Equipe francesa reformula veleiro de corrida para a disputa da America’s Cup
Próxima edição da competição mais antiga de vela acontecerá em 2027, na cidade de Nápoles, na Itália


Quem vê de fora pode não perceber tanta alteração. Mas quem assisti-lo nas águas certamente irá reparar: muita coisa mudou. Estamos falando do reformulado veleiro AC75 da La Roche-Posay Racing Team, equipe francesa que disputará a 38ª edição da America’s Cup, competição mais antiga de vela do planeta.
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O barco de corrida que guiará os le Bleus passou por uma intensa reestruturação interna e se adaptou às novas regras para o torneio, que acontecerá em 2027, na cidade de Nápoles (ITA). Foi basicamente um relançamento, que trouxe mudanças no visual, foils e em toda a tecnologia do barco.


O AC75 é o barco padrão para todas as equipes competidoras da America’s Cup, mas que teve que passar por revisões particulares de cada equipe para ficar dentro do regulamento de 2027. Este da equipe francesa foi o terceiro a ser reprojetado para a disputa, mas o primeiro de qualquer time da França em toda competição.
Como é o veleiro AC75 da America’s Cup?
Com 75 pés de comprimento — quase 23 metros —, o AC75 é um dos veleiros de regata mais rápidos e complexos já projetados. Graças aos seus foils (uma espécie de “asa subaquática” que planeia a embarcação), ele consegue elevar totalmente o casco para fora da água e atingir velocidades superiores a 50 nós.


No entanto, por trás da imagem impressionante de um monocasco que “voa”, esconde-se um verdadeiro laboratório tecnológico, onde aerodinâmica, hidrodinâmica, eletrônica, hidráulica e ciência dos materiais devem funcionar como um sistema único e integrado.
Contudo, de acordo com o site oficial, “vários dos elementos são estritamente do projeto” de cada time. Porém, para manter os custos sob controle, a organização definiu que as equipes só teriam permissão para construir um AC75 — ou seja, precisarão ser assertivos na produção do barco.


Embora os elementos essenciais do monotipo permaneçam, a expectativa é que as equipes ultrapassem os limites por meio de componentes personalizados em busca de uma vantagem competitiva e melhor adequação às regras. Confira abaixo alguns detalhes técnicos presentes em todos os AC75.


Mudança no número de tripulantes
A mudança mais visível para a próxima edição da America’s Cup diz respeito à tripulação. Em Barcelona, no ano de 2024, oito tripulantes estavam a bordo do veleiro AC75; em Nápoles, haverá apenas cinco, com a exigência de incluir pelo menos uma mulher na equipe.


No entanto, essa redução não se resume a eliminar três postos. Ela exige uma redistribuição de funções, uma reformulação do posicionamento da tripulação e a necessidade de tornar cada tarefa mais acessível, rápida e intuitiva. Por isso, a área de comando e os cockpits passaram por um extenso reprojeto.
Cada membro da tripulação deve ter acesso imediato às informações necessárias para a condução, o ajuste das velas e o controle de voo. “Toda ação precisa ser mais simples, mais direta e perfeitamente coordenada” disse Antoine Carraz, diretor técnico da La Roche-Posay.
Além disso, está previsto um sexto posto no cockpit para acomodar um convidado durante treinos e regatas, embora esse não possa intervir na condução do barco. Essa inovação é inédita no esporte, pois permite que o convidado vivencie as emoções da regata no coração da equipe e em tempo real.
Quais foram as alterações?
Durante a 37ª America’s Cup, quatro velejadores pedalavam a bordo no veleiro. Esses “cyclors” geravam a potência hidráulica necessária, em particular, para o ajuste das velas. Porém, eles não serão mais utilizados na próxima edição.


