Barcos da Volvo Ocean Race se aproximam do Cabo Horn. Scallywag vai para o Chile
A Volvo Ocean Race 2017-18 segue sendo disputada rumo a Itajaí, no Brasil. Os barcos ainda navegam pelos mares do sul e se aproximam do Cabo Horn. O primeiro a contornar o local ganha um ponto de bônus. A previsão é que isso ocorra nesta quinta-feira (28) pela manhã.
O time do Sun Hung Kai / Scallywag não confirmou seus planos para a sequência do campeonato, mas deve utilizar algum porto na costa oeste do Chile para parar. O local é mais próximo nesse momento e conta com uma zona relativamente segura para as condições muito duras que ainda enfrentam. A equipe tenta se recuperar da devastadora perda do britânico John Fisher, na última segunda-feira (26).
As outras seis equipes continuam a avançar em direção ao Cabo Horn, com o Team Brunel de Bouwe Bekking na frente por quatro dias seguidos. A tripulação holandesa tem vantagem de 65 milhas náuticas.
As equipes continuam a enfrentar ventos com mais de 40 nós e mares pesados, enquanto navegam na direção do Cabo Horn, onde o Oceano Pacífico é forçado a atravessar a estreita zona compreendida entre a América do Sul e a Antártida.
O famoso Cabo Horn marca a passagem para o Oceano Atlântico e significa o fim do Pacífico para a flotilha da Volvo Ocean Race.
Atrás do Brunel estão Vestas 11th Hour Racing, MAPFRE (líder do campeonato) e o Dongfeng Race Team. Mais atrás aparecem Turn the Tide on Plastic e o AkzoNobel, da brasileira Martine Grael.
Mensagem dos velejadores ao amigo
A perda de John Fisher, do Scallywag, continua a pesar nas mentes dos velejadores. Vários deles manisfestaram a dor pelo ocorrido.
Dee Caffari, líder do Turn the Tide on Plastic
”Muitas lágrimas foram derramadas entre todos e em particular. Fish era um amigo, um fã e um grande apoiador do nosso projeto. Ele era um velejador talentoso que fazia oque amava, e é isto que nos consola neste momento difícil. Agora, quando olhamos para o céu, infelizmente, vemos outro espírito de um velejar perdido num albatroz olhando por nós aqui. Nossos corações e orações vão para sua família, amigos e ainda mais para a equipe SHK / Scallywag, bem como a restante família da Volvo Ocean Race que perdeu um ente querido”.
Simon Fisher, Navegador do Vestas 11th hour Racing
“Depois da devastadora notícia de ontem corremos para o Cabo Horn com corações pesados. Embora devamos tentar manter nosso foco na regata. Todos os nossos pensamentos e orações estão com John, sua família, seus companheiros de equipe e amigos. O Oceano Antártico tem sido especialmente difícil este ano, tem sido mais implacável”.
Xabi Fernandez, líder do MAPFRE
”Momentos muito tristes aqui no MAPFRE depois que a notícia veio do Scallywag ontem. Eu digo que todos os nossos pensamentos estão com a tripulação do Scallywag e toda a família de John e desejamos o melhor para eles”.
Simeon Tienpoint, líder do team AkzoNobel
”Todos do AkzoNobel a bordo queremos dar nossas condolências à família de John Fisher ou ‘Fish’, como o conhecemos. Mas também queremos dar força aos caras a bordo do Scallywag e a toda a equipe, claro, em terra. Pessoalmente, eu sei, infelizmente, o quão difícil é nesta situação. Eles têm que ficar juntos e esperamos vê-los em segurança em terra muito, muito em breve”.
Kyle Langford, Team Brunel
”Infelizmente, John Fisher foi perdido e isso é absolutamente devastador para todos a bordo e, obviamente, a moral está baixa e todo mundo está realmente sentindo por seus amigos, familiares e todos os companheiros de equipe que ele tem naquele barco. Eu não posso imaginar a dor que eles estão passando. Nossos pensamentos são em primeiro lugar para esses caras – e a regata é realmente secundária neste momento”.
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O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
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Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
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Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!
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