Sul-Americano

Por: Redação -
08/11/2014

O terceiro e penúltimo dia do Campeonato Sul-Americano de 49er e 49erFX foi disputado em uma condição que faz jus à reputação do Rio de Janeiro, um dia ensolarado e quente (30° C), com uma brisa de 10 a 12 nós soprando do sul (180°). Tudo acontecendo em frente ao Pão de Açúcar e aos pés do Corcovado e Cristo Redentor.

As primeiras a tocar na água ontem foram as mulheres da 49erFX. Todas as 18 embarcações inscritas oficialmente, mais as novas velejadoras do ano da Isaf, as locais Martine Grael e Kahena Kunze, foram para a raia da Escola Naval, por volta das 11h30, em um pouco menos de vento, em torno de 8 nós, e com muita corrente.

As estrelas brasileiras estão fazendo as regatas apenas por diversão e para treinamento, até mesmo com a proeira Kahena timoneando o barco na última prova. Como perderam o primeiro dia, com três regatas, e o evento tem apenas um descarte, elas optaram por navegar com menos pressão e fazer um treino de luxo.

Outro fato pouco usual está acontecendo na frente da flotilha. Os holandeses Anemiek Bekkering e Rick Peacock formam uma dupla um pouco diferente. Na verdade, Rick é o treinador das meninas holandesas e exercitando a possibilidade permitida nas instruções de regata de ter equipes mistas, está usando o campeonato para testar o barco com uma tripulação mais pesada e mais forte. E está valendo a pena. Em nove provas, a dupla ganhou nada menos do que sete e está liderando com folga, com apenas 14 pontos.

Em segundo está a tripulação feminina de Alex Maloney e Melly Meech, da Nova Zelândia, com 25 pontos. As britânicss Charlotte Dodson e Sophie Ainsworth, com 38 pontos, fecham as posições do pódio.

A flotilha de 49er (masculina) saiu um pouco mais tarde e a brisa já estava estabelecida em torno de 12 nós. Repetindo o incrível desempenho de quinta-feira, os kiwis Peter Burling e Blair Tuke continuaram a subir na súmula e agora estão em quarto lugar, mesmo contando 52 pontos de duas das três regatas que eles perderam no primeiro dia, quando voavam de Palma onde estavam indicados para o Isaf Rolex Sailor of the Year Award.

Outra subida surpreendente foi protagonizada hoje pelos irmãos argentinos Yago e Klaus Lange. Com um dia quase perfeito que não só os manteve com a mão no título sul-americano, eles também alcançaram o primeiro lugar geral com 43 pontos. Os vice-líderes, com 50 pontos, são os dinamarqueses Jonas Warrer e Anders Thomsen, que ganharam um protesto (e uma reparação) em uma situação de largada com os barcos italiano e austríaco no início da oitava regata. A dupla francesa Dyen Mann e Stephane Christidis, com 56 pontos, está em terceiro geral.

Entre os sul-americanos, o segundo lugar é ocupado por Marco Grael e Gabriel Borges, em oitavo no geral, e os terceiros são Dante Biachi e Thomas Low-Beer (19º geral). Hoje os velejadores devem correr mais três regatas regulares com nenhuma Medal Race neste campeonato específico.

O VII Campeonato Sul-Americano de 49er e o II Campeonato Sul-Americano de 49erFX terminam hoje e na próxima semana as flotilhas vão correr novamente na mesma raia O Campeonato Intergaláctico de 49er e 49erFX.

Foto: Fred Hoffmann

 

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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