Baleias no Brasil: saiba onde avistá-las e as regras para uma observação segura
Especialista explica como funciona o turismo de observação que tem ganhado força na temporada desses animais no país


A chegada do inverno, para os brasileiros, simboliza o período mais frio do ano. Para as baleias que vivem na Antártica, contudo, é o momento ideal para se reproduzir. De junho a novembro, elas buscam as águas quentinhas do Brasil para terem seus filhotes e, de quebra, protagonizam um verdadeiro espetáculo em águas nacionais. Daí surgiu uma prática que tem ganhado cada vez mais força: ver baleias de perto.
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Julio Cardoso, um dos idealizadores do Projeto ProBaleia, atua há mais de 20 anos na fotoidentificação de cetáceos do Litoral Norte de São Paulo. Segundo ele, de 2004 até 2016, a espécie mais comum na região era a baleia-de-bryde (Balaenoptera edeni ou Balaenoptera brydei), um cetáceo rápido e difícil de observar para o turismo. Contudo, a partir de 2016, as jubartes (Megaptera novaeangliae) começaram a aparecer em números crescentes.


Somente em 2025 foram registrados mais de 800 animais, sendo que na temporada atual os números já se aproximam de 500 avistagens na região de Ilhabela e São Sebastião, conforme detalhou Cardoso. Com tamanha movimentação, a boa notícia é: a chance de ter um encontro com essas gigantes é alta.
Quero ver uma baleia: por onde começar?
No Brasil, a observação de baleias é uma atividade normatizada pela Lei Federal 7.643, de 1988; e pela Portaria IBAMA 117, de 1996, que definem normas específicas para a prática — afinal, engana-se quem pensa que, para vê-las de perto, basta se aproximar.


Cardoso explica que o primeiro passo para um avistamento seguro é, justamente, buscar operadoras de turismo treinadas e credenciadas para seguir as normas do IBAMA, que proíbem:
- Aproximar-se de qualquer espécie de baleia com o motor engrenado a menos de 100 metros de distância do animal mais próximo. O motor deverá ser obrigatoriamente mantido em neutro;
- Reengrenar o motor para afastar-se do grupo antes de avistar claramente a(s) baleia(s) na superfície a uma distância de, no mínimo, 50 metros da embarcação;
- Perseguir, com motor ligado, qualquer baleia por mais de 30 minutos, mesmo que as distâncias estipuladas estejam sendo respeitadas;
- Interromper o curso de deslocamento de cetáceo(s) de qualquer espécie, tentar alterar seu curso ou dispersar o grupo;
- Aproximar-se de um indivíduo ou grupo de baleias que já esteja submetido, no mesmo momento, à aproximação de duas embarcações;
- Mergulhar ou nadar com qualquer espécie de baleia ou outros cetáceos;
- A aproximação de qualquer aeronave aos cetáceos em altitude inferior a 100 metros sobre o nível do mar.


De acordo com Julio, o não cumprimento das regras pode ser classificado como molestamento de cetáceos (baleias e golfinhos), um crime no Brasil punível com 2 a 5 anos de prisão e multa. Vale destacar que as baleias chegam ao país após percorrerem cerca de 4.500 km em aproximadamente dois meses, tudo isso no sensível ciclo de reprodução, o que faz das regras ainda mais essenciais para um avistamento saudável.
É um bicho que tá aqui muitos milhões de anos antes da gente existir, que tá vivendo a vida dele. Precisamos ter um conhecimento mínimo básico pra saber como se comportar– destaca Cardoso
Para facilitar o acesso à operadoras credenciadas, o Projeto Baleia Jubarte, junto ao Instituto Baleia Jubarte, disponibiliza em seu site oficial uma lista de operadoras parceiras nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Espírito Santo.
O avistamento de baleias no Brasil
Segundo o Projeto Baleia Jubarte, o Turismo de Observação de Baleias e Golfinhos — conhecido internacionalmente como whale watching — é praticado em mais de 100 países, sendo um dos principais geradores de receitas para comunidades costeiras.
No Brasil, alguns estados se sobressaem aos outros quando o assunto é ver baleias, sendo que Bahia, Espírito Santo, São Paulo e Santa Catarina são os grandes destinos de duas das principais espécies que navegam por aqui: as baleias-jubarte e as baleias-franca (Eubalaena australis) — esta última, mais comum em águas catarinenses.
Cardoso explica que as baleias adultas (entre 12 e 16 metros de comprimento) costumam passar mais longe da costa, a cerca de 40 ou 50 km, em sua migração para procriação na região do Arquipélago de Abrolhos, no sul da Bahia. Já as baleias juvenis (até 11 metros de comprimento) têm aparecido mais perto da costa e até dentro do canal de São Sebastião em busca de alimento.


Segundo ele, as adultas formam uma camada de gordura para ficar sem comer até voltar à Antártica, por um período próximo de 8 meses. Os mais jovens, por outro lado, não conseguem e, aqui, buscam comida. No lugar do krill antártico, os cetáceos têm se alimentado de camarãozinho — um tipo de camarão diferente do consumido por humanos, que não chega a ser pescado.
Elas começam a criar uma fidelidade à nossa região. Nos últimos anos, a gente tem tido um grupo de baleias juvenis que estão ficando aqui. Quando eu falo ficando, elas chegam e não vão para Abrolhos, uma vez que não têm idade reprodutiva– detalha Julio sobre o comportamento dos filhotes


Ciência e turismo lado a lado
Julio Cardoso navega pelo Litoral Norte de São Paulo há 22 anos. Inicialmente, seu foco era a estética das fotos, mas logo ele percebeu o alto valor científico da identificação desses animais.


Isso porque, por volta do século 16, a caça de baleias era comum no Brasil, quando o óleo dos cetáceos era usado na iluminação, fabricação de sabão e lubrificação. A atividade se concentrou no litoral do Sudeste e Sul, onde funcionavam armações baleeiras para processar os animais após a captura. A prática entrou em declínio no fim do século 19 e foi oficialmente proibida em 1986, quando a população desses animais no litoral brasileiro já era mínima.


Para se ter uma ideia, o Projeto Baleia Jubarte (uma das principais iniciativas voltadas à conservação de baleias), que começou em 1988, contava com uma população de Jubartes estimada em mil animais, número muito diferente do atual, estimado em 25 mil de acordo com o monitoramento aéreo realizado em 2022 pelo Instituto Baleia Jubarte — e considerado compatível à população de antes da caça.
Atualmente, as baleias são um importante atrativo do turismo de observação. Economicamente, a atividade gera renda para regiões litorâneas em meses de baixa temporada (maio a agosto), beneficiando o setor hoteleiro, de turismo e até antigos pescadores que agora trabalham como guias.


Mais do que isso, o avistamento de baleias também auxilia na pesquisa por meio da chamada ciência cidadã, uma colaboração voluntária entre o público em geral e pesquisadores profissionais para coletar, processar e analisar dados científicos. Na prática, turistas enviam fotos das baleias para identificação, dados estes posteriormente compartilhados com plataformas internacionais, como a Happy Whale.
Hoje, pelo volume de embarcações que saem das operadoras, a gente consegue ter um nível de informação muito bom. Isso já gerou até publicações científicas– pontua Julio
Para todos os casos, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), junto ao Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos (CMA), preparou um guia prático de aproximação e afastamento seguro para embarcações que, ainda que ao acaso, venham a se encontrar com uma baleia. Confira aqui.
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