Confira cinco diferenças entre elétrica predial e elétrica náutica


Por Pedro Rodrigues*
No mercado de elétrica há diversos profissionais capacitados como instaladores, técnicos, tecnólogos e engenheiros, e diversos cursos na área com diferentes cargas horárias voltados para instalações prediais. A elétrica náutica, entretanto, mais especificamente de embarcações de esporte e recreio, possui peculiaridades que exigem do eletricista um conhecimento que vai além do abordado na maioria dos cursos voltados para instalações em residências e outros empreendimentos em terra. Além disso, conta com poucos cursos específicos na área e carece de normas técnicas nacionais. Para conhecer um pouco mais sobre o assunto, confira quais são as 5 principais diferenças entre a elétrica predial e a elétrica náutica.
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1. Uso de Extra Baixa Tensão
Por padrão, a Extra Baixa Tensão é aquela que não ultrapassa de 50 volts em Corrente Alternada ou 120v em Corrente Contínua (CC). Em embarcações de esporte e recreio, é comum o uso principal ou exclusivo de energia em CC: aquela fornecida por baterias, em geral de 12v. Se por um lado essa energia requer menos preocupações em relação a acidentes de eletrocussão, uma vez que a voltagem não é suficiente para dar choque, por outro, requer um maior cuidado em relação à queda de tensão. Enquanto um queda de 2 volts em casa, corresponde a menos de 2%, no barco isso pode representar uma diminuição de mais de 15% entre a tensão fornecida pela fonte e a recebida pela carga, o que atrapalha o funcionamento de alguns equipamentos e provoca um maior consumo de energia.
2. Armazenamento de Energia
Na maioria das residências, principalmente em área urbana, a energia elétrica é fornecida pela rede da concessionária conforme demanda, não havendo a necessidade de armazenamento em baterias. Claro que há exceções como a bateria de celulares, computadores ou nobreaks, mas para ter energia o tempo todo, conta-se com a concessionária ou, em alguns casos, com o backup de geradores.
Já em embarcações, é comum a utilização de baterias que armazenam uma carga que deve ser bem dimensionada e monitorada, assim como em terra encontramos em sistemas solares off grid (isolados da rede elétrica). Essas baterias podem ser carregadas quando conectadas ao cais através de um carregador, pelo alternador do motor da embarcação, por placas solares, geradores, etc. O tamanho do banco de baterias pode variar bastante de acordo com o porte da embarcação, os hábitos de uso, tecnologia utilizada, entre outros aspectos.
3. Maresia e Corrosão
Em função da maresia e da alta umidade, as peças metálicas da embarcação estão mais suscetíveis à corrosão. Por isso, diversos equipamentos e materiais desenvolvidos para aplicação náutica, possuem peças menos vulneráveis à corrosão como o cobre estanhado, latão niquelado ou aço inox. Além disso, as conexões devem ser feitas de modo que evite a entrada de umidade que possa provocar corrosão nos cabos elétricos até mesmo por baixo da capa isolante, aumentando a resistência dos condutores.
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4. Casa de máquinas com gasolina
Uma situação rara de se encontrar em instalações prediais, porém comum em embarcações, são as casas de máquinas de motores a gasolina ou compartimentos onde se armazena esse combustível. Estes são considerados ambientes com potencial explosivo em função da alta flamabilidade do vapor da gasolina. Nesses ambientes, não devem ser instalados equipamentos elétricos que possam provocar faíscas. Além disso, os condutores que passam por casas de máquinas devem seguir especificações de composição e padrões de instalação específicos para evitar riscos de falhas ou de provocar incêndios.
5. Aterramento na água
O aterramento é o sistema responsável por conduzir uma corrente de fuga indesejada (geralmente provocada por um fio com a isolação corrompida que encosta na carcaça metálica do equipamento) ou uma descarga atmosférica (raio) para ser dissipada evitando acidentes. Enquanto em casa temos o aterramento feito no solo, em uma embarcação ele é feito na água. Levando-se em conta esse fator, algumas questões devem ser consideradas como a corrosão de metais submersos devido à corrente galvânica ou eletrólise, o risco de eletrocução de pessoas e animais dentro da água que mesmo com uma baixa corrente pode causar a contração dos músculos e consequentemente afogamento, além do fato de que um raio que não encontre um caminho fácil até a água, com baixa resistência, pode provocar furos no casco que possam levar a embarcação a pique.
Então, na hora de botar a mão na massa ou contratar um profissional, busque as melhores práticas dentro das normas nacionais e internacionais para garantir a maior segurança, confiabilidade e durabilidade das instalações do seu barco.
*Pedro Rodrigues é velejador e orientador em Elétrica Náutica certificado pela American Boat and Yacht Council – ABYC
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O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
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