Raphael Garcia, que refez a travessia a remo de Amyr Klink, revela ter ligado para ele antes de partir
Em entrevista à NÁUTICA, jovem de 34 anos contou sobre ter escondido o projeto da família e da mídia. Ele concluiu a travessia do Atlântico Sul em 136 dias, foi recebido por Amyr e vai lançar livro


Era ainda 1984 quando Amyr Klink entrou para a história ao concluir, sozinho e a remo, a travessia do Atlântico Sul em 100 dias, partindo de Lüderitz, na Namíbia, rumo ao litoral baiano. Agora, 42 anos depois, o jovem Raphael Garcia, de 34 anos, acaba de repetir seu feito em uma jornada solitária de 136 dias no oceano.
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Garcia foi inspirado pelo best-seller “100 Dias entre Céu e Mar”, livro de Amyr que retrata o feito histórico, publicado por ele em 1985. A obra, que chegou às mãos do jovem somente em 2022, fez o que costuma fazer com quem ousa mergulhar nessa história: inspirar — neste caso, a fazer o mesmo. Segundo Klink, ele é a primeira pessoa a refazer o mesmo trajeto em solitário.
Eu li o livro em 3 dias. Pra minha surpresa, 40 anos depois, ninguém tinha refeito a viagem, fiquei desapontado. Aí me deu um lampejo: ‘por que não eu?’– recordou Raphael em entrevista à Náutica
Do zero ao expert
Formado em Engenharia Eletrônica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), Raphael não tinha experiência com o mar, tampouco vem de uma família de navegadores. Para repetir o feito de Amyr, ele precisou se debruçar nos estudos tal qual quando ainda era um universitário, antes de deixar o Brasil para ir morar na Nova Zelândia.


Eu nunca tinha remado e nem estado no mar. Meu contato com o mar se limitava a ir à praia no verão. Fazer esse projeto foi uma escola para mim, comecei do zero– explicou Garcia
Raphael conta que desmembrou o “Projeto Sater” entre marinharia, navegação celestial e a própria construção do barco. “Eu fiz um curso à vela, descobri que enjoava, mas que o remédio funcionava bem. Quando decidi me aprofundar, comecei a me voluntariar para fazer viagens costeiras pela Nova Zelândia”, detalhou.


Sua maior prova prática aconteceu pouco antes do projeto, de fato, começar, quando ele velejou do topo da Nova Zelândia até Tonga. A viagem, que era para ter durado 10 dias, durou 20. “Tivemos uns perrengues, mas para mim foi um grande aprendizado”, relembrou.
Eu adorei porque eu parti do zero. A travessia do Atlântico durou 136 dias. Eu fui meio que de iniciante a talvez um expert nesse assunto mar e remar. Tudo do zero até o último nível– reforçou Raphael Garcia
Ligação para Amyr Klink e as diferenças entre o Sater e o I.A.T.
Dois anos depois de decidir fazer a travessia, Garcia trabalhava no projeto do barco quando decidiu ligar para Amyr Klink. “Eu falei ‘tô pretendendo refazer sua viagem, já tô com projeto, e gostaria de alguns conselhos seus‘”, recordou Raphael sobre a ligação.


Ele foi muito solícito. Eu moro na Nova Zelândia então nós conversamos quase uma hora no telefone– revelou
O Sater, barco com o qual Raphael Garcia concluiu a travessia em 136 dias, é inspirado no I.A.T., embarcação usada por Amyr em 1984. O modelo, inclusive, foi usado como referência pelo arquiteto naval que trabalhou no Sater.


Embora a navegabilidade de ambos seja parecida, os barcos não são exatamente iguais. O Sater, por exemplo, tem 5,85 metros de comprimento, ao passo que o I.A.T é um pouco maior, com 5,94 metros. Os compartimentos também mudam entre um modelo e outro, especialmente porque, 42 anos depois, as coisas evoluíram.
Enquanto Amyr levou cerca de 275 litros de água potável no barco, Raphael carregou apenas um dessalinizador — e um manual como reserva. Amyr se guiava pelo sol, usando o horizonte como referência. Já Raphael pôde contar com o apoio de eletrônicos como rádio VHF, AIS (Serviço de Informação Aeronáutica) e GPS.
Apesar das facilidades tecnológicas dos dias atuais, foi justamente um conselho de Amyr, baseado em sua travessia de 1984, que fez a diferença na jornada de Raphael: a instalação de “bordas falsas” no Sater (elevações de madeira na borda do convés). Longe de ser um adorno, esta estrutura garantiu a segurança operacional, servindo como apoio para os pés durante a movimentação no convés e facilitando o manejo de cabos e o lançamento da âncora de mar.
Ainda bem que eu conversei com o Amyr porque ia ser impossível andar pelo barco se não tivesse essa madeira. Parece bobo, mas se você não anda pelo barco, você não consegue, por exemplo, puxar as cordas para colocar âncora de mar– ressaltou Raphael
Veja mais detalhes do Sater:
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Mesma rota, trajetos diferentes
Embora tenha seguido uma rota muito semelhante à de Amyr Klink, Raphael Garcia encontrou um Atlântico diferente durante sua travessia. Segundo ele, a maior frequência e duração das tempestades tornou a viagem ainda mais imprevisível. Enquanto Klink relatou ter passado cerca de 21 dias em tempestades, Raphael estima ter ficado entre 30 e 40 dias sem conseguir remar até deixar a região da corrente de Benguela.