Conforme o novo regulamento, a energia passará a ser fornecida principalmente por baterias, o que exige uma reformulação completa dos sistemas elétrico e hidráulico.
Antes, parte do desempenho dependia diretamente da capacidade dos velejadores de gerar energia. Agora, precisamos gerenciar uma quantidade específica de energia a bordo– explicou Carraz
Sendo assim, boa parte da dinâmica a bordo muda, pois agora, como em um veículo elétrico de corrida, cada gasto de energia deve ser cuidadosamente gerenciado. Por isso, os engenheiros trabalham no consumo das baterias, no resfriamento e na confiabilidade geral do sistema.


Alguns segundos de operação, uma manobra ou um ajuste repetido dezenas de vezes podem ter um impacto significativo no balanço energético da corrida– completou o diretor técnico
Além dos “cyclors”, foi necessário alterar grande parte dos elementos que permitem ao barco com foils navegar, voar e ser controlado. O layout do convés, os cockpits, a distribuição de peso, os sistemas de controle, os circuitos elétricos e hidráulicos, bem como a ergonomia da tripulação, foram todos revisados.
Para Carraz, o público reconhecerá o barco de 2024, mas, tecnicamente, não se trata apenas de uma reforma. “Tivemos de repensar a arquitetura interna e a forma como a tripulação interage com a embarcação. O desafio foi transformar radicalmente o barco, mantendo sua plataforma original”, detalhou.


Em resumo, apenas o casco permaneceu intacto. De resto, tudo teve que passar por revisões e ser reprojetado. Por isso, a 38ª edição da America’s Cup terá como foco a integração de sistemas, confiabilidade, eficiência energética e controle de voo. Não à toa, o veleiro AC75 conta com uma tecnologia ímpar no mundo dos veleiros.
A tecnologia por trás do AC75
Durante uma corrida, o AC75 recebe milhares de dados em tempo real: velocidade, altura em relação à água, forças sobre os apêndices, posições das velas, pressão hidráulica e consumo de energia. Essas informações permitem que os velejadores entendam o comportamento do barco e ajam com extrema precisão.


No entanto, eles não podem ser usados para criar um piloto automático. Isso porque as regras determinam que as decisões devem permanecer nas mãos de humanos. Consequentemente, o trabalho da equipe técnica concentra-se amplamente nas interfaces entre os velejadores e o barco: telas, botões, volantes, controles e sequências de manobras.
O objetivo não é substituir o velejador por um computador. Trata-se de fornecer ao velejador a informação certa no momento certo e garantir que seu comando seja executado imediatamente– conta Carraz
Por fim, ele explica que o plano, não só da equipe francesa, como a de todas as equipes, não é simples: “o barco precisa, portanto, lidar com um paradoxo: tornar-se tecnicamente mais sofisticado e, ao mesmo tempo, manter a simplicidade de uso em velocidades superiores a 80 ou 90 km/h — tudo isso em meio a ruídos, vibrações e sob intensa pressão competitiva”.
Quais serão os próximos passos?
2027 é logo ali! Pensando nisso, os testes do novo AC75 já começaram em Lorient, na França. Vale ressaltar que a nova configuração não antecipa necessariamente aquela que será utilizada em Nápoles, uma vez que o desenvolvimento continuará ao longo da temporada.
A La Roche-Posay Racing Team chega à America’s Cup como uma equipe desafiante. O regulamento da competição sempre coloca o time vencedor da última edição direto na “final”, cabendo às outras tripulações desafiarem o posto e derrubar o atual detentor do troféu. Em 2027, quem possui o “cinturão” da vela é o Emirates Team New Zealand.
Em mais de 175 anos de história, essa será a primeira vez que uma única equipe desafiante francesa disputa duas campanhas consecutivas. Segundo o cronograma do time, eles partirão para Nápoles entre meados de agosto ao final de setembro, disputando já a regata preliminar na cidade-sede.


Atualmente, o time francês é composto por Quentin Delapierre, capitão e leme de estibordo; Diego Botín, leme de porto; Jason Saunders, no ajuste de estibordo; Florian Trittel, no ajuste de porta; e Enzo Balanger; na reserva do timão; Timothé Lapauw; aparador de reserva.
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