Promovendo crescimento

Por: Redação -
15/09/2016

Está em avaliação dos vereadores de Florianópolis o projeto de lei que permite a cessão de espaço para a construção de um parque urbano e marina na avenida Beira-Mar Norte, cartão-postal da cidade. Quando aprovada, possibilitará que a Prefeitura lance edital de licitação pública para que a área se torne um espaço público que transformará a cidade: projetado pelas equipes dos escritórios de arquitetura ARK7 e JA8, o Parque Urbano e Marina Beira-Mar Norte representará uma nova e ampla opção de convivência, lazer, geração de negócios e oportunidades de trabalho, além de resgatar a vocação náutica e proporcionar o uso do mar para diversas finalidades.

São 320 mil metros quadrados na Baía Norte e paralelos à Avenida Jornalista Rubens de Arruda Ramos (popularmente chamada de Beira-mar Norte), sendo 850 metros paralelos à avenida e cerca de 400 metros mar adentro, divididos em quatro grandes áreas: Praça da Água, Praça Central, Praça do Mar e uma marina com vagas públicas e privadas.

O Parque Urbano e Marina Beira-Mar Norte é uma iniciativa da Prefeitura de Florianópolis, que promoveu concurso para selecionar o projeto do futuro espaço. A equipe liderada pela ARK7 e JA8 venceu nos quesitos ‘Estudo preliminar arquitetônico e urbanístico’ e ‘Viabilidade econômica e financeira’.

A implantação envolve novo projeto de licitação pública, no qual os vencedores terão direito a explorar a área por 30 anos – e a expectativa da Prefeitura é de realizá-la ainda em 2016. O local de implantação, seus equipamentos e outras demandas foram definidos em edital da Prefeitura de Florianópolis – e a elaboração do projeto escolhido envolveu uma equipe multidisciplinar de quase 50 profissionais e quatro meses de trabalho intensivo.

Na marina, três quebra-mares assegurarão o mar calmo em seu interior, com todos os píeres ‘flutuantes’ (sustentáveis). Ao todo serão 660 vagas, sendo 600 para uso privado e outras 60 públicas. Um píer central para carga/descarga e/ou embarque e desembarque e um posto de combustíveis completam a área.

A Praça da Água terá um trapiche para a saída e chegada de escunas de turismo, traslado de turistas náuticos e para transporte marítimo, tendo área de espera com cobertura – além de rampa de acesso público e vagas cativas para embarcações dos Bombeiros, Ibama e Capitania dos Portos, entre outros. O mais importante, entretanto, será o grande espelho d’água, que possibilitará o lazer com pedalinhos, stand up paddle ou caiaque, protegido por um braço de quebra-mar e com a água naturalmente renovada.

Na Praça Central, elevada em relação à pista de trânsito, estará concentrada a maioria dos equipamentos esportivos e de lazer e o edifício da Marina, com lojas de produtos e serviços náuticos, conveniências, quiosques de café e lanches, além de restaurante panorâmico. No subsolo ficará o estacionamento para 500 veículos e a área de serviços – banheiros e vestiários para marinheiros e contêineres para uso das lojas.  Ainda consta no projeto vagas de estacionamento para ônibus de turismo e central de resíduos limpos.

Já a Praça do Mar (um ‘braço’ de terra, resultante do quebra-mar) será um espaço amplo e aberto, apropriado para regatas e eventos náuticos comerciais. O enrocamento (maciço de pedras destinado a proteger aterros ou estruturas dos efeitos da erosão) ampliará a praia existente.

Foto: Divulgação

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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