Mais de 5 bilhões: cientistas descobrem motivo de morte em massa de estrelas-do-mar

Mais de 20 espécies foram devastadas do México ao Alasca, com animais perdendo 90% da sua população

13/08/2025
Foto: Wikimedia Commons/ Creative Commons/ Reprodução

Depois de uma espécie quase ser dizimada, finalmente foi identificado o responsável por matar bilhões de estrelas-do-mar — no que é considerada a maior epidemia já documentada na natureza. Segundo pesquisadores, o microrganismo culpado pela doença devastadora é a cepa da bactéria Vibrio pectenicida.

A doença causou a morte de estrelas-do-mar em massa na costa do Pacífico, do México ao Alasca. Mais de 20 espécies foram devastadas — e a mortalidade em massa ainda persiste. O motivo, entretanto, continuava um mistério, até o estudo publicado no periódico Nature Ecology & Evolution.

Foto: AlbertoCarrera/ Envato

Ao todo, a espécie que mais sofreu com essa “limpa” foi a estrela-do-mar-girassol (Pycnopodia helianthoides), que perdeu nos últimos 10 anos 5,8 bilhões de espécimes, o equivalente a 90% da sua população. Não à toa, ela está na lista vermelha de espécies criticamente ameaçadas pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

 

As primeiras pesquisas apontavam para o densovírus como o causador, mas ele era apenas um residente comum nas estrelas-do-mar saudáveis e não havia qualquer relação com a doença, conforme explicou Melanie Prentice, do Hakai Institute e coautora do estudo.

Pesquisas anteriores também falharam por analisar tecidos de animais já mortos e produziram resultados inconclusivos. Porém, ao examinar o fluido celômico (líquido presente na cavidade corporal de alguns animais) das estrelas-do-mar, os pesquisadores conseguiram confirmar a V. pectenicida como grande causadora das mortes, devido à sua abundância ali.

Os impactos da devastação

Quando em contato com a cepa, as estrelas-do-mar sofriam lesões externas, levando à perda de membros, contorção e, por fim, à morte dos indivíduos afetados ao derreter seus tecidos em uma pasta branca, semelhante a muco.

Estrelas-do-mar-girassol. Foto: Wikimedia Commons/ Creative Commons/ Reprodução

A ecologista marinha Alyssa Gehman, também do Hakai Institute e que ajudou a identificar a causa, explica que as estrelas têm “braços gordinhos e esticados”, mas a doença faz com que desenvolvam lesões e, eventualmente, os percam. “É realmente horrível”, diz ela.

 

Foi um desafio apontar a doença, visto que era impossível identificá-la sem conhecer o patógeno. Afinal, as estrelas-do-mar podem responder com sinais visuais semelhantes a outros fatores estressantes, como baixo nível de oxigênio, variação de salinidade e calor extremo.

Estrela-do-mar-girassol. Foto: wirestock/ Envato

As espécies de bactérias Vibrio são conhecidas por proliferar em águas quentes durante eventos anômalos de aquecimento marinho. Porém, faltam mais estudos para identificar se há alguma ligação indireta com este fenômeno e a hecatombe de estrelas-do-mar.

 

E como tudo na natureza funciona num efeito em cadeia, a quase dizimação das estrelas-do-mar-girassol traz impacto nas ramificações dos ecossistemas marinhos. Conforme explica Prentice, as populações de ouriços-do-mar aumentam, o que significa a perda de florestas de algas marinhas.

Isso tem amplas implicações para todas as outras espécies marinhas e humanos que dependem delas– conta a cientista

As florestas de algas marinhas fornecem habitat para milhares de criaturas, sustentam as economias locais pela pesca e são culturalmente importantes para as Primeiras Nações e comunidades tribais. Além disso, protegem o litoral de tempestades e estabilizam sedimentos.

Ainda tem volta?

Embora a epidemia ainda não tenha terminado, acredita-se que o avanço em descobrir qual é a doença contribua para os esforços de recuperação e tratamento de diversas espécies de estrelas-do-mar — apesar do declínio.

Agora que descobrimos o agente causador da doença, tenho esperança de que possamos realmente fazer algo pelas estrelas-do-mar-girassol– afirmou a Dra. Alyssa Gehman, do Instituto Hakai

Pele da estrela-do-mar-girassol vista de perto. Foto: joebelanger/ Envato

Os métodos estudados para tentar restaurar a população de estrelas-do-mar — e, consequentemente, as florestas de algas marinhas — incluem a reprodução em cativeiro para indivíduos resistentes e o desenvolvimento de soluções probióticas para serem introduzidas nos ecossistemas.

Podemos ser realmente específicos na forma como trabalhamos com elas, e acho que isso nos ajudará a avançar muito mais rápido e a tentar combater a doença– destacou Gehman

 

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.