Em alguns momentos, o intervalo entre as tempestades era de apenas poucos dias. Quando o mau tempo chegava, Raphael precisava permanecer dentro da cabine por cerca de quatro ou cinco dias, enquanto as correntes continuavam deslocando a embarcação. Depois, era necessário voltar a remar em um mar que ainda não havia se recuperado completamente.
Além das condições do oceano, outra diferença significativa esteve no acesso à informação e à tecnologia. Raphael conta que, enquanto Amyr Klink enfrentou dificuldades até para encontrar uma carta náutica da região de Lüderitz, na Namíbia — posteriormente encontrada em um abajur — ele conseguiu obter o mesmo documento pela internet em poucos dias.


Os equipamentos eletrônicos também deram a Raphael uma sensação de segurança que Klink não tinha na época. Embora um eventual resgate ainda dependesse da presença de uma embarcação nas proximidades, saber que poderia pedir ajuda em uma emergência representava uma espécie de “paz de espírito” durante a viagem.
A preparação da alimentação ainda foi um dos desafios particulares enfrentados por Raphael antes da travessia. Embora hoje seja relativamente fácil encontrar refeições desidratadas para atividades outdoor, ele precisou restringir as opções por questões relacionadas ao consumo de sal. Por isso, escolheu os alimentos principalmente pela quantidade de sódio, o que reduziu bastante a variedade disponível.


A dieta foi composta basicamente por arroz, carnes e vegetais desidratados, além de refeições prontas, como curry e latas de atum e salmão. Segundo Raphael, ele chegou a procurar empresas que pudessem desenvolver opções mais adequadas às suas necessidades, mas não encontrou alternativas customizadas em pequena escala. Com isso, a montagem do estoque de comida acabou sendo uma etapa mais complexa do que seria para outros aventureiros.
O barco era 90% comida e alguns equipamentos– descreveu
Segredo guardado a 7 chaves
Raphael decidiu manter o projeto em sigilo durante praticamente toda a preparação para a travessia. Por três anos, apenas o desenhista, o arquiteto naval e o construtor do Sater sabiam dos planos. Nem mesmo sua família tinha conhecimento da empreitada.
A decisão de contar aos pais veio apenas em 2025, quando o projeto já estava avançado. A reação, segundo Raphael, não foi das melhores. “Eles odiaram a ideia”, contou. A notícia acabou chegando ao restante da família, que, embora tenha apoiado o jovem, ficou apreensiva com os riscos da viagem.
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O sigilo também se estendeu à imprensa e a possíveis patrocinadores. Raphael afirma que não queria transformar a travessia em um evento antes mesmo de realizá-la. “Eu queria paz, queria tranquilidade para fazer a viagem, ter foco na viagem e depois vir contar a história”, explicou.
Algumas pessoas chegaram a oferecer doações e patrocínios, mas ele recusou as propostas por não querer assumir contrapartidas de divulgação durante a jornada. O resultado foi uma travessia financiada pelo próprio Raphael e realizada praticamente no anonimato — até o momento em que chegou a Salvador, em 22 de agosto, e encontrou, no fim da viagem, justamente o homem que havia inspirado toda a aventura.
Saindo de Lüderitz eu mandei uma mensagem pro Amyr. Falei: ‘bom, eu dei continuidade ao projeto e tô saindo. Esse é o telefone da minha mãe, se você quiser conversar com ela, ela tá preocupada.’ E e parti– relembrou Raphael
Quando avistou Amyr Klink descendo a rampa para recebê-lo, Raphael diz ter vivido “a cereja no topo do bolo”. Depois de 136 dias no mar, o encontro entre os dois simbolizou o cruzamento entre o passado e o presente de uma mesma história. Veja o momento:
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Travessia de Raphael vai virar livro
Assim como fez Amyr Klink após sua histórica travessia, Raphael Garcia também pretende transformar a experiência em livro. O projeto já está em andamento: ele começou a escrever há quatro anos, quando iniciou os preparativos para a viagem, e espera concluir a obra até o fim de 2026. Um documentário também está nos planos.
Mais do que repetir um feito histórico, porém, Raphael diz que a travessia lhe ensinou sobre a relação entre sonho e determinação. Para ele, projetos dessa dimensão carregam, ao mesmo tempo, uma dose de loucura e de sonho — e é justamente por isso que não se pode deixar a possibilidade de desistir aberta. “Se eu tivesse como opção desistir em qualquer momento do projeto, eu desistiria”, afirmou.
Eu pensava ‘será que eu tô louco?’ Em que momento você divide a loucura de um sonho grande? Na verdade, isso não existe. Uma viagem desse porte é os dois ao mesmo tempo– frisou
A filosofia de não desistir também serviu para atravessar os dias mais difíceis no oceano. Em alguns momentos, quando as condições estavam próximas do limite, a prioridade deixava de ser cumprir a rota e passava a ser simplesmente sobreviver. “Hoje é um dia para sobreviver. Eu não me importo de sair da rota. Sobrevive, termina o dia vivo e amanhã você faz o resto”, relembrou. Depois de quatro anos de preparação e 136 dias no mar, é essa combinação entre sonhar grande e ter determinação para seguir em frente que Raphael leva da experiência.
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