Perigo iminente: extremamente nocivo à vida marinha, mexilhão-dourado invasor chega à Amazônia

Presente no Brasil desde os anos 1990, espécie teve salto em densidade populacional e já completou, no mínimo, um ciclo reprodutivo no rio Tocantins

13/01/2026
Foto: Agência Bori/ Divulgação

Nem tudo que reluz é ouro: a crescente invasão dos mexilhões-dourados no Brasil acaba de ganhar mais um capítulo. Uma nova pesquisa aponta grandes quantidades do molusco extremamente perigoso à vida marinha na Amazônia, e, ao menos, um ciclo reprodutivo já concluído no rio Tocantins.

Os mexilhões-dourados têm origem no sudeste asiático e chegaram à América do Sul no início da década de 1990, por meio da água de lastro de navios mercantes da época. Não demorou muito para que eles viessem ao Brasil, antes do ano 2000. Desde então, rapidamente encontraram águas favoráveis para sua expansão.

Por que eles são tão perigosos?

A expansão dessa espécie tem despertado preocupação entre pesquisadores, órgãos ambientais e comunidades ribeirinhas. Em 2024, piscicultores do estado do Tocantins relataram a presença do molusco em tanque-redes, o que reforçou a hipótese dos cientistas de que os mexilhões-dourados já estavam presentes antes do primeiro registro oficial.

Distribuição dos registros do mexilhão-dourado em águas brasileiras e municípios onde a espécie já foi registrada no estado do Pará; (b) Destaca-se a bacia do rio Tocantins-Araguaia (linha vermelha). Foto: Rafael Anaisce das Chagas et.al/ SciElo/ Reprodução

Perigosíssima para a vida marinha e a qualidade do ecossistema, a espécie altera a transparência da água por conta da sua alta capacidade de filtração, modifica a qualidade do habitat ao liberar grande volume de pseudofezes e acumula metais e toxinas.

 

Além disso, eles provocam a obstrução de tubulações em hidrelétricas e sistemas de água e causam prejuízo à piscicultura, pela incrustação e competição por alimento e espaço com espécies nativas. Isso reduz a presença de animais que vivem nos fundos dos rios e pode promover desequilíbrios na vida aquática, incluindo os peixes.


Os impactos são vários: comprometem o equilíbrio dos ambientes de água doce, diminuem a biodiversidade e afetam processos naturais fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas.

O que diz a ciência

O estudo sobre a invasão da Limnoperna fortunei (nome científico da espécie) foi publicado na Acta Limnologica Brasiliensia. Segundo o artigo, há um cenário de dispersão acelerada e de forte potencial de impacto ecológico e socioeconômico na região invadida.

Mapa de localização da ocorrência do mexilhão dourado Limnoperna fortunei no rio Tocantins, Pará, Amazônia Oriental (a), indicando o fluxo do rio (setas tracejadas) e a localização dos pontos deste estudo (pontos vermelhos) (b). Foto: Rafael Anaisce das Chagas et.al/ SciElo/ Reprodução

Para a pesquisa, os estudiosos utilizaram como base uma amostragem realizada em outubro de 2024 em três locais da Pedral do Lourenço, uma formação rochosa no rio Tocantins localizada entre os municípios de Marabá e Tucuruí (estado do Pará). De acordo com o estudo, a espécie não só está plenamente adaptada à região, como já contém espécimes de diferentes tamanhos.

O registro do mexilhão-dourado na Amazônia é considerado relevante e alarmante devido aos severos impactos socioeconômicos e ambientais que a espécie ocasiona– afirmou Rafael Anaisce das Chagas, autor principal do artigo

Segundo Chagas, que também é engenheiro de pesca, pesquisador de pós-doutorado na Universidade Federal do Pará e que atua no Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Norte (CEPNOR/ICMBio), os modelos de dispersão indicam alto risco de invasão da bacia amazônica a partir da década de 2030, com consolidação por volta de 2050.

Vida longa e próspera

Não foi simples estudar os mexilhões-dourados. Primeiramente, os cientistas tiveram que raspar as superfícies colonizadas, para então preparar a conservação das amostras em laboratório para identificação morfológica e análise genética.

Mexilhões-dourados já esta se proliferando na Amazônia. Foto: Agência Bori/ Divulgação

A partir disso, foi feita a medição dos indivíduos e a estimativa de densidade populacional — um dos principais indicadores de estabelecimento da espécie. De acordo com Chagas, os resultados chamam atenção: 11.940 espécimes por metro quadrado, muito superior aos 88 indivíduos por metro quadrado registrados em 2023.

Isso indica que a espécie já se adaptou ao ambiente local e possivelmente já produziu ao menos uma vez, considerando que encontramos indivíduos entre 2 e 22 milímetros– disse o pesquisador

Qual o tamanho do problema?

O problema começa quando os mexilhões-dourados não têm predadores naturais em águas brasileiras. Sendo assim, sua erradicação é considerada praticamente impossível. No momento, o foco é controlar os impactos em sistemas construídos, como hidrelétricas e sistemas de abastecimento de água.

Mexilhão-dourado. Foto: Agência Bori/ Divulgação

A estratégia mais eficaz é o uso de protocolos integrados, combinando diferentes métodos capazes de manter estruturas livres de incrustações– revelou Chagas

A pesquisa recebeu financiamento do Instituto Evandro Chagas (IEC) e do Ministério da Saúde (MS) e apoio do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Norte (CEPNOR/ICMBio).

 

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