Robert Scheidt revela estratégia para conquistar, em Tóquio, sua sexta medalha olímpica

06/05/2021

Se há uma coisa que não falta na carreira de Robert Scheidt são títulos. Ao longo de sua trajetória como velejador, iniciada ainda na infância, foram 181 conquistas, especialmente nas classes Laser e Star. Por sinal, a primeira delas — o Mundial Júnior de Laser, em 1991, na Escócia — está completando 30 anos. Ainda assim, não lhe falta motivação para mais uma corrida do ouro, a partir do dia 25 de julho, na raia de Enoshima — uma pequena ilha localizada na baía de Sagami —, palco da vela durante os Jogos de Tóquio.

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Para isso, aos 48 anos, Scheidt — maior medalhista olímpico do país, com dois ouros (1996 e 2004), duas pratas (2000 e 2008) e um bronze (2012) — revela estar em boas condições, técnica e fisicamente. Não promete, mas acredita que pode conquistar a sua sexta medalha, em sua sétima (e última) olimpíada, trajetória iniciada em Atlanta-96. No adeus às armas, um lugar no pódio seria o fechamento com chave de ouro de seu ciclo olímpico.

Em entrevista concedida através do canal da assessoria de comunicação ZDL, falando direto de sua casa, na cidade de Torbole, no norte da Itália — com produção da velejadora lituana Gintare, com quem está casado há 12 anos —, nosso multicampeão renovou as esperanças de chegar lá. Confira:

— Pela primeira vez, desde os Jogos de Atlanta, em 1996, você disputará uma Olimpíada sem a pressão do favoritismo. Você se sente mais leve para disputar uma medalha?

Robert Scheidt — Sim, me sinto mais leve do que nos outros Jogos Olímpicos. Não sendo favorito, você acaba fazendo as coisas com mais tranquilidade. Os holofotes não estão em cima de você o tempo inteiro. Mas isso não quer dizer que eu queira menos a medalha, que eu sonhe menos com ela. Pelo contrário, a vontade de chegar no pódio, de fazer uma boa olimpíada, é tão grande como das outras vezes. Senão maior, porque estou caminhando para o fim da minha carreira.

— O fato de o sonho do “hexa” ter sido adiado para 2021, por conta da pandemia, teve que peso em sua preparação as Olimpíadas de Tóquio?

Robert Scheidt — Esse tempo a mais, para mim, foi benéfico. Nesses últimos meses, trabalhei muito duro. Passei uma ótima sessão de três semanas de treinamento em Lanzarote, Ilhas Canárias. Com isso, o meu nível se elevou. No momento, sinto que posso velejar de igual para igual com qualquer um, e esse era o meu objetivo desde o início, ser competitivo nos Jogos Olímpicos. Então, para mim, o adiamento para 2021 acabou sendo bem-vindo.

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— O que esperar das condições de vento e mar nas Olimpíadas. A raia japonesa te favorece?

Robert Scheidt — Em consequência da pandemia, nenhum atleta conseguiu se preparar da maneira perfeita para estes Jogos. Normalmente, os velejadores se deslocam várias vezes para o local da competição, que é para se adaptarem à raia, ao vento, ao mar e às condições climáticas. E desta vez ninguém teve a chance de treinar muito na raia. Então, o fato de todo mundo chegar de uma vez, em cima da hora da Olimpíada, um evento com grande pressão, pode me ajudar, porque já passei por muitas situações, por várias olimpíadas. O lado mental, a calma, a tranquilidade por já ter passado por isso, pode ajudar. Com relação às condições da raia de Enoshima, pode dar de tudo: ventos fortes, fracos… Não predomina uma condição. É preciso estar pronto para o que vier. A disputa se estende por seis dias. Então, naturalmente, haverá uma variação dessas condições ao longo da competição. É para mim isso é bom, porque sou um velejador que cobre bem tanto ventos fracos como ventos fortes. Será até bom se não houver uma só condição de vento.

— Apesar de toda experiência, você acha que ainda sentirá aquele friozinho na barriga, por ser sua última Olimpíada?

