Ciclone-bomba não é o maior risco para navegação no Sudeste; alerta vem no domingo e segunda

Segundo Guilherme Kodja, consultor técnico do Grupo Náutica, ventos fortes de noroeste já exigem atenção, mas o principal perigo para quem navega deve vir com a atuação de um anticiclone pós-frontal

Por: Redação -
06/08/2026
Foto: Galyna_Andrushko / Envato

A formação de um ciclone-bomba no Sul do Brasil acendeu o alerta para quem navega nos próximos dias. Mas, segundo avaliação do navegador e consultor técnico do Grupo Náutica, Guilherme Kodja, o fenômeno em si não deve ser o maior problema para a navegação entre Florianópolis e o litoral do Sudeste.

De acordo com Kodja, que faz previsões de mar e tempo para navegação desde 2003, a área de atenção compreende a chamada área Charlie, faixa que vai do Cabo de Santa Marta, em Santa Catarina, ao Cabo de São Tomé, no Rio de Janeiro, incluindo o litoral sul catarinense, Paraná, São Paulo e boa parte do litoral fluminense.

 

A previsão analisada por ele considera dados do modelo europeu ECMWF, na resolução de 9 km para atmosfera, e do ECMWF WAM para o mar, no período de quinta-feira (6) a segunda-feira (10).

 

 

Ciclone-bomba se afasta, mas deixa instabilidade

Segundo Kodja, o ciclone-bomba deve afetar principalmente o Rio Grande do Sul. Para a região Sudeste e parte de Santa Catarina, o primeiro ponto de atenção vem antes da chegada do pior cenário marítimo: os ventos de noroeste, também chamados de ventos de terra.

 

Esses ventos devem atuar entre a noite desta quinta-feira (6) e a sexta-feira (7), com possibilidade de rajadas fortes e comportamento desorganizado.

São ventos perigosos, quentes, que atuam em rajadas e muitas vezes de forma desorganizada. Eles geram riscos para as embarcações-explicou Kodja

Apesar do alerta em torno do ciclone, o consultor afirma que o principal problema para a navegação na área Charlie deve ocorrer depois que o sistema já estiver afastado no oceano.

Anticiclone pós-frontal é o principal risco

O cenário mais crítico, segundo a análise, deve se formar no domingo (9) e na segunda-feira (10), com a atuação de um anticiclone pós-frontal. Esse sistema deve puxar ventos de sul e sudoeste ao longo da costa, criando uma condição severa para a navegação.

 

Em Santa Catarina, a previsão indica rajadas acima de 40 nós na Ilha de Santa Catarina no fim da tarde de domingo. Na região de Itajaí e Balneário Camboriú, as rajadas podem chegar a cerca de 36 nós entre a tarde e a noite do mesmo dia.

O grande cuidado vai ter que ser no domingo. Temos rajadas em Santa Catarina que vão superar os 40 nós e, no nosso litoral, superar os 35 nós-afirmou Kodja

Segundo o boletim, a Ilha de Santa Catarina pode ter 42 horas com rajadas acima de 25 nós, com pico previsto de 40,8 nós no domingo à tarde. O período mais crítico deve ocorrer de domingo de manhã até a virada para segunda-feira.

Foto: stevanovicigor / Envato

Água lisa pode enganar em áreas abrigadas

Um dos alertas mais importantes vale para regiões abrigadas, como baías e canais. Segundo Kodja, a Baía Norte, em Florianópolis, pode apresentar mar praticamente plano, com menos de 35 centímetros, mas ainda assim sofrer rajadas fortes.

 

A situação exige atenção porque a aparência da água pode não refletir o risco real.

Água lisa sob vento severo é a pior combinação para atracação e fundeio, porque a leitura visual não entrega o que está acontecendo-destaca o boletim

No litoral norte paulista, o alerta também é relevante. Entre São Sebastião e Caraguatatuba, a previsão indica rajadas de até 36 nós no domingo, entre 16h e 19h, mesmo com vento médio em torno de 11 nós. Para Kodja, essa diferença pode indicar descarga convectiva canalizada pelo relevo, com rajadas rápidas sobre águas aparentemente calmas.

 

Em Ilhabela, o mesmo intervalo deve ter rajadas próximas de 33 nós.

Ondulação e ressaca também preocupam

Além do vento, a ondulação será outro fator de risco. A previsão indica avisos de ressaca entre domingo, segunda e terça-feira, com mar mais conturbado em boa parte da área analisada.

 

No Paraná, o problema principal deve ser a combinação de chuva e ondulação longa. A previsão aponta acumulado de 64 mm no período, com chuva mais intensa na madrugada de domingo, o que pode reduzir a visibilidade na barra.

 

Também há alerta para Paranaguá e Ilha do Mel no sábado à noite, quando o período de pico das ondas pode chegar a 15 segundos. Mesmo com altura moderada, ondas longas podem ganhar força em áreas rasas e bancos de areia, exigindo atenção redobrada de quem pretende cruzar a barra.

 

Em Santos, a previsão indica mar de cerca de 2 metros, com swell de sul.

Foto: SteveAllenPhoto999 / Envato

Costa Verde: menos vento, mais mar

Na Costa Verde, o vento não aparece como principal limitante. Regiões como Angra dos Reis, Abraão e a costa sul da Ilha Grande não devem registrar longos períodos acima de 25 nós.

 

Ainda assim, o mar exige cuidado. Segundo o boletim, a Baía da Ilha Grande deve receber energia de swell longo, especialmente pela entrada oeste, voltada para sudoeste. Na costa sul da Ilha Grande, a previsão indica ondas de até 2,42 metros na noite de segunda-feira.

 

Por isso, fundeios expostos, como Lopes Mendes, são desaconselhados já a partir da noite de sábado.


Janela favorável será curta

De acordo com a análise de Kodja, a única janela plenamente favorável em toda a costa entre Florianópolis e Ilha Grande deve ocorrer no sábado (8), entre meia-noite e 15h.

 

Fora desse intervalo, a recomendação é de cautela. De Florianópolis a Itapoá, o principal limitante deve ser o vento sul severo. Do Paraná à Ilha Grande, o maior problema deve ser o mar.

São dez dias para você cuidar, dez dias para você ficar atento-alertou Kodja

O consultor reforça que previsões meteorológicas podem mudar e devem ser reavaliadas com frequência. Ainda assim, diante do cenário previsto, ele não recomenda navegação nos próximos dias na área Charlie, especialmente entre Florianópolis e o sul do Espírito Santo.

Não é bom navegar. Na área sul já está bastante consolidado que não é, e na área Charlie também, desde Florianópolis até o sul do Espírito Santo-concluiu.

 

 

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