Submarino Titan teve problemas identificados muito antes da tragédia, apontam investigações

Ex-diretor de operações da OceanGate teria sido demitido após apresentar relatório da embarcação e exigir mais testes

27/09/2024
Submarino Titan
Submarino Titan (Foto: OceanGate Expeditions / Divulgação)

O submarino Titan, da OceanGate, implodiu há mais de um ano, em junho de 2023, quando tentava, por meio de uma expedição, chegar até os destroços do Titanic. A repercussão sobre o assunto, contudo, segue até hoje e acaba de ganhar mais um capítulo revelador: foram identificados problemas no Titan muito antes da tragédia acontecer.

Em uma audiência realizada nesta quarta-feira (25), Don Kramer, do Conselho Nacional de Segurança nos Transportes (NTSB, em inglês), disse à Guarda Costeira dos Estados Unidos que a fibra do casco de pressão do submarino apresentava rugas e porosidade mesmo um ano antes do acidente — e essa foi apenas uma das considerações problemáticas sobre a embarcação da OceanGate.

Buracos na camada de fibra de carbono de protótipo do submarino Titan após testes de pressão da água. Foto: Guarda Costeira dos EUA / Reprodução

O submarino Titan implodiu a cerca de 3.350 metros de profundidade, em 18 de junho de 2023, enquanto levava o então diretor-executivo da OceanGate, Richard Stockton Rush III, um copiloto e três bilionários ao fundo do mar, onde estão, até hoje, os destroços do Titanic, histórico navio naufragado mais de 112 anos atrás — todos morreram.

 

Além das “rugas e porosidade”, Kramer afirmou que o submarino apresentava imperfeições vindas do processo de fabricação. O Titan teria, inclusive, mudado seu comportamento funcional após um “forte estrondo” ser ouvido durante um mergulho um ano antes da tragédia.

Momento em que o Titan é encontrado por um ROV no fundo do mar. Foto: Guarda Costeira dos EUA / Reprodução

Como se não bastasse, dois tipos diferentes de sensores no Titan registraram um “evento acústico alto”, relatado por testemunhas durante um mergulho em 15 de julho de 2022, conforme afirmou Kramer.

 

Outro grande problema do submarino foi observado ainda em 2018 por David Lochridge, ex-diretor de operações da OceanGate. Segundo informado por ele à Guarda Costeira, o material do casco do Titan, em fibra de carbono, “se deformava em altas profundidades”.


Na prática, cada descida no mar enfraquecia o submarino cada vez mais. Inclusive, peças do casco recuperadas após a tragédia mostraram uma delaminação (quando as camadas se deslocam) substancial das camadas de fibra de carbono.

Foto: OceanGate Expeditions / Divulgação

Lochridge informou aos diretores da OceanGate sobre os sinais visíveis de delaminação e outros pequenos buracos na fibra de carbono em um relatório no mesmo ano, exigindo mais testes no submarino — e foi demitido logo após apresentá-lo.

 

O relatório foi encaminhado por Lochridge à diretoria via e-mail, em janeiro de 2018. De acordo com ele, conforme exposto em audiência, suas preocupações foram “ignoradas em diversas ocasiões”.

Na minha opinião, até que ações corretivas adequadas estejam em vigor e concluídas, o Cyclops 2 (Titan) não deve ser tripulado em nenhum dos próximos testes– disse o então diretor no relatório 

Lochridge também alertou que o casco de pressão (parte do submarino que mantém os passageiros seguros) não havia sido testado, enquanto uma janela no submarino, sim, mas apenas até 1.300 metros — entretanto, o Titan mergulharia numa profundidade três vezes maior.

 

Segundo o documento judicial, a intenção da OceanGate era realizar o teste de estresse no momento da expedição, e a precaução contra uma possível implosão se baseava num sistema de alerta acústico, que soaria um alarme caso o casco começasse a se romper. O problema, neste caso, é que “não haveria tempo hábil para o sistema funcionar e impedir a tragédia”.

 

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