Há 5 anos, Aleixo Belov cortava o mastro do histórico veleiro Três Marias para inaugurar o Museu do Mar
Mastro do barco construído por ele mesmo, com o qual deu 3 voltas ao mundo, era maior que o teto do casarão tombado onde está exposto; veja como foi o processo


Aleixo Belov é referência em navegação não só por ter dado cinco voltas ao mundo, mas por ter realizado todas elas em embarcações feitas por ele mesmo. As três primeiras foram a bordo do histórico veleiro Três Marias, que o velejador fabricou com as próprias mãos no quintal de casa. Hoje exposto no famoso Museu do Mar, em Salvador, esse veleiro representou o começo e o — doloroso — fim de uma era.
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Era março de 1980 quando o Três Marias, um Bruce Robert de 36 pés, partiu para sua primeira volta ao mundo. Na obra que retrata o feito, “A Volta ao Mundo em Solitário“, Belov revela que comprou “a fibra de vidro e a resina faturada para pagar em três meses, pois não tinha um tostão no bolso, mas o casco tinha que sair de qualquer jeito”.


O nome do barco é uma homenagem à suas duas filhas Marias e à ex-mulher, Maria Belov. Mais do que isso, o batismo parecia obra do destino. Em 1986, Aleixo deu sua segunda volta ao mundo, seguida pela terceira, já no ano 2000.
Para mim, ficou claro que o nome ‘Três Marias’ estava associado a um certo destino. O de dar três voltas ao mundo– destacou Belov no livro ‘3ª Volta ao Mundo do Veleiro Três Marias’
O navegador ainda viria a construir o Veleiro Escola Fraternidade, embarcação maior e de aço, com o qual fez mais história. O barco protagonizou sua quarta e quinta volta ao mundo — essa última, em 2018. Em 2025, ainda se sagrou como o primeiro veleiro das Américas a atravessar por inteiro a lendária Passagem Nordeste, chegando à Sibéria após navegar por mais de 4.500 milhas náuticas russas em temperaturas congelantes.
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Todas essas expedições renderam a Belov reconhecimentos, cartas náuticas, cronômetros, fotos, búzios de todos os oceanos, objetos diversos e toda a sua biblioteca. Tudo isso está exposto no Museu do Mar Aleixo Belov, em Salvador, junto ao Três Marias, que protagonizou uma verdadeira missão — e até um sacrifício — para se estabelecer dentro do casarão tombado pelo patrimônio histórico, onde fica o museu.
Aleixo Belov cortou o mastro de seu veleiro histórico
Inaugurado em 2021, o Museu do Mar Aleixo Belov, fundado pelo próprio navegador, é um espaço cultural dedicado à navegação e à vida marítima. O local é ainda um testemunho das aventuras de Belov, com patrimônios materiais e imateriais, a exemplo do Três Marias.


A embarcação é a principal peça do acervo, e, em dezembro de 2020, precisou passar por uma “cirurgia” para estar ali. O prédio, localizado no Largo Santo Antônio Além do Carmo, centro histórico da capital baiana, tem pé-direito de 10 metros, altura insuficiente para abrigar o mastro de 13,20 metros do veleiro de Belov.


Sabendo disso, o velejador consultou o Iphan sobre a possibilidade de manter uma abertura no teto do casarão ao invés de precisar cortar o mastro. “Depois de permitir fazer a claraboia verbalmente, negaram por escrito”, lamentou Belov à época, que considerou o corte uma mutilação. “Para um velejador, é quase tirar a alma!”.
O mastro resistiu a todas as tempestades durante as três longas viagens de volta ao mundo sozinho, mas não resistiu à caneta do Iphan– declarou à NÁUTICA em 2020, pouco antes de inaugurar o museu, em 2021
Para receber o barco, parte do teto do edifício precisou ser retirada, seguindo os protocolos de preservação. Um guindaste de grande porte se encarregou de içar lentamente o barco de oito toneladas acima do casarão, até o ponto exato de entrada no museu.


Os movimentos foram milimetricamente calculados, visando a conservação tanto do casco, quanto da estrutura. Embora o mastro não faça mais parte do Três Marias, Belov fez questão de manter a parte alijada em exposição, ao lado do veleiro.
Ucraniano de nascimento, baiano de coração
Aleixo Belov nasceu em 9 de janeiro de 1943 em Merefa, na Ucrânia, durante a Segunda Guerra Mundial. Na época, a Ucrânia fazia parte da União Soviética e estava ocupada pelas tropas alemãs. Belov deixou sua cidade natal aos 7 meses de nascido, nos braços de sua mãe ucraniana Zinaida, do seu pai russo Dimitri e da sua irmã Olga, dois anos mais velha que ele.


Passou pela Europa e terminou emigrando de navio pelo Porto de Genova, chegando ao Brasil em junho de 1949, já com 6 anos. Estabeleceu-se em Salvador, tornou-se engenheiro civil, mergulhador e navegador. Teve cinco filhos de dois casamentos. Foi professor da cadeira de portos, da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia (UFBA), trabalhou em obras marítimas e nos últimos 40 anos está à frente da Belov Engenharia Ltda.
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