Novo tarifaço de 25% dos EUA acende alerta para exportações de barcos brasileiros
Com tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos do Brasil, estaleiros podem perder competitividade no mercado americano; setor ainda carrega histórico de pressão desde a taxação de 2025


O novo tarifaço dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros reacende um alerta para a indústria náutica nacional. A medida, que entrou em vigor nesta quarta-feira (22), impõe uma tarifa adicional de 25% sobre uma ampla lista de exportações brasileiras e pode atingir também embarcações de esporte e recreio, dependendo da classificação aduaneira de cada modelo.
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Para o setor náutico, o principal risco está na perda de competitividade no mercado americano, um dos destinos mais importantes para lanchas e iates fabricados no Brasil. Como embarcações de recreio não aparecem, em princípio, entre as exceções publicadas, a entrada desses produtos nos Estados Unidos tende a enfrentar o adicional de 25%, segundo avaliação de especialistas em comércio exterior.


“O novo tarifaço pode afetar de forma relevante as exportações brasileiras de lanchas e iates, porque as embarcações de recreio não aparecem entre as exceções publicadas e, em princípio, passam a enfrentar o adicional de 25% na entrada nos Estados Unidos, sempre dependendo da classificação aduaneira de cada modelo”, afirma Jackson Campos, especialista em Comércio Exterior.
Na prática, o imposto é recolhido pelo importador americano. Mas o custo tende a ser compartilhado ao longo da negociação, seja por meio de descontos, renegociação de contratos ou redução da margem dos estaleiros brasileiros.
Em uma embarcação de US$ 1 milhão, por exemplo, o adicional de 25% representaria US$ 250 mil antes de outras cobranças. Para barcos de maior valor, o impacto pode chegar a centenas de milhares de dólares, o que tende a alongar ciclos de venda e tornar negociações mais difíceis.
Efeito não é igual para todos os estaleiros
Para Eduardo Colunna, presidente da Associação Brasileira dos Construtores de Barcos e seus Implementos (Acobar), uma tarifa adicional de 25% dos Estados Unidos pode ter impacto relevante para os estaleiros brasileiros de barcos de esporte e recreio, mas o efeito não é uniforme.


Segundo ele, é preciso considerar que a tarifa americana incide sobre o barco exportado do Brasil para os Estados Unidos, mas não sobre motores e equipamentos importados dos EUA que são utilizados na composição da embarcação.
A tarifa não incide sobre os motores e equipamentos importados dos EUA para compor o barco exportado para os EUA– explica Colunna
Ainda assim, a preocupação permanece porque o setor náutico tem uma cadeia produtiva fortemente internacionalizada. Uma embarcação fabricada no Brasil pode reunir motores americanos, eletrônica americana, sistemas de navegação, equipamentos de segurança, componentes europeus e asiáticos, além de outros insumos importados.
Por isso, uma eventual queda nas exportações brasileiras para os Estados Unidos pode afetar não apenas os estaleiros, mas também fornecedores de componentes, distribuidores, transportadores e prestadores de serviços ligados à cadeia náutica.
A situação atual merece atenção porque as regras comerciais EUA–Brasil vêm mudando rapidamente– afirma Colunna
Componentes importados também entram na conta
Embora a tarifa americana não encareça diretamente os motores e equipamentos quando esses itens entram no Brasil, o impacto indireto pode aparecer em outros pontos da operação.


Segundo Jackson Campos, itens como motores, sistemas de propulsão, eletrônica de navegação, geradores e climatização têm peso relevante no custo final de uma embarcação produzida no país. A pressão cambial, o frete, uma eventual resposta tarifária do Brasil e a redução da escala de produção podem elevar custos para os estaleiros.
A alta dos componentes importados afeta diretamente o preço da embarcação fabricada no Brasil, principalmente em itens como motores, sistemas de propulsão, eletrônica de navegação, geradores e climatização– afirma o especialista
Como muitos desses equipamentos têm poucos substitutos nacionais, os estaleiros podem ser obrigados a absorver parte do aumento, rever a configuração dos barcos ou repassar custos ao comprador.
Compra pode ficar mais lenta
Por se tratar de um bem de alto valor, a compra de lanchas e iates costuma envolver negociação longa, personalização, financiamento, análise cambial e planejamento de uso. Com a tarifa adicional, a incerteza tende a aumentar.


