Dono de estaleiro abre mão de R$ 2 bilhões e doa parte da empresa à caridade
Decisão veio de Eddie Smith Jr., dono da Grady-White Boats, para manter a cultura da empresa viva mesmo fora do seu controle


Nem sempre deixar uma herança trata-se unicamente de dinheiro. Afinal, há valores, conhecimentos e legados que vivem além da posteridade. Foi pensando assim que Eddie Smith Jr., dono do estaleiro Grady-White Boats, decidiu, aos 83 anos, ir além de vender a empresa que comandou desde 1968: ele preferiu doá-la à caridade e abrir mão de um potencial ganho de R$ 2 bilhões.
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Sem herdeiros próximos — sua esposa e seu filho faleceram em 2020 e 2021, respectivamente — , o chefe da Grady-White Boats fez seu último grande movimento e anunciou, no fim de julho, que destinou todos os futuros lucros da empresa a uma organização sem fins lucrativos que servirá a instituições de caridade.


Com isso, a estimativa é de que Smith Jr. deixe de ganhar aproximadamente US$ 400 milhões de dólares (cerca de R$ 2 bilhões em conversão de agosto de 2026). “Deus realmente me abençoou ao me colocar em uma posição de poder doar a grande maioria do meu patrimônio”, disse ele em entrevista ao jornal The New York Times.
No entanto, até chegar a essa decisão, o dono da empresa enfrentou momentos difíceis que, para ele, serviram como sinais.
A primeira ideia era que seu filho Chris fosse seu único herdeiro. Mas o menino morreu há cinco anos em decorrência da esclerose lateral amiotrófica, uma doença neurológica paralisante. Jo Allison, sua companheira com quem foi casado por 57 anos, havia morrido um ano antes.
Era o plano de Deus. Às vezes não entendemos. Estou ansioso para chegar ao céu e fazer algumas perguntas– disse ele
Depois, Smith contratou um banco de investimentos para avaliar a venda da empresa. Diversas propostas foram apresentadas, entre elas ofertas próximas de US$ 400 milhões. No entanto, ele acreditava que nenhum dos interessados conseguiria preservar a cultura da companhia.


Segundo Smith Jr., entre os benefícios oferecidos pela Grady-White aos seus 350 funcionários estão contribuições robustas para planos de aposentadoria, participação nos lucros, programas de educação financeira, atendimento médico no local de trabalho e um capelão corporativo.
Não tinha confiança de que um novo dono manteria esse tipo de cultura. Esta empresa tem uma alma, e eu não queria perder isso– admitiu o dono
Além de desistir de qualquer lucro decorrente de uma possível venda da empresa, Smith também renunciou de benefícios fiscais pela doação de suas ações. Segundo ele, a nova estruturação deve resultar em uma conta tributária de vários milhões de dólares.
Como funciona na prática?
Ao longo do caminho, Smith manteve o controle total da empresa, sem jamais aceitar investidores externos ou abrir o capital na bolsa. E nem mesmo na hora de “se despedir” da companhia ele fará isso.


Pensando em manter os direitos estabelecidos para os funcionários e a cultura da empresa viva, Eddie transferiu as ações com direito a voto da Grady-White — uma pequena parcela do total de ações da empresa — para uma entidade jurídica conhecida como purpose trust (algo como “propósito de confiança” ou, tecnicamente, fundo fiduciário perpétuo).
O que é um purpose trust?
- O dono cria um trust (uma estrutura jurídica) com um propósito específico, como preservar a cultura da empresa ou proteger os funcionários;
- As ações da empresa são transferidas para esse trust, que passa a ser o novo controlador do negócio;
- Administradores (trustees) ficam responsáveis por garantir que a empresa seja conduzida de acordo com esse propósito;
- A empresa continua operando normalmente, com seus diretores e funcionários;
- Os lucros são usados conforme as regras do trust, como reinvestimentos, expansão ou benefícios aos funcionários, em vez de serem destinados a um proprietário.
Neste caso, o modelo garante que a Grady-White permaneça independente e jamais possa ser vendida, isso enquanto é gerida de acordo com os valores de Smith. No dia a dia, principalmente dos funcionários, tudo segue o normal.


Em resumo, um purpose trust transforma a lógica tradicional de propriedade: a empresa deixa de existir para gerar riqueza a um proprietário específico e passa a ser administrada para cumprir uma missão de longo prazo, definida pelo dono. E o propósito definido por Smith é nobre: a caridade.
As ações restantes da empresa, sem direito a voto, serão transferidas para uma organização sem fins lucrativos do tipo 501(c)(4). Tanto essa organização quanto o purpose trust serão administrados por conselhos independentes, sem a participação de Smith, que continuará na empresa como CEO emérito não operacional e receberá um salário anual.


Assim, a Grady-White destinará dezenas de milhões de dólares dos lucros anuais que não forem reinvestidos no negócio para a organização sem fins lucrativos, que aplicará os recursos em áreas como conservação ambiental, saúde e educação.
Não estou obtendo nenhum benefício fiscal ou de qualquer outro tipo. E estou doando a grande maioria do meu patrimônio– afirmou Smith
Um propósito além das águas
Para se desprender de parte de seu patrimônio, ele disse ter se inspirado em Yvon Chouinard, fundador da Patagonia, que doou suas ações e criou uma organização sem fins lucrativos para distribuir os lucros da empresa de roupas para atividades ao ar livre em 2022.


Inclusive, conforme a empresa, este é o maior fundo fiduciário perpétuo, com sua organização beneficente afiliada dos EUA desde o da Patagonia e o primeiro do gênero na indústria náutica.
Não preciso de um iate de 60 metros nem de passar os invernos no Mediterrâneo. Sou muito feliz aqui no leste da Carolina do Norte– contou Eddie
De acordo com a Purpose Owned, consultoria que ajudou a Grady-White a estruturar esse novo modelo, o número de empresas que adotaram o purpose trusts passou de sete em 2018 para 15 casos anunciados apenas neste ano — como um todo, apenas 81 companhias realizaram negócios nesse estilo.


Assumindo a empresa em 1968, comprando-a de Don White, um dos fundadores da Grady-White, Eddie contou ter salvado a empresa da falência. À época, eles fabricavam barco de madeira em um armazém de tabaco em ruínas e dava prejuízo. Smith Jr. disse ter dedicado cerca de 100 horas semanais para tirá-la do buraco.
Ao que tudo indica, ele fez um grande negócio — tanto na hora da compra quanto na hora da “despedida”. É importante, acima de tudo, saber sair.
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