Como no cabelo humano, carapaças de tartarugas guardam informações e fornecem “visão” do passado

Estudo analisou como o casco desse animais pode ajudar a entender os efeitos das mudanças ambientais em espécies marinhas

06/04/2026
Imagem ilustrativa. Foto: SakisLazarides / Envato

Você já deve ter ouvido falar que o cabelo humano funciona como a “memória física” do corpo, uma vez que os fios armazenam informações sobre o nosso organismo — não à toa, podem revelar a presença de substância no corpo ou deficiência de nutrientes. Pois bem, algo parecido acontece nas carapaças das tartarugas, e estudiosos estão analisando como elas podem ajudar a entender os efeitos das mudanças ambientais nesses animais.

A semelhança com o que acontece nos fios de cabelo vem das placas ósseas que formam a carapaça das tartarugas. Isso porque elas são compostas de queratina, o mesmo material que compõe o cabelo humano. Essa proteína fibrosa é capaz de armazenar informações sobre a saúde, dieta, ambiente e exposição a substâncias químicas ao longo do tempo de crescimento capilar.

Foto: Galyna_Andrushko / Envato

Na prática, deficiências de vitaminas, minerais ou proteínas podem alterar a estrutura da queratina produzida, registrando, assim, períodos de desnutrição ou doenças. Logo, tanto os fios quanto os cascos atuam como “cápsulas do tempo” biológicas. Nas tartarugas, a queratina cresce em camadas sucessivas.

 

Ao longo do tempo, pesquisadores usaram esses registros para entender a ecologia desses animais. Agora, porém, um novo estudo, publicado na revista Marine Biology, se debruça sobre rastrear como as mudanças ambientais afetam as tartarugas marinhas.

 

A pesquisa, liderada por Bethan Linscott e Amy Wallace, em colaboração com pesquisadores da Universidade da Flórida, da Universidade de Bristol e da Earth Sciences New Zealand, aplica técnicas de radiocarbono para contextualizar historicamente esses registros químicos.

Como foi conduzido o estudo com as carapaças das tartarugas

Para determinar a rapidez com que as camadas se formam, os estudiosos removeram pequenas biópsias circulares das placas ósseas de tartarugas marinhas encalhadas, das espécies tartarugas-cabeçudas (Caretta caretta) e tartarugas-verdes (Chelonia mydas), coletadas ao longo da costa da Flórida entre 2019 e 2022.

Foto: SakisLazarides / Envato

As placas foram cortadas em seções ultrafinas, de aproximadamente 50 micrômetros de espessura. Cada uma delas foi datada por radiocarbono e comparada com o “pulso da bomba” do século 20 — técnica que considera o aumento repentino de carbono na atmosfera da Terra devido às centenas de testes nucleares acima do solo, atuando como um indicador ambiental no ambiente marinho.

 

Em seguida, os pesquisadores utilizaram a modelagem bayesiana de idade-profundidade — abordagem estatística comumente usada em arqueologia — para datar as camadas de sedimentos e estimar a rapidez com que o tecido da carapaça se acumulou.

Imagem mostra a localização da amostragem da placa para tartarugas-verdes. Foto: Marine Biology/ Divulgação

Os resultados revelaram que o crescimento das placas ósseas, considerando cada camada de 50 micrômetros, variam entre as espécies, mas representam, em média, de sete a nove meses de crescimento.


Com essa informação em mãos, a equipe pôde reconstruir uma espécie de linha do tempo, correlacionando as taxas de crescimento mais lentas com distúrbios ambientais nas águas da Flórida, a exemplo de eventos como a proliferações de algas nocivas, conhecidas como “marés vermelhas”, e grandes acúmulos de algas Sargassum.

Essas carapaças registram, na prática, o estresse ambiental no oceano. É como uma perícia forense com tartarugas marinhas. Podemos usar as impressões digitais químicas preservadas nas placas para detectar mudanças ecológicas– explicou Bethan Linscott

Ainda de acordo com a pesquisadora, o estudo pode ajudar os cientistas a entender com mais clareza como os ecossistemas marinhos estão mudando e como as espécies respondem a essas mudanças.

 

Náutica Responde

Faça uma pergunta para a Náutica

    Relacionadas

    São Paulo Boat Show 2026 tem ingressos a partir de R$ 45 e promete superar marcas da edição anterior

    Visitantes podem optar por entradas únicas ou Full Pass para os seis dias do evento, que acontece de 24 a 29 de setembro. Confira valores

    Documentário "Cada Minuto Conta": por que esse nome resume a rotina de um médico campeão da Globe40

    Filme exibido pela primeira vez durante a Semana Internacional de Vela de Ilhabela mostra como decisões tomadas em segundos aproximam a sala de cirurgia das regatas oceânicas

    De Salvador a Ilhabela: amigos rebocaram veleiro por 2 mil km para a Semana de Vela

    Planejamento começou há dois meses e envolveu a compra de um barco, reforma de um carro e um reboque emprestado; evento segue até 1º de agosto

    Secretário destaca atrações do Race Village da 53ª Semana de Vela de Ilhabela; veja o que fazer no evento

    Harry Finger ressalta que principal espaço do público reúne shows, passeios gratuitos de escuna, atividades educativas e opções de lazer para toda a família

    Mergulho gratuito na Semana de Vela de Ilhabela conquista crianças e adultos

    Atividade no Race Village permite que visitantes tenham o primeiro contato com o mergulho autônomo e promove experiências de conexão com a água