Estação Espacial será jogada no oceano? Plano da NASA gera polêmica

Pesquisadores alegam falta de estudos adequados e falta de responsabilização de autoridades para pedir avaliações técnicas; entenda

15/07/2026
Plano da NASA de jogar a Estação Espacial Internacional no oceano tem causado controvérsia. Foto: NASA/JPL-Caltech/ Reprodução

Depois de 30 anos na ativa, a Estação Espacial Internacional (ISS) será desorbitada em um passo a passo que deve durar cerca de cinco anos. Contudo, esse plano, elaborado pela Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (NASA), dos Estados Unidos, se tornou alvo de questionamentos de especialistas em conservação marinha. O motivo? A estratégia prevê que o descarte ocorra no oceano.

Conforme planejado pela NASA, a ideia é conduzir a estrutura até uma área remota do Oceano Pacífico, conhecida como Ponto Nemo, o ponto mais isolado da Terra. Porém, ambientalistas defendem que a medida exige uma análise mais profunda sobre os riscos, impactos e direitos do oceano.

Localização do Ponto Nemo. Foto: Captura de tela do Google Maps / Reprodução

A origem das críticas veio após a divulgação do relatório do Government Accountability Office (GAO) que detalha, exatamente, o cronograma da desativação da estação e a transição para futuras plataformas comerciais em órbita terrestre baixa. O plano, resumidamente, é o seguinte:

  • No início ou meados de 2028, a ISS começará a ser descida por meio de uma combinação do arrasto atmosférico natural da Terra e da execução de manobras de reentrada pelo segmento russo da ISS;
  • Em meados de 2029, a NASA planeja lançar um Veículo de Dessorbitação dos EUA (USDV), fornecido pela SpaceX e financiado pelo governo, e acoplar essa espaçonave à ISS, que acionará seus 46 propulsores Draco e impulsionará a estação para o fundo do mar;
  • No final de 2030 ou início de 2031, o USDV realizará uma queima de reentrada. Isso impulsionará a ISS através da atmosfera terrestre até um ponto predeterminado — uma zona oceânica chamada Ponto Nemo.

Como era de se imaginar, foi justamente esse descarte no mar que intriga os especialistas em ecologia. Fundação cuja missão é proteger a vida dos oceanos, a Ocean Foundation, grupo com sede em Washington, DC, nos EUA, afirmou que o procedimento da NASA expõe falhas nas regras internacionais sobre a destinação de detritos espaciais em alto-mar.

Foto: NASA/ Divulgação

Segundo disse à Space.com Mark Spalding, presidente da fundação, a planejada desorbitação da Estação Espacial Internacional “levanta sérias preocupações para a saúde dos oceanos, que a comunidade espacial não tem abordado adequadamente”.

Entre as preocupações está o local do descarte, seja no Ponto Nemo ou em qualquer parte do oceano como um local conveniente. Isso porque, quando um detrito espacial cai no território de outra nação ou danificam propriedades, o país que lançou o objeto espacial deve indenizar o outro. Porém, não existe proteção equivalente para o oceano, conforme contou Spalding.

Como resultado, quando as agências espaciais têm controle sobre onde os detritos caem, elas miram no alto-mar e, ao fazer isso, não incorrem em nenhuma obrigação legal de pagar pela limpeza ou remediação ambiental– explicou Spalding

Ponto Nemo localizado no mapa. Foto: Captura de tela do Google Maps / Reprodução

Embora o ponto escolhido pela NASA seja o Ponto Nemo, o ponto mais distante da Terra em qualquer área povoada, isso não deve ser confundido com falta de valor ou vulnerabilidade, lembra Spalding. “O oceano e suas criaturas merecem a mesma proteção que o direito internacional concede aos territórios nacionais”, ressalta o presidente da Ocean Foundation.

Sabemos que nem tudo se desintegra na reentrada. Os componentes mais densos sobreviverão e chegarão ao fundo do mar– alerta Mark

Foto: leungchopan/ Envato

Por isso, organizações ambientais sustentam que a ausência de estudos conclusivos sobre os efeitos da queda dos destroços no ambiente marinho torna necessário ampliar o debate antes da execução do plano.

 

O ponto principal defendido não só por Spalding, mas por outros cientistas da área, é que não foi adequadamente estudado ou divulgado quais serão os materiais mais densos e específicos provenientes da reentrada da ISS, tampouco os danos que poderão ser causadas à vida marinha.

Astronauta Franklin R. Chang-Diaz trabalha com um dispositivo de fixação durante uma caminhada espacial. Foto: NASA/ Divulgação

Por ser a maior reentrada da história, os danos ambientais podem começar antes mesmo dos destroços atingirem a água. Para isso, Spalding destacou um Tratado de Alto-Mar recém-negociado (Acordo BBNJ) que é relevante para o abate da ISS.

 

Este documento exige que as partes realizem avaliações de impacto ambiental para atividades que possam afetar o ambiente marinho além da jurisdição nacional quando os efeitos forem desconhecidos ou pouco compreendidos.

 

Por isso, a Ocean Foundation pede à NASA uma divulgação pública de todos os materiais que sobreviverem à reentrada na atmosfera e chegarem ao fundo do oceano, além de uma análise jurídica rigorosa das Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), do Protocolo de Londres de 1996.

 

Náutica Responde

Faça uma pergunta para a Náutica

    Relacionadas

    Veleiro de luxo navega no Rio Nilo como nos tempos dos faraós do Egito

    Agência oferece passeio em dahabiyas, tradicional embarcação que remonta a experiência de navegar pelo Egito Antigo

    Iate Custom Line Saetta, de 128 pés, é lançado na Itália

    Embarcação de luxo com casco planante foi construída pelo Grupo Ferretti e lançada ao mar em Ancona

    Conesul e Vale do Ivinhema: o novo horizonte do turismo náutico brasileiro

    Com planejamento e cooperação regional, rios do Mato Grosso do Sul abrem caminho para novos destinos náuticos e oportunidades de desenvolvimento sustentável

    Contagem regressiva! Salvador Boat Show chega à 3ª edição

    Maior evento náutico da Bahia movimenta a Baía de Todos-os-Santos dos dias 5 a 8 de novembro; Saiba o que esperar do salão

    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.