O que fazer quando alguém a bordo gritar “homem ao mar”?
A situação é grave e aflitiva. Felizmente, só acontece com raríssima freqüência e quase sempre apenas em regatas, quando a intensa atividade a bordo dá margem a riscos maiores. Quando, porém, ocorre de um tripulante cair do barco, o procedimento correto (e, principalmente, a rapidez com que ele precisa ser executado!) pode significar a diferença entre resgatar o náufrago com vida ou perdê-lo para sempre.
O ser humano pode sobreviver na água fria por pouco tempo, devido aos efeitos da hipotermia. Nossas águas não são tão geladas assim, mas, localizar uma pessoa na imensidão do oceano nem sempre é fácil, especialmente à noite.
Segundo estatísticas da Guarda Costeira Americana, cerca de 70% das pessoas que caem de um barco no mar e não são resgatadas na primeira tentativa não costumam mais serem encontradas na segunda — sim, a coisa é bem séria! Por isso, veja a seguir o passo a passo correto sobre o que fazer quando alguém a bordo gritar o quase trágico “homem ao mar!”.
Quatro passos para resgatar um tripulante
1º Localização
A pessoa que perceber o acidente deve gritar imediatamente, alertando a tripulação, e parar o barco. Ao mesmo tempo, deve grudar os olhos na vítima, não desgrudando dela, enquanto pede que alguém forneça algo flutuante para ser lançado em sua direção (defensa ou bóia, por exemplo). Deve-se, também, acionar o botão MOB (Man Overboard) do GPS, para gravar o ponto exato da queda. Nunca se deve perder o náufrago de vista.
2º Retorno
Evite que a embarcação se afaste do local da queda. Pare o barco, mude o rumo e se aproxime da vítima. Num barco a motor, isso deve ser feito com uma curva de 180 graus no sentido oposto. Nunca engate a ré, por causa dos hélices na vítima! Em um veleiro, guine rapidamente para barlavento, cambe e volte ao local da queda, manobrando para se aproximar do náufrago numa orça apertada, para poder controlar a velocidade do barco.
3º Aproximação
Posicione o barco a barlavento da vítima, deixando-a a sotavento. Isso irá protegê-la dos ventos e das ondas e evitará que o barco derive na direção oposta a ela. Quando estiver perto, folgue as velas ou desengate o motor, e lance um longo cabo flutuante para a vítima o agarrar e, assim, ser puxada para a embarcação. Caso isso não seja possível, deixe que os próprios ventos e a correnteza façam o barco derivar lentamente na direção desejada.
4º Resgate
Com a vítima no costado, puxe-a para bordo. Se ela não conseguir usar a escadinha, use um cabo com nós intercalados, que imitem uma. Use também o bote de apoio como plataforma ou, se estiver num veleiro, uma adriça com um lais de guia na ponta, no qual a vítima poderá encaixar o pé para ser içada por alguém nas catracas. Importante! Só pule na água (com colete salva-vidas e amarrado ao barco) se a vítima estiver ferida, desmaiada ou se afogando.
Alguns cuidados para não cair na água
- Nunca fique em pé ou trabalhe no convés sem segurar em algo fixo. Lembre-se do popular ditado náutico: “Uma mão para mim, outra para o barco”.
- Atenção redobrada nas manobras mais bruscas, como curvas acentuadas ou jibes. O timoneiro deve sempre avisar a tripulação quando for realizar uma manobra desse tipo.
- Evite fazer xixi da borda do casco ou da plataforma de popa, porque qualquer movimento mais brusco pode derrubá-lo na água. Mesmo os homens devem preferir sempre usar o vaso sanitário.
- Navegando com mau tempo, à noite, ou em solitário, ninguém a bordo deve ficar no convés sem um colete salva-vidas ligado a um cabo que vá da proa à popa ou esteja amarrado ao barco.
- Tenha no convés, ao alcance das mãos, coisas que possam ajudar caso alguém caia na água, como bóia salva-vidas, lanternas, cabos flutuantes e bóias especiais com bandeiras ou luzes para marcar o local de uma queda.
- Faça periodicamente a manutenção das grades de proteção, do guarda-mancebo e do piso antiderrapante do seu barco.
Náutica Responde
Faça uma pergunta para a Náutica
Relacionadas
Embarcação de luxo com casco planante foi construída pelo Grupo Ferretti e lançada ao mar em Ancona
Com planejamento e cooperação regional, rios do Mato Grosso do Sul abrem caminho para novos destinos náuticos e oportunidades de desenvolvimento sustentável
Maior evento náutico da Bahia movimenta a Baía de Todos-os-Santos dos dias 5 a 8 de novembro; Saiba o que esperar do salão
Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
[caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"]

Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
[caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"]

Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!




