Quando o Canadá ensina o óbvio: tributar barcos é punir empregos

Canadá acaba de revogar o imposto que, desde 2022, incidia sobre barcos. Governo arrecadou menos do que o custo de administrar a tarifa

Por: Otto Aquino -
07/11/2025
Foto: wirestock / Envato

Há decisões que falam por si. O Canadá acaba de revogar o imposto que, desde 2022, incidia sobre barcos. A medida foi anunciada com pompa há três anos, vendida como forma de “taxar o luxo”. Mas o resultado foi exatamente o oposto do que se prometia: menos arrecadação, menos empregos e mais prejuízo para a indústria.

No papel, a ideia parecia simples: cobrar 20% sobre barcos acima de US$ 250 mil. Na prática, foi um desastre. O governo esperava arrecadar US$ 176 milhões por ano. Conseguiu apenas US$ 12 milhões, menos do que o próprio custo de administrar o imposto. E, enquanto o dinheiro não entrava, os empregos desapareciam. Encomendas foram suspensas e centenas de trabalhadores foram demitidos.

 

O próprio governo canadense reconheceu o erro. Em seu orçamento de 2025, admitiu que a medida “custou mais do que rendeu” e “afetou negativamente setores estratégicos da economia”. O tributo que nasceu para punir o luxo acabou punindo a produção, os empregos.

Um país que entende o valor da náutica navega melhor rumo ao desenvolvimento

O que aconteceu no Canadá não é uma coincidência. É um alerta — e, talvez, um espelho do que o Brasil deve evitar a qualquer custo. Tenho repetido há anos: taxar barcos não é taxar o luxo. É taxar empregos.

 

Quem nunca pisou num estaleiro talvez não entenda, mas cada barco fabricado envolve dezenas de mãos, de histórias, de famílias que vivem desse trabalho. São laminadores, marceneiros, eletricistas, projetistas, pintores. Gente que transforma fibra em sonhos flutuantes.

NÁUTICA visitou o estaleiro Fibrafort, em Itajaí (SC), que soma mais de 18 mil lanchas pelo mundo. Foto: Revista Náutica

Quando se cria um imposto sobre barcos, não é o comprador que sofre, mas toda essa cadeia de empregos. É a cidade costeira que depende do turismo náutico, é o comércio local que deixa de vender, é a indústria nacional que perde competitividade. A náutica não é luxo. É economia real!

 

O setor náutico brasileiro tem tudo para ser um motor da Economia do Mar — um conceito que envolve turismo, lazer, tecnologia e sustentabilidade. Mas para isso, precisa de estímulo, não de estigma. Nosso setor não é luxo. É uma cadeia produtiva ampla. Precisamos de políticas que incentivem, não que penalizem o desenvolvimento.


 

Enquanto alguns ainda enxergam um barco apenas como um símbolo de status, o mundo desenvolvido enxerga um setor estratégico, que gera renda, movimenta turismo e exporta inovação. O Canadá, ao reconhecer seu erro, entendeu isso.

Crescer com inteligência

Revogar o imposto foi, para o Canadá, mais do que uma medida econômica. Foi um ato de inteligência. Admitir que o erro custava caro — e ter coragem de corrigi-lo — exige visão de futuro.

 

O Brasil precisa dessa mesma coragem. Porque o que está em jogo é o trabalho de muitos. Mais de 120 mil pessoas que vivem da náutica. Cada barco que deixa de ser fabricado, vendido ou usado são muitos empregos que se perdem, uma renda que deixa de circular, uma família que vê a maré baixar.

 

A náutica é, e sempre será, um dos pilares mais poderosos da economia que nasce da água. Basta que saibamos, como fez o Canadá, navegar com bom senso, e não contra a maré.

 

Otto Aquino é jornalista e diretor de conteúdo da Revista Náutica. Há mais de 20 anos acompanha o mercado náutico brasileiro

 

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