Quando o Canadá ensina o óbvio: tributar barcos é punir empregos
Canadá acaba de revogar o imposto que, desde 2022, incidia sobre barcos. Governo arrecadou menos do que o custo de administrar a tarifa


Há decisões que falam por si. O Canadá acaba de revogar o imposto que, desde 2022, incidia sobre barcos. A medida foi anunciada com pompa há três anos, vendida como forma de “taxar o luxo”. Mas o resultado foi exatamente o oposto do que se prometia: menos arrecadação, menos empregos e mais prejuízo para a indústria.
Revolução de um trilhão de dólares: como a nova regra da IMO pode posicionar o Brasil no centro da indústria naval mundial
JAQ H1: barco a hidrogênio vai representar o Brasil na COP30 e promete um novo futuro para as águas
Inscreva-se no Canal Náutica no YouTube
No papel, a ideia parecia simples: cobrar 20% sobre barcos acima de US$ 250 mil. Na prática, foi um desastre. O governo esperava arrecadar US$ 176 milhões por ano. Conseguiu apenas US$ 12 milhões, menos do que o próprio custo de administrar o imposto. E, enquanto o dinheiro não entrava, os empregos desapareciam. Encomendas foram suspensas e centenas de trabalhadores foram demitidos.
O próprio governo canadense reconheceu o erro. Em seu orçamento de 2025, admitiu que a medida “custou mais do que rendeu” e “afetou negativamente setores estratégicos da economia”. O tributo que nasceu para punir o luxo acabou punindo a produção, os empregos.
Um país que entende o valor da náutica navega melhor rumo ao desenvolvimento
O que aconteceu no Canadá não é uma coincidência. É um alerta — e, talvez, um espelho do que o Brasil deve evitar a qualquer custo. Tenho repetido há anos: taxar barcos não é taxar o luxo. É taxar empregos.
Quem nunca pisou num estaleiro talvez não entenda, mas cada barco fabricado envolve dezenas de mãos, de histórias, de famílias que vivem desse trabalho. São laminadores, marceneiros, eletricistas, projetistas, pintores. Gente que transforma fibra em sonhos flutuantes.


Quando se cria um imposto sobre barcos, não é o comprador que sofre, mas toda essa cadeia de empregos. É a cidade costeira que depende do turismo náutico, é o comércio local que deixa de vender, é a indústria nacional que perde competitividade. A náutica não é luxo. É economia real!
O setor náutico brasileiro tem tudo para ser um motor da Economia do Mar — um conceito que envolve turismo, lazer, tecnologia e sustentabilidade. Mas para isso, precisa de estímulo, não de estigma. Nosso setor não é luxo. É uma cadeia produtiva ampla. Precisamos de políticas que incentivem, não que penalizem o desenvolvimento.
Enquanto alguns ainda enxergam um barco apenas como um símbolo de status, o mundo desenvolvido enxerga um setor estratégico, que gera renda, movimenta turismo e exporta inovação. O Canadá, ao reconhecer seu erro, entendeu isso.
Crescer com inteligência
Revogar o imposto foi, para o Canadá, mais do que uma medida econômica. Foi um ato de inteligência. Admitir que o erro custava caro — e ter coragem de corrigi-lo — exige visão de futuro.
O Brasil precisa dessa mesma coragem. Porque o que está em jogo é o trabalho de muitos. Mais de 120 mil pessoas que vivem da náutica. Cada barco que deixa de ser fabricado, vendido ou usado são muitos empregos que se perdem, uma renda que deixa de circular, uma família que vê a maré baixar.
A náutica é, e sempre será, um dos pilares mais poderosos da economia que nasce da água. Basta que saibamos, como fez o Canadá, navegar com bom senso, e não contra a maré.
Otto Aquino é jornalista e diretor de conteúdo da Revista Náutica. Há mais de 20 anos acompanha o mercado náutico brasileiro
Náutica Responde
Faça uma pergunta para a Náutica
Relacionadas
Vaga inclui conviver com mais ovelhas do que pessoas na Ilha de Bardsey, em total conexão com a natureza e longe, inclusive, da iluminação artificial
Fabricante japonesa completa 40 anos de história nos jets em nova coleção focada em performance e tecnologia
Modelo foi apresentado em quatro versões durante o Audi e-tron Experience, encontro dedicado à linha elétrica da marca no Ceará
Descoberta próxima à Fossa das Marianas, a 3 mil metros de profundidade, substância sobrevive em ambiente extremamente hostil e sem luz
Apesar da breve trajetória na náutica, Samarlon já navegou por ao menos seis embarcações e consolidou preferência por um estaleiro




