — inclusive, para avaliar se o peixe-sapo pode ser transformado em oportunidade, seja como fonte de renda ou como estratégia de controle ambiental.

Foto: squidpastry/ iNaturalist/ Creative Commons/ Reprodução

A espécie impacta todos os setores: por um lado, ela ameaça a biodiversidade local, pois compete por alimento e abrigo com peixes nativos; por outro, ainda não sabe se sua carne é consumível e saudável para o público. Por isso, o projeto tenta arrumar uma solução para que o animal, ao menos, possa contribuir em uma das frentes.

 

Para isso, pescadores de seis comunidades do estuário participam do monitoramento por meio de armadilhas padronizadas e enviam registros periódicos para análise da equipe técnica. Paralelamente, o Instituto Meros avalia a qualidade da carne do peixe-sapo, com análises laboratoriais para identificar possíveis contaminações químicas.

Conforme explica Matheus Oliveira Freitas, biólogo, coordenador do projeto Gestão Participativa e presidente do Instituto Meros do Brasil, caso os estudos indiquem que o consumo é seguro, “a ideia é estimular a criação de um mercado para essa espécie, com oficinas, desenvolvimento de receitas regionais e o envolvimento de chefs de cozinha”.

É uma forma de transformar um problema ambiental em uma alternativa de renda e de controle populacional– afirma Freitas

Caso o consumo não seja recomendado, a estratégia prevê o abate controlado e a devolução do peixe ao ambiente como fonte de energia para outras espécies, o que contribuiria para o equilíbrio do ecossistema.

Foto: Biodiversidade Litoral do Paraná/ Divulgação

Até o momento, o monitoramento realizado registrou a captura de 85 peixes-sapos em 921 gaiolas de pesca, com maior incidência em áreas próximas ao Porto de Paranaguá e regiões com menor influência de água doce.

 

A iniciativa conta com a parceria do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio – NGI Antonina–Guaraqueçaba), da Associação MarBrasil, da Diretoria de Patrimônio Natural do Instituto Água e Terra do Paraná (IAT) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR), por meio do Setor de Ciências da Terra e do Departamento de Geografia.

Um desafio à pesca artesanal

Vale ressaltar que a presença dessa espécie no Paranaguá não é algo novo. Segundo Freitas, ela já está presente no estuário há cerca de 15 anos e “causa impactos relevantes sobre a biodiversidade e a pesca”. Portanto, quem sente isso na pele diariamente são os pescadores.

Foto: squidpastry/ iNaturalist/ Creative Commons/ Reprodução

Na época do meu pai, a gente capturava muito peixe, com muita rapidez. Hoje, você tem que correr muito atrás para tentar pegar, não é fácil como era antigamente– relembrou Gildo Malaquias, pescador artesanal que participa do projeto

Ele contou que, se comparado a antigamente, o fluxo de peixes no canal diminuiu bastante. “Não sei se é a indústria, não sei se é o próprio pescador, alguns que ainda praticam pesca ilegal”, relatou o pescador, que diz ter uma expectativa positiva caso o consumo do peixe-sapo seja aprovado.

Foto: Biodiversidade Litoral do Paraná/ Divulgação

“Se ele for considerado seguro para consumo, a gente vê como fonte de renda. Porque já existe na nossa região, já invadiu bastante. Temos que preservar para que nossos filhos, netos e bisnetos possam tirar sustento dali, sem agredir o meio ambiente”, complementou.

A gente não faz conservação sem as pessoas. Os pescadores são protagonistas, ajudam a gerar dados, entender os impactos e construir soluções que fazem sentido para a realidade local– afirmou Freitas sobre a iniciativa

Com duração de dois anos e investimento de mais de R$ 700 mil, viabilizado por meio de investimento do BLP, o projeto atua em áreas protegidas estratégicas do litoral paranaense, como a APA de Guaratuba, a APA de Guaraqueçaba, o Parque Nacional Marinho das Ilhas dos Currais e o Parque Estadual do Boguaçu.

 

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