Veleiro Fraternidade chega a Ilhabela após conquista no Ártico e é escoltado pelo Cisne Branco: “inesquecível”

Embarcação concluirá volta ao mundo histórica com Aleixo Belov ao retornar a Salvador, de onde partiu em abril de 2025

Por: Nicole Leslie -
06/02/2026
Veleiro-escola Fraternidade (à esq.) e Veleiro Cisne Branco (à dir.)Foto: Ádamo Mello via Instagram @mello.adamo

Após conquistar a temida Passagem Nordeste — rota que conecta os oceanos Atlântico e Pacífico pelo Ártico russo —, o veleiro-escola Fraternidade atracou em Ilhabela (SP) no dia 30 de janeiro. Nesta quarta-feira (4), a embarcação partiu da ilha rumo ao Rio de Janeiro em uma cena simbólica: escoltada pelo veleiro Cisne Branco, da Marinha do Brasil, durante todo o percurso.

Sob o comando do navegador Aleixo Belov, de 83 anos, o Fraternidade entra na reta final de uma circunavegação histórica iniciada em Salvador (BA), em 12 de abril de 2025. A parada em Ilhabela foi estratégica para abastecimento e também para viabilizar o encontro entre os dois veleiros, celebrado pela comunidade náutica local.

Veleiros Fraternidade (à esq.) e Cisne Branco (à dir.) em encontro histórico no litoral de SP, com navio de cruzeiro ao fundo. Foto: Paulo Stefani / Secretaria de Turismo de Ilhabela

O momento foi presenciado pelo fotógrafo e cinegrafista da expedição, Ádamo Mello, que não poupou elogios para a cena:

Sensação incrível ver o nosso barco lado a lado, rompendo o amanhecer e navegando junto ao Cisne Branco-disse em entrevista à NÁUTICA

Segundo Ádamo, o Fraternidade participará de uma solenidade com a Marinha do Brasil no próximo dia 11, quando Aleixo Belov e a tripulação serão oficialmente reconhecidos pela conquista da Passagem Nordeste. O feito tornou o veleiro a primeira embarcação de bandeira brasileira a completar a travessia pelo topo da Rússia.

Foto: Fundação Aleixo Belov / Reprodução

Aleixo é um ser imenso no mundo náutico. A forma como a Marinha o trata, desde quando se tornou o primeiro brasileiro a dar a volta ao mundo em solitário até hoje, demonstra muita honraria-afirmou

“Experiência inacreditável”

A circunavegação por rotas extremas será concluída na mesma cidade onde teve início. A chegada do Fraternidade a Salvador está prevista para o dia 28 de fevereiro, trazendo na bagagem histórias marcadas por longos períodos no mar, desafios técnicos e experiências culturais inesperadas.

Veleiro-escola Fraternidade agora é o 1º das Américas a ter realizado o percurso. Foto: Adamo Mello / Reprodução

“Foi uma experiência inacreditável”, resume Ádamo. Segundo ele, o impacto da viagem vai além da navegação em si e inclui desde a complexidade burocrática para cruzar águas controladas pelos russos até o contato com comunidades locais ao longo do percurso.

A gente tinha a impressão de que o povo russo era frio e fechado, mas foi justamente o contrário. Eles são muito calorosos — apesar do frio — e se assemelham bastante aos brasileiros. Fomos muito bem recebidos em cada porto por onde passamos-contou

De acordo com o fotógrafo, em diversas cidades a tripulação foi recebida com roupas, comidas típicas, apresentações culturais e músicas regionais. “Conhecer um povo tão distante do Brasil foi inacreditável, principalmente para mim, que tive a missão de documentar a viagem”, disse Mello, que adiantou:

Veleiro Cisne Branco, da Marinha do Brasil, escoltou o veleiro Fraternidade do litoral de SP ao RJ. Foto: Ádamo Mello via Instagram @mello.adamo

Consegui um material riquíssimo-Ádamo Mello

Foi após a passagem pela Rússia que a tripulação enfrentou o trecho mais desafiador da expedição: a temida Passagem Nordeste, descrita pelo próprio Belov como o maior desafio de sua vida. O percurso exigiu enfrentamento de gelo, ventos extremos e janelas de degelo extremamente curtas, sem contar com as restrições impostas por áreas militarmente controladas.

Foto: Adamo Mello / Reprodução

Superada essa etapa, a viagem seguiu para águas mais calmas. Na Polinésia, último destino antes do retorno ao Brasil, Ádamo relata ter se encantado com a cultura e as paisagens de um povo ainda pouco influenciado por outras civilizações. A jornada será transformada em um documentário e o fotógrafo também pretende reunir as melhores imagens em um livro ou exposição.

O legado de Aleixo Belov

Radicado na Bahia, o ucraniano Aleixo Belov tornou-se um dos grandes nomes da história náutica. Além de ser o primeiro brasileiro a completar uma volta ao mundo em solitário, ele também conquistou a Passagem Noroeste aos 79 anos.


Seu trabalho de educação marítima segue ativo por meio do Museu do Mar Aleixo Belov, em Salvador, que preserva o acervo de décadas dedicadas à navegação oceânica.

Veleiro-escola Fraternidade. Foto: Fundação Aleixo Belov / Reprodução

Aos 83 anos, esta expedição pode marcar a última grande jornada de Belov em mar aberto — embora, para quem o acompanha de perto, a possibilidade de novos desafios nunca esteja completamente descartada.

 

A expectativa é que, nos próximos dias, o Fraternidade encerre mais uma circunavegação histórica de Belov, consolidando o legado do navegador e de sua tripulação na história da exploração polar.

 

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