Aos 32 anos, Bethina prepara a Hélices Hoffmann para navegar pelos próximos 90 anos

Engenheira naval da consolidada empresa, ela mostra que o rosto da próxima geração da marca será, pela primeira vez, o de uma mulher

28/11/2025
Bethina Hoffmann é engenheira naval da Hélices Hoffman. Foto: Arquivo Pessoal

A Hélices Hoffmann é referência em hélices no Brasil, com quase 90 anos de mercado. Na equipe técnica, destacam-se três figuras: Reimar Hoffmann, diretor e presidente; Sávio Satler, tecnólogo mecânico; e Bethina Hoffmann, a engenheira naval do grupo. Aos 32 anos, ela mostra no currículo — e nas vivências — que o rosto da próxima geração da empresa, fundada ainda em 1937, será, pela primeira vez, o de uma mulher.

Atualmente, Bethina atua diretamente nos processos técnicos e comerciais da empresa. “Estou envolvida em novos projetos, consultas de clientes, cálculos, desenvolvimento de hélices, medições em campo e testes de mar. Também acompanho todo o cronograma de produção da fábrica e o andamento da produção”, detalhou.

 

Em paralelo, ela ainda encontra tempo para ser um dos principais pilares do grupo quando o assunto é olhar para o futuro.

Bethina e seu avô, Reimar Hoffmann. Foto: Revista Náutica

Historicamente, a Hélices Hoffmann se diferencia no mercado por seu olhar delicado e artesanal na produção dos equipamentos — uma característica que a empresa não abre mão. Logo, modernizar processos e promover mudanças é um dos desafios diários de Bethina, que reconhece o ponto forte da instituição.

O objetivo é modernizar nossos processos e preparar a Hoffmann para o futuro, sem perder o DNA artesanal que sempre nos caracterizou– explicou

Foto: Arquivo Pessoal

Somado a isso, entra o “desafio natural das diferenças entre gerações”, como ela define, que pedem equilíbrio entre tradição e inovação. Para se ter uma ideia, a empresa foi fundada há 88 anos pelo alemão Emílio Hoffmann, e, em 1954, seu filho, Reimar Hoffmann (avô de Bethina), assumiu a direção dos negócios após o falecimento do pai — e segue na presidência até hoje.

Manter essa harmonia é algo que eu tento cultivar todos os dias– destacou

Náutica no sangue e na formação

Bethina começou a velejar aos 11 anos de idade. Ainda na adolescência, teve uma rotina dedicada ao esporte, chegando a ser campeã brasileira e tendo representado o Brasil no Campeonato Mundial da Juventude, ao lado de grandes nomes da modalidade, como as bicampeãs olímpicas Kahena Kunze e Martine Grael. “Hoje velejo por lazer”, comentou.

Registro do Campeonato Mundial da Juventude de 2009, que aconteceu em Búzios (RJ). Bethina aparece à esquerda, enquanto Kahena e Martine, campeãs da competição na classe 420, aparecem no canto direito da imagem. Foto: Arquivo Pessoal

Seu pai, embora engenheiro civil, acabou seguindo novos desafios no ramo pesqueiro, como armador de pesca.

O ambiente náutico sempre esteve presente ao meu redor, o que acabou influenciando naturalmente minha escolha– contou Bethina sobre optar pela Engenharia Naval

Foto: Arquivo Pessoal

Seu contato frequente com o mar e com os barcos, somado à atração por “coisas diferentes”, como ela conta, resultou na escolha pelo curso de Engenharia Naval na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “Era algo novo no estado”, relembrou.

 

“Desde o início, eu sabia que queria seguir na área de engenharia. Cheguei a cogitar Arquitetura em algum momento, mas hoje percebo que se não fosse a Naval, com certeza seria outra engenharia.

Foto: Arquivo Pessoal

Logo após a formatura, Bethina enfrentou os dilemas comuns dos recém-formados: “por onde começar? Qual área seguir? Devo me especializar primeiro ou buscar experiência?”. Mas de uma coisa ela tinha certeza:

Eu nunca quis vincular minha formação diretamente aos negócios da família, pelo menos não logo no início– revelou

Assim, ela deu início à carreira buscando, inicialmente, por experiências fora da Hoffmann. Ainda durante a faculdade, estagiou em um escritório de projetos de engenharia naval. “Foi meu contato inicial com a profissão”, contou. Seu primeiro trabalho efetivo, mesmo, foi em 2018, no departamento de engenharia do estaleiro italiano Azimut.

Foto: Arquivo Pessoal

Lá, ela conta que atuou diretamente nos processos construtivos, no “chão de fábrica”, antes de migrar para o setor de pós-vendas, onde passaria a lidar com atendimento ao cliente e problemas em campo.

 

“Essas experiências me deram uma visão ampla do setor e contribuíram muito para a profissional que sou hoje. Só depois desse processo senti que fazia sentido unir essa bagagem aos negócios da família”, ressaltou.

“As mulheres ainda precisam provar um pouco mais até que o trabalho fale por si”

Mesmo já consolidada em sua posição, Bethina não deixa de reconhecer as barreiras que as mulheres ainda enfrentam em profissões majoritariamente masculinas — especialmente no meio náutico. “Sinto que nesse meio as mulheres ainda precisam provar um pouco mais até que o trabalho fale por si”.

A gente percebe que precisa se aprofundar em tudo, entender cada detalhe, porque qualquer erro ou dúvida, às vezes, é visto como falta de capacidade– declarou

O ambiente intimidador e excludente colabora para que muitas mulheres desistam da área, uma vez que não encontram espaços para permanecer. “Muitas acabam migrando para outros setores ou desanimando por falta de oportunidades”, detalhou.

 

Bethina conta que ela mesma enfrentou muita resistência na profissão, especialmente pelos ambientes historicamente masculinos. “No começo isso incomodava, mas com o tempo aprendi a lidar e deixar que meu trabalho, com resultados, falasse por mim. Isso acaba pesando mais do que qualquer estereótipo”, destacou.

Foto: Arquivo Pessoal

Para ela, mudar esse cenário passa por dar oportunidades. E não à toa: “a presença feminina contribui muito para esse meio. Nosso jeito de enxergar o todo, de resolver problemas e de lidar com pessoas traz um valor enorme para o trabalho”.

 

Apesar das adversidades, Bethina vê um futuro promissor para as mulheres na Engenharia Naval, e aconselha: “estudem, busquem experiência e se envolvam de forma ativa. Conversem com todo mundo, desde quem projeta o parafuso até quem aperta esse parafuso no dia a dia. Cada etapa do processo ensina alguma coisa importante”.

Não tenham medo de perguntar, de questionar ou de se posicionar. A curiosidade e a dedicação fazem muita diferença. Sigam firmes, porque há muito espaço para vocês aqui– ressaltou

Bethina evidencia que o campo de atuação para quem escolhe essa profissão é amplo, indo muito além do projeto de embarcações. “Há espaço para trabalhar com desenvolvimento de sistemas, extração de petróleo, certificação e regulamentação, além de áreas voltadas à inovação e tecnologia.”

 

Se para a engenheira “ter exemplos e referências faz muita diferença para quem está começando”, ela acaba de dar um motivo a mais para que outras mulheres sigam na profissão.

 

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