Conheça a história do navio Professor Wladimir Besnard, que afundou em Santos

Histórica embarcação oceanográfica foi a primeira a carregar a bandeira brasileira até o continente antártico e operou por mais de 40 anos, até virar atração turística. Saiba quais os próximos passos agora

Por: Nicole Leslie -
19/03/2026
Foto: Instagram @portodesantosbr / Reprodução

Toda história tem começo, meio e fim — e o enredo do navio oceanográfico Professor Wladimir Besnard parece ter começado a caminhar para a fase final. A histórica embarcação, que foi a primeira brasileira a navegar até o continente antártico, começou a afundar em Santos, no litoral de São Paulo, no último dia 13 de março. Neste contexto de fim de linha, resumimos aqui os principais pontos da trajetória desse navio e o que se pode esperar do futuro.

A adernada da embarcação lançou luz sobre denúncias que defendem que o navio estava abandonado por autoridades e que, por isso, a deterioração já era previsível. Por outro lado, a Autoridade Portuária de Santos informou que moverá ações para que a embarcação seja recuperada, a fim de mantê-la como símbolo da história viva da pesquisa oceanográfica brasileira.

História do navio oceanográfico Professor Wladimir Besnard

Construído na Noruega especialmente para servir como um imponente laboratório flutuante do Instituto Oceanográfico (IO) da Universidade de São Paulo (USP), a embarcação chegou ao Brasil em 1967 a todo vapor para realizar expedições científicas — e assim o fez por mais de 40 anos.

Foto: Francisco Vicentini, IO-USP / Divulgação

Segundo o IO-USP, entre 1967 e 2008, o navio Professor Wladimir Besnard realizou mais de 260 cruzeiros oceanográficos, que permitiram acumular um enorme banco de dados para as ciências do mar no Brasil, além de “um valor histórico imensurável para a USP”.

 

A embarcação estudou diferentes pontos do Oceano Atlântico (Norte, Sul, Leste, Oeste e Sudeste), além da Antártica e diversas localidades do litoral brasileiro, como os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, Bahia, Ceará, Pará, Amazonas e Pernambuco.

 

No Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR), seis expedições utilizaram o Besnard para desbravar a ciência no continente gelado. A atuação da embarcação por lá, todavia, precisou ser interrompida em 1988, após o eixo do hélice do navio se partir durante a temida Passagem de Drake. Isso porque, apesar de tantos atributos, não se tratava de um navio quebra-gelo.

Navio Professor Wladimir Besnard retornando da 1ª expedição à Antártica. Foto: IO-USP / Divulgação

Ainda assim, o navio oceanográfico Professor Wladimir Besnard seguiu realizando diversas expedições científicas, só não mais rumando ao continente gelado. A embarcação apenas parou de circular em nome da ciência em 2008, quando um incêndio acometeu a popa e o sistema de leme do navio.

 

Naquela ocasião, o IO-USP afirmou não possuir verba suficiente para reparar o navio e modernizar os equipamentos necessários. Assim, o laboratório flutuante foi levado ao Porto de Santos, sem condições de voltar a navegar, e entregue ao Instituto do Mar, organização sem fins lucrativos.


Denúncias ganham força: de histórico a abandonado?

No contexto do navio afundando, denúncias ganharam força quanto à responsabilidade das autoridades já ligadas ao navio Professor Wladimir Besnard. O próprio Sindicato dos Trabalhadores da USP (SINTUSP) foi um órgão que se posicionou contra as decisões tomadas em relação à embarcação histórica.

 

O grupo defende que, desde o fatídico incêndio, em 2008, o abandono tomou conta da embarcação, que, segundo eles, deveria ter sido tratada para “a destinação mais óbvia”: ser transformada em um Museu Oceanográfico flutuante.

Foto: Instagram @thiagogomesfotografia / Reprodução

“Após quinze anos de abandono, no dia 13 de março de 2026 o navio afundou parcialmente, adernando e ficando inclinado no cais de Santos”, descreve a denúncia, que se assemelha à do jornalista João Lara Mesquita, publicada no Mar Sem Fim. “Já havia denunciado o abandono do navio oceanográfico e registrado a tentativa de salvá-lo como navio-museu. O episódio de agora enterrou de vez a esperança de um destino digno”, escreveu Mesquita.

 

O jornalista descreveu o caso como o desfecho de uma degradação “longa, pública e vergonhosa”, e não como um acidente. Ele defende que o navio “ficou anos entregue à omissão, às promessas e ao improviso”, por ter acompanhado tentativas de restaurar a embarcação, que, apesar dos esforços, não tiveram resultados (ao menos não a tempo).

Importância virou atração turística

Apesar de, segundo as denúncias, o navio necessitar de cuidado específico, o Professor Wladimir Besnard chegou a virar atração turística em Santos, como um dos atrativos no novo Parque Valongo. Para isso, a estrutura foi revitalizada com cuidado para manter as tintas originais e o visual externo próximo ao de quando a embarcação ainda funcionava — trabalho realizado por voluntários do Instituto do Mar.

Embarcação histórica chegou a ser atração turística no Parque Valongo, em Santos. Foto: Raimundo Rosa / Prefeitura de Santos / Divulgação

Atracado no Porto de Santos às margens do parque, a embarcação histórica podia ser observada de perto por quem visitasse o local, embora já não fosse permitido embarcar no navio. Ainda em dezembro, por exemplo, 50 alunos da rede pública santista visitaram a atração para aprender sobre a história dela a partir de relatos de profissionais que já trabalharam no Prof. W. Besnard.

Embora afundando, ainda há esperanças

Apesar das denúncias e de o navio estar, aos poucos, sumindo para baixo d’água no Porto de Santos, o presidente da Autoridade Portuária de Santos (APS), Anderson Pomini, afirmou que estão trabalhando para que o navio histórico seja finalmente restaurado.

Foto: Instagram @portodesantosbr / Reprodução

Pomini reforçou que a propriedade do navio pertence ao Instituto do Mar, uma associação sem fins lucrativos que, mesmo sem recursos suficientes, se dedica há anos para a recuperação da embarcação. “Agora, independentemente da propriedade, todos nós precisamos agir e nós já começamos”, afirmou o presidente da APS.

 

Anderson explicou que, para a segurança do canal de navegação do Porto de Santos, o plano é que o navio Prof. W. Besnard seja retirado e levado a um estaleiro. Lá, caso as condições permitam, ele será recuperado com apoio da APS junto a outras empresas. Por outro lado, caso não seja possível recuperá-lo, parte da embarcação será preservada no Parque Valongo.

Foto: Instagram @thiagogomesfotografia / Reprodução

Segundo Pomini, diferentes empresas precisam unir esforços para que o navio histórico possa ser restaurado, afinal o valor necessário para a reforma é alto para ser arcado por uma só empresa que, legalmente, não é a responsável pelo navio. Nesse sentido, o engenheiro e voluntário no projeto de restauração da embarcação, Antônio Carlos da Mata Barreto, revelou ao jornal A Tribuna que, apesar da tristeza em vê-la afundando, ainda nutre esperanças de que isso possa acelerar a recuperação do navio.

 

Barreto explicou que, antes do Prof. W. Besnard adernar, já vinham acontecendo negociações sobre a restauração definitiva da embarcação. Dessa forma, o ocorrido pode servir como combustível para acelerar as burocracias, tendo em vista a urgência do caso.

 

No mais, nos basta torcer para que as autoridades consigam se unir a tempo de recuperar um navio histórico com tanta importância para a pesquisa oceanográfica brasileira.

 

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