Estudo revela que baleias-jubarte em migração perdem, em média, 11 toneladas de gordura
Pesquisa usou drones para quantificar o gasto energético do animal em sua jornada épica


Um novo estudo, publicado em julho na revista Marine Mammal Science, detalhou o esforço que as baleias-jubarte do hemisfério sul enfrentam em suas longas jornadas migratórias. A pesquisa revelou que essas gigantes dos oceanos chegam a perder impressionantes 11 toneladas de gordura a cada ciclo, um feito que redefine nossa compreensão sobre a fisiologia e as demandas energéticas desses cetáceos.
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A metodologia empregada pelos pesquisadores utilizou a fotogrametria (técnica baseada em drones) para obter imagens de alta definição. Dessa forma, os cientistas conseguiram monitorar o volume corporal das baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae) sem interferir em seu comportamento natural, garantindo dados precisos e não invasivos sobre os animais.
O período de observação, que se estendeu de 2017 a 2019, focou em áreas cruciais para a sobrevivência das baleias: as águas gélidas de alimentação na Península Antártica Ocidental e a costa de reprodução na Colômbia. A coleta de dados nesses locais foi essencial para compreender o impacto da migração no metabolismo e nas reservas energéticas dos animais.


Compreendendo as condições das baleias
Com um total de 282 baleias medidas, o estudo concentrou análises em 103 indivíduos adultos. A partir das imagens, foram feitas medições detalhadas de comprimento e largura, que permitiram estimar o volume corporal de cada baleia.
A “condição corporal” de cada animal foi calculada comparando seu volume real com o volume esperado para seu tamanho. O resultado forneceu retratos fiéis das reservas de gordura.
Essas medições permitiram aos cientistas quantificar a importância das reservas de gordura para a sobrevivência das jubartes, especialmente durante os períodos de migração e reprodução, quando o jejum se torna uma parte inevitável na rotina. Nesse momento, é a energia estocada que as mantém vivas.


Os resultados do estudo revelaram padrões sazonais na condição corporal das baleias. O pico de acúmulo de gordura acontece entre o início de março e o final de maio, marcando o clímax da temporada de alimentação antártica, quando as baleias se preparam para a exaustiva viagem rumo às águas quentes para reprodução.
Por outro lado, o ponto mais baixo na condição corporal das jubartes foi observado entre o final de agosto e o início de dezembro. Essa fase coincide com o término do jejum reprodutivo e a espera pelo retorno à Antártica, evidenciando o quão esgotadas estão as reservas energéticas antes do próximo ciclo de alimentação.
O custo da migração em números
O estudo revelou que uma baleia-jubarte adulta perde, em média, cerca de 36% de sua condição corporal durante a migração. Essa redução colossal demonstra o esforço biológico extremo que a espécie enfrenta para garantir a continuidade de sua linhagem e a perpetuação do ciclo da vida.
Traduzindo essa perda em números práticos, cada jubarte perde aproximadamente 12 m³ de volume, o que equivale a impressionantes 11 toneladas de gordura. Essa massa, que funciona como a principal reserva de energia, é consumida ao longo da jornada.
A pesquisa especificou ainda que essa perda equivale a 5 toneladas de lipídios puros. Em outras palavras, isso corresponde a um déficit energético de 196 milhões quilojoules, o equivalente à energia contida em 57 toneladas de krill antártico, o minúsculo crustáceo que é a base da dieta das baleias.


Esses dados reforçam a importância crucial do krill para a sobrevivência das baleias-jubarte. A dependência energética desses pequenos organismos torna as jubartes vulneráveis a flutuações nas populações de krill, que já enfrentam ameaças como o aquecimento global e a pesca predatória em algumas regiões.
Uma ferramenta para a conservação
Esses pequenos crustáceos formam imensos cardumes que flutuam sobre as gélidas águas antárticas, sendo um banquete fácil para as baleias, mas também alvo de atividades humanas. A saúde das jubartes está, portanto, intrinsecamente ligada à saúde do ecossistema onde se alimentam.


O estudo representa uma nova ferramenta para a ciência, que permite identificar os padrões de comportamento das baleias-jubarte. A partir deles, é possível prever possíveis períodos de vulnerabilidade da espécie.
Desvendar os custos energéticos da migração desses cetáceos, portanto, não apenas enriquece o conhecimento científico, mas também reforça a urgência de esforços globais que protejam os oceanos e as majestosas criaturas que dependem deles.
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O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!




