Itajaí Sailing Team


Depois de ganhar uma marina de padrão internacional e sediar, por duas vezes, as regatas Volvo Ocean Race e Jacques Vabre, a cidade de Itajaí, em Santa Catarina, deu mais uma mostra de porque é considerada a nova capital da vela de oceano do Brasil. Em um concorrido evento ontem, dia 21, na Marina Itajaí, foi apresentado o novo barco da equipe de vela que representará a cidade nas principais regatas do país nos próximos dois anos, um veleiro de alta performance Soto 40, considerado um puro-sangue das regatas. Itajaí é a única cidade do país que tem uma equipe oficial de vela, embora ela tenha sido criada e seja mantida por iniciativa de um grupo de velejadores da cidade, liderados pelo entusiasta Alexandre Santos, um ex-diretor do porto da cidade, que, dois anos atrás, abriu mão do cargo para se dedicar apenas a organização das regatas internacionais que já fizeram paradas na cidade, além de criar uma equipe de vela para o município, o Itajaí Sailing Team, e, agora, coordenar a compra do novo barco do time. “Nosso objetivo não é apenas participar de regatas e divulgar a cidade, mas, principalmente, estimular o surgimento de novos velejadores entre os jovens e crianças de Itajaí”, disse Alexandre, no bonito evento de lançamento do novo barco da equipe – que já vem com um invejável histórico de vitórias.
O novo veleiro do Itajaí Sailing Team é, nada mais, nada menos, do que o barco com o qual Torben Grael, um dos maiores nomes da história da vela de oceano no país e o maior medalhista olímpico do Brasil, usou nos últimos seis anos nas competições da classe Soto 40. Ele foi vendido para a equipe catarinense e, no seu lançamento, contou com a presença do próprio Torben no evento. “O Soto 40 é um barco que exige bastante conhecimento técnico e isso ajudará muito no desenvolvimento dos membros da equipe”, disse Torben, ao entregar o barco aos seus novos donos.
Até aqui, o Itajaí Sailing Team, criado dois anos atrás, vinha participando de regatas com um barco de cruzeiro adaptado para competições. Agora, com o Soto 40 que pertenceu a Torben, um dos únicos seis barcos desse tipo que existem no país, terá um barco 100% regateiro. “Nossa estreia com o novo barco será no Ubatuba Sailing Festival, em maio. Depois, participaremos da Semana de Vela de Ilhabela, da Refeno, da regata Santos-Rio e da Volta a Ilha, em Floripa, além de ações promocionais com os nossos patrocinadores nas Olimpíadas do Rio”, contou Alexandre no evento. Além dele, a equipe é formada por outros nove velejadores, todos catarinenses (sete da própria Itajaí), além de um “velejador-mirim”, o jovem João Pedro Copello, de apenas 13 anos, ex-aluno da associação náutica de Itajaí, que participará de todas as regatas, dentro do princípio de formar novos velejadores na cidade. O comandante do barco será o velejador Marcelo Gusmão e o treinador o time o velejador profissional André Fonseca, o Bochecha, ex-campeão mundial da classe e o único brasileiro na última Volvo Ocean Race. “O que estes caras de Itajaí estão fazendo em prol da vela é um magnífico exemplo”, disse Bochecha no evento.
Bem estruturada e com tudo planejado, o primeiro grande objetivo internacional da equipe, que este ano tem o patrocínio de sete grandes empresas da região, APM Terminals, Multilog, JBS, Brasfrigo e Poly Terminais, além do apoio da Molim e Anasol, é a participação na regata Capetown-Rio em 2019, que atravessará o Atlântico, da África para o Rio de Janeiro, daqui há três anos, mas já com outro barco, um veleiro de competição da classe Open 60, que será construído na própria cidade, já a partir do ano que vem. “Até lá, estaremos aprendendo e treinando bastante com o novo barco”, diz Alexandre. Depois, se as condições financeiras permitirem, o Itajaí Sailing Team sonha com a participação na regata de volta ao mundo Volvo Ocean Race, marcando assim a volta de uma equipe brasileira na maior regata do mundo. E, pelo que o envolvimento da cidade com a vela já mostrou, convém não duvidar disso.
Fotos: Divulgação
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Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!