Para Jackson, o efeito mais provável não é necessariamente o cancelamento imediato de todos os pedidos, mas sim um ciclo de venda mais longo, com mais renegociação e contratos condicionados.
O cliente pode esperar para saber se haverá negociação, nova exceção ou mudança na tarifa, sobretudo quando o custo adicional chega a centenas de milhares de dólares– afirma
Esse cenário pode pressionar especialmente estaleiros que vinham usando os Estados Unidos como mercado estratégico para crescimento internacional. Com os barcos brasileiros mais caros na chegada ao mercado americano, concorrentes de outros países podem ganhar vantagem em preço, prazo ou previsibilidade.
Mercado brasileiro também pode sentir reflexos
Os barcos vendidos no mercado interno não pagam a tarifa americana. Ainda assim, o consumidor brasileiro não está totalmente isolado dos efeitos do novo tarifaço.


Se houver valorização do dólar, aumento do frete ou encarecimento de componentes importados, o custo de produção no Brasil pode subir. Por outro lado, caso estaleiros percam pedidos nos Estados Unidos, parte da produção pode ser redirecionada ao mercado doméstico, aumentando a oferta e limitando reajustes no curto prazo.
O efeito doméstico dependerá desse equilíbrio e também de uma eventual resposta tarifária do Brasil– avalia Jackson
Ou seja: o impacto para o mercado brasileiro pode variar conforme o comportamento do câmbio, das negociações internacionais, da demanda interna e da capacidade dos estaleiros de redirecionar produção.
Histórico: antigo tarifaço já havia pressionado exportações náuticas
O novo pacote tarifário chega depois de um período de forte tensão comercial entre Brasil e Estados Unidos. Em 2025, o governo americano já havia imposto uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, medida que atingiu a competitividade de diferentes setores exportadores. No caso da náutica, estaleiros brasileiros projetavam uma queda de mais de 30% nas exportações de embarcações, principalmente lanchas e iates, para o mercado americano.


Naquele momento, o setor já alertava que a sobretaxa poderia tornar os barcos brasileiros menos competitivos nos Estados Unidos. O mercado americano era apontado como o principal destino de vendas de estaleiros instalados no Brasil, com receita de US$ 41 milhões em 2024, o equivalente a cerca de 60% dos embarques do segmento, segundo dados citados pela Bloomberg Línea.
A tarifa de 50% entrou em vigor em agosto de 2025, e as exportações brasileiras totais para os Estados Unidos caíram 18,5% naquele mês, de acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior.
Para a indústria náutica, o histórico ajuda a explicar a preocupação atual. O novo adicional de 25% pode não ter efeito uniforme sobre todos os fabricantes, mas amplia a incerteza em um setor que depende de contratos de alto valor, componentes importados, planejamento de longo prazo e presença em mercados internacionais.
Cadeia internacionalizada amplia desafio
A indústria brasileira de barcos de esporte e recreio compete em um segmento no qual design, acabamento, tecnologia embarcada, motorização e pós-venda pesam tanto quanto o preço. A presença de componentes importados é parte estrutural desse modelo de produção.


Por isso, uma tarifa aplicada na entrada do barco nos Estados Unidos pode ter efeitos que ultrapassam a relação entre exportador e importador. Se o barco brasileiro perde competitividade, o impacto pode chegar à escala de produção, à negociação com fornecedores, à logística internacional e aos planos de expansão de estaleiros.
Ao mesmo tempo, a situação ainda depende da aplicação prática das regras, da classificação aduaneira de cada embarcação, de eventuais exceções, de negociações entre Brasil e Estados Unidos e da reação do mercado comprador.
Enquanto isso, o setor acompanha o avanço das medidas com cautela. Para os estaleiros, a pergunta central passa a ser como preservar competitividade em um mercado onde cada ponto percentual de custo pode representar centenas de milhares de dólares em uma única venda.
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