Robert Scheidt — Em cada Olimpíada, seja a primeira, a segunda ou a sétima, existe uma ansiedade. E isso não deve mudar. A questão e não deixar essa ansiedade alcançar um patamar que atrapalhe a performance.

— O que mudou no Robert Scheidt entre o Rio, em 2016, e os Jogos de Tóquio-2020?

Robert Scheidt — Além dos cinco anos a mais, chego com mais experiência, mais maturidade e, acima de tudo, muito feliz pela oportunidade de representar o Brasil mais uma vez, chegando à minha sétima olimpíada. Depois do Rio, eu havia anunciado a minha aposentadoria, achei que não teria mais chance. Mas estou aqui, e acho que em uma boa fase e com tudo para chegar competitivo daqui a dois meses, em Tóquio.

— Aos 48 anos, como você se sente técnica e fisicamente para encarar os Jogos?

Robert Scheidt — A principal preocupação, com a idade, é o tempo de recuperação (é preciso escutar o seu corpo), além da maior facilidade de sofrer lesões. Então, é preciso trocar a quantidade de treinamento pela maior qualidade. A palavra certa é equilíbrio. Se antes, com 30 anos de idade, a minha filosofia de treinamento era “vamos fazer mais do que os outros, e o resultado virá como consequência”, agora esse pensamento acaba sendo contraproducente. Hoje, eu treino em um volume bem menor, mas com uma intensidade maior. Cuido da parte mais simples, que são a alimentação e o sono. E tenho profissionais competentes ao meu lado, como fisioterapeuta e preparador físico.

— Quem são os seus principais concorrentes?

Robert Scheidt — No momento, um nome muito forte para os Jogos é o do alemão Philipp Buhl (atual campeão mundial), que, em abril, venceu o torneio de Vilamoura, em Portugal, no qual eu foi medalha de prata, ficando apenas um ponto atrás. O australiano e os neozelandês são uma incógnita, não se sabe como eles vão chegar em Tóquio, por estarem treinando em casa, impedidos de viajar, por causa das medidas restritivas impostos por esses países. Outros competidores fortes são os atletas da Croácia, do Chipre e da França — o Jean-Baptiste Bernaz, que é meu companheiro de treinamento. Eu acredito que haja dez a doze velejadores com chances de lutar pelas três medalhas. A Laser é uma classe muito forte, com muita profundidade e uma grande representatividade de países. E é um barco em que o velejador faz a diferença. Todo material será fornecido pela organização dos Jogos: vela, mastro, o barco. O que faz a diferença é mesmo o velejador, as decisões táticas, e não o equipamento.

— O que mudou na classe Laser no último ciclo olímpico?

Robert Scheidt — O que mudou foi composição do mastro, que passou a ser de carbono na parte de cima, com alumínio na parte de baixo. Isso adicionou um pouco de dureza ao mastro. A vela também sofreu alterações. O novo conjunto trouxe um pouco mais de potência para o barco, que ficou mais difícil de controlar com ventos fortes, exigindo mais escora, ou contrapeso. O peso ideal do velejador no ciclo do Rio era de 80 quilos. Agora, passou para 84 ou 85 quilos. Eu consegui me adaptar. Ganhei um pouco de massa muscular. Estou com 84 quilos, o peso próximo do ideal. A técnica de velejar mudou um pouco também, principalmente no vento em popa. Demorei um tempo para me adaptar. Em 2019, quando voltei para essa classe, tive bastante dificuldade com a performance de vento em popa, que era justamente o meu forte. Mas, com muita hora de voo, com muito trabalho, comecei a melhor a minha técnica com esse novo mastro e estou cada vez mais confortável com ele.

— Como é a cobrança em casa, já que você é casado com uma velejadora e seu filho, Erick, também é velejador?

Robert Scheidt — Quando eu voltei do torneio de Vilamoura, em Portugal, contente com a segunda colocação, o Erick disse: “É, foi bom, mas dava para ter ganho!” Acho que é uma boa atitude. De não se contentar com menos, de querer melhorar sempre.

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