Carga de navio naufragado há 2 mil anos é encontrada quase intacta na Itália

Por: Beatriz Lia -
16/11/2024

Arqueólogos descobriram a carga quase intacta de um navio que naufragou há cerca de 2 mil anos na Itália. O material, encontrado na província de Siracusa, na costa da Sicília, pode dar pistas sobre as rotas de comércio da época e ajudar a entender o papel da ilha de Lipari na distribuição de um composto para tingir tecidos.

De acordo com a Superintendência do Mar da Itália, pesquisadores encontraram cerca de 40 ânforas — tipo de recipiente usado para transportar mercadorias — quase perfeitamente alinhadas no navio naufragado há 2 mil anos.

 

A área da descoberta está a cerca de 5 km da costa, a uma profundidade de 70 metros, no fundo do mar da província de Siracusa.

Foto: Facebook Soprintendenza del Mare / Reprodução

O local foi encontrado após o uso de técnicas de fotogrametria 3D — forma de escaneamento que permite criar modelos tridimensionais de objetos a partir de fotos. O material foi achado em bom estado de preservação.

 

A descoberta ainda sugere que o navio naufragado há 2 mil anos esteja enterrado no local com o restante da carga. Segundo os estudos, estima-se que a embarcação tenha submergido entre o final do século 1 a.C. e início da Era Augusta — que começou no ano 27 a.C, quando o imperador Augusto fundou o Império Romano.

Foto: Facebook Soprintendenza del Mare / Reprodução

As ânforas encontradas são do tipo Richborough 527, conhecidas por serem resistentes. Elas têm esse nome em homenagem ao sítio arqueológico Richborough, na Inglaterra — onde foram encontradas pela primeira vez.

 

O navio naufragado há 2 mil anos pôde ser agora localizado por conta de um avistamento feito por dois pescadores, em janeiro de 2022. À época, os homens da cidade de Avola constataram a presença de itens no fundo do mar, no Oasi Faunistica di Vendicari — uma reserva natural próxima das cidades de Noto e Pachino.

Foto: Facebook Soprintendenza del Mare / Reprodução

Qual a importância da descoberta?

A descoberta do naufrágio do navio de 2 mil anos pode revelar detalhes sobre a rota do Mediterrâneo, um dos mais importantes trajetos comerciais na época. Isso porque, em 1990, outras ânforas também foram achadas na praia italiana de Portinenti, na ilha de Lipari.

 

Estima-se as ânforas achadas em Lipari carregavam alúmen, um mineral extraído na ilha e que era usado em processos de tingimento de tecidos.


Quais são os próximos passos?

Agora, as pesquisas devem determinar se as ânforas encontradas em Siracusa são do mesmo tipo daquelas descobertas em Lipari.

Se essa correlação for confirmada, poderemos adquirir novas informações sobre as antigas rotas comerciais onde o alúmen extraído de Lipari era comercializado no Mediterrâneo antigo– diz a nota da Superintendência do Mar da Itália

 

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    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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