Mais de 5 bilhões: cientistas descobrem motivo de morte em massa de estrelas-do-mar
Mais de 20 espécies foram devastadas do México ao Alasca, com animais perdendo 90% da sua população


Depois de uma espécie quase ser dizimada, finalmente foi identificado o responsável por matar bilhões de estrelas-do-mar — no que é considerada a maior epidemia já documentada na natureza. Segundo pesquisadores, o microrganismo culpado pela doença devastadora é a cepa da bactéria Vibrio pectenicida.
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A doença causou a morte de estrelas-do-mar em massa na costa do Pacífico, do México ao Alasca. Mais de 20 espécies foram devastadas — e a mortalidade em massa ainda persiste. O motivo, entretanto, continuava um mistério, até o estudo publicado no periódico Nature Ecology & Evolution.


Ao todo, a espécie que mais sofreu com essa “limpa” foi a estrela-do-mar-girassol (Pycnopodia helianthoides), que perdeu nos últimos 10 anos 5,8 bilhões de espécimes, o equivalente a 90% da sua população. Não à toa, ela está na lista vermelha de espécies criticamente ameaçadas pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
As primeiras pesquisas apontavam para o densovírus como o causador, mas ele era apenas um residente comum nas estrelas-do-mar saudáveis e não havia qualquer relação com a doença, conforme explicou Melanie Prentice, do Hakai Institute e coautora do estudo.
Pesquisas anteriores também falharam por analisar tecidos de animais já mortos e produziram resultados inconclusivos. Porém, ao examinar o fluido celômico (líquido presente na cavidade corporal de alguns animais) das estrelas-do-mar, os pesquisadores conseguiram confirmar a V. pectenicida como grande causadora das mortes, devido à sua abundância ali.
Os impactos da devastação
Quando em contato com a cepa, as estrelas-do-mar sofriam lesões externas, levando à perda de membros, contorção e, por fim, à morte dos indivíduos afetados ao derreter seus tecidos em uma pasta branca, semelhante a muco.


A ecologista marinha Alyssa Gehman, também do Hakai Institute e que ajudou a identificar a causa, explica que as estrelas têm “braços gordinhos e esticados”, mas a doença faz com que desenvolvam lesões e, eventualmente, os percam. “É realmente horrível”, diz ela.
Foi um desafio apontar a doença, visto que era impossível identificá-la sem conhecer o patógeno. Afinal, as estrelas-do-mar podem responder com sinais visuais semelhantes a outros fatores estressantes, como baixo nível de oxigênio, variação de salinidade e calor extremo.


As espécies de bactérias Vibrio são conhecidas por proliferar em águas quentes durante eventos anômalos de aquecimento marinho. Porém, faltam mais estudos para identificar se há alguma ligação indireta com este fenômeno e a hecatombe de estrelas-do-mar.
E como tudo na natureza funciona num efeito em cadeia, a quase dizimação das estrelas-do-mar-girassol traz impacto nas ramificações dos ecossistemas marinhos. Conforme explica Prentice, as populações de ouriços-do-mar aumentam, o que significa a perda de florestas de algas marinhas.
Isso tem amplas implicações para todas as outras espécies marinhas e humanos que dependem delas– conta a cientista
As florestas de algas marinhas fornecem habitat para milhares de criaturas, sustentam as economias locais pela pesca e são culturalmente importantes para as Primeiras Nações e comunidades tribais. Além disso, protegem o litoral de tempestades e estabilizam sedimentos.
Ainda tem volta?
Embora a epidemia ainda não tenha terminado, acredita-se que o avanço em descobrir qual é a doença contribua para os esforços de recuperação e tratamento de diversas espécies de estrelas-do-mar — apesar do declínio.
Agora que descobrimos o agente causador da doença, tenho esperança de que possamos realmente fazer algo pelas estrelas-do-mar-girassol– afirmou a Dra. Alyssa Gehman, do Instituto Hakai


Os métodos estudados para tentar restaurar a população de estrelas-do-mar — e, consequentemente, as florestas de algas marinhas — incluem a reprodução em cativeiro para indivíduos resistentes e o desenvolvimento de soluções probióticas para serem introduzidas nos ecossistemas.
Podemos ser realmente específicos na forma como trabalhamos com elas, e acho que isso nos ajudará a avançar muito mais rápido e a tentar combater a doença– destacou Gehman
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