O que os palestrantes disseram no primeiro dia do 4º Congresso Náutica de Investimento em Turismo Náutico

Por: Redação -
28/09/2018

Para discutir os entraves ao desenvolvimento do turismo náutico no Brasil — e as maneiras de superá-los —, especialistas de diversas áreas participaram do 4º Congresso NÁUTICA, que indicou os caminhos a percorrer, durante o São Paulo Boat Show 2018. O evento, exclusivo para convidados, aconteceu nos dias 27 e 28 de setembro, e é o único encontro nacional do setor que promove a cadeia náutica por meio das prefeituras com o objetivo de gerar renda e desenvolver o turismo náutico local. O congresso serviu também para a troca de cartões e experiências, visando a ajuda mútua a fim de implantar e, em seguida, incrementar o turismo náutico, atividade que tem tudo a ver com um país com as dimensões — e volume de água — que o Brasil possui. Veja o que alguns palestrantes disseram no primeiro dia do 4º Congresso Náutica de Investimento em Turismo Naútico:

“É preciso desmistificar o turismo náutico. Ele precisa ser reconhecido como de utilidade pública e não coisa de rico”.

“Quem fabrica os barcos são pessoas e não robôs. Portanto, cada barco produzido significa diretamente empregos”.

“No Dia Mundial do Turismo, vamos tratar aqui de um tipo de turismo que o Brasil ainda desconhece: o turismo náutico”.

Ernani Paciornik, presidente do Grupo Náutica

“Digo por experiência própria, com base no estou vendo aconteceu na minha cidade: vale muito a pena investir em turismo náutico”.

“No ano passado, vim neste congresso e levei a ideia do fórum de turismo náutico para a minha região. Hoje, ele não só está implantado como já rende frutos”.

Roberto Justus, prefeito de Guaratuba, PR

“A Câmara de vereadores de Florianópolis aprovou, esta semana, a abertura de concessão para a construção de uma grande marina, com um parque integrado, na nossa cidade. Mas foi preciso esperar sete anos por isso”.

“Com a nova marina, Floripa deixará de dar as costas para o mar, como acontece em tantas outras cidades do nosso litoral”.

Vinicius de Lucca, secretário de turismo de Florianópolis

“O turismo náutico faz parte de algo maior que é a ´economia do mar´. Ou seja, a capacidade de usar nossas águas para gerar riquezas”.

“O brasileiro é um povo informal, mas, ao mesmo tempo, conservador e refratário a mudanças. Isso alimenta a burocracia, que, por sua vez, emperra tudo”.

“A carta preparada pelo Fórum Náutico Paulista pedindo apoio ao turismo náutico é uma legítima pressão de um setor que precisa crescer”

Vinicius Lummertz, ministro do turismo

“Nosso mapeamento náutico do estado de São Paulo mostrou que a indústria e o comércio do setor não estão mal, mas os serviços, tanto diretos quanto indiretos, precisam aumentar em quantidade. Faltam marinas”

Luís Bertozi, presidente da Lidera Consultoria

“Turismo náutico não é só passeio. É uma atividade econômica”.

“O turismo é o grande potencial do Brasil. Tanto que todos os candidatos a Presidente do país tem propostas para o tema. Mas é preciso olhar, também, para as nossas águas”.

“Em vez de tentar atrair fábricas de barcos, as cidades deveriam atrair o turismo náutico, que é bem mais fácil. O resultado econômico será o mesmo”.

“Só o rio Tietê tem quase 1 000 quilômetros navegáveis e com uma qualidade de água difícil de acreditar. O turismo náutico é muito mais do que apenas o mar”.

“Pesquisas mostram que o turista hoje busca experiências únicas. E o que é mais único para os brasileiros, que ainda desconhecem esse tipo de turismo, do que o náutico?

Marco Antonio Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista

“É preciso ter infraestrutura adequada para receber massas de turistas que chegam pela água. Como os navios de cruzeiro. Não se pode transformar os moradores em vítimas disso”

“Para contornar o problema do excesso navios de cruzeiro em nossa cidade, limitamos a quantidade e escalonamos os horários de chegada e partida deles, porque não estávamos entregando a qualidade de serviços esperados pelos turistas”

Mato Frankovic, prefeito de Dubrovnik, Croacia

Fotos: Josy Andrade

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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