Como funciona um navio quebra-gelo? Entenda como essas embarcações atravessam mares congelados

Entre navios de proporções semelhantes, saiba o que diferencia um modelo quebra-gelo dos demais

Por: Nicole Leslie -
25/02/2026
Navio quebra-gelo Arktika. Foto: Rosatom / Divulgação

Em situações em que embarcações ficam presas em meio ao gelo, o resgate costuma exigir um autêntico navio quebra-gelo. Isso porque modelos convencionais não são projetados para resistir à pressão exercida pelas placas congeladas. Mas o que, afinal, concede essa capacidade a esse tipo de navio?

Diferente das embarcações comuns, os quebra-gelos possuem estrutura altamente reforçada e um design específico que permite romper campos de gelo (também conhecidos como banquisas) com até 3 metros de espessura. Porém, os diferenciais não param por aí.

Como funciona um navio quebra-gelo?

Enquanto os navios tradicionais possuem uma proa desenhada para cortar ondas, o quebra-gelo utiliza o próprio peso para esmagar o gelo. Por isso, sua proa é inclinada e arredondada, permitindo que a embarcação “escale” a camada congelada. A força de rompimento atua de cima para baixo, explorando o sentido de menor resistência da banquisa.

 

Um detalhe crucial na estrutura de um quebra-gelo é a ausência do bulbo de proa — aquela protuberância comum em navios de carga. Nesse caso, o bulbo aumentaria a resistência contra o gelo, o que dificultaria tanto a navegação quanto a quebra das placas.

Navio quebra-gelo Yamal. Foto: Pink Floyd88 a / Licença Wikimedia Commons

Além da ausência do bulbo de proa, muitas dessas embarcações contam com uma “faca de gelo” instalada sob o casco, evitando que o navio suba excessivamente sobre alguma placa de gelo e encalhe.

 

O casco, por sua vez, é composto por chapas de aço de alta resistência que podem chegar a 5 cm de espessura. A escolha do material também não é ao acaso, já que o aço convencional tende a se tornar frágil e quebradiço em temperaturas entre -25°C e -35°C. Por isso, é necessário utilizar um metal resistente a frios ainda mais intensos.

Navio quebra-gelo atômico Rossiya. Foto: Itar-Tass via Russia Beyond / Divulgação

Internamente, esses gigantes contam com casco de parede dupla e reforços estruturais extras para suportar impactos e pressões laterais. Para reduzir o atrito, o revestimento externo recebe polímeros especiais.

 

Outro recurso tecnológico encontrado em navios quebra-gelo é o sistema de bolhas de ar. A tecnologia bombeia ar comprimido debaixo do casco, criando uma corrente de água e ar entre o navio e o gelo, que diminui o atrito. O formato arredondado do casco, combinado a propulsores laterais, também ajuda a expelir os fragmentos das camadas para longe da embarcação.

Potência extrema

A propulsão de um navio desse modelo exige motores de altíssimo desempenho. Enquanto sistemas diesel-elétricos são comuns em operações em gelo moderado, os quebra-gelos nucleares — especialmente os da frota russa — ultrapassam 80 mil hp. Tal tecnologia permite que operem por anos sem reabastecimento, sendo limitados basicamente pelo estoque de mantimentos para a tripulação.


Além da potência, a manobrabilidade também é essencial nesse tipo de embarcação. Essa característica, garantida por propulsores azimutais que giram em 360°, permite mudanças rápidas de direção e até navegação de ré mesmo cercados por gelo espesso.

Brasil tem navios quebra-gelo?

O Brasil participa e incentiva o Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR), responsável por levar a pesquisa científica nacional ao continente gelado. Para isso, a Marinha do Brasil conta atualmente com dois navios polares: o Navio Polar Almirante Maximiano (H41) e o Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel (H44). Embora atuem em cenários glaciais, nenhum deles é classificado como quebra-gelo.

Navio Polar Almirante Maximiano (H41) e o Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel (H44). Foto: Iran Cardoso Jr. / Divulgação

Segundo a InterAntar, grupo de pesquisa da Universidade Federal do ABC dedicado a estudos antárticos, essas embarcações brasileiras possuem casco reforçado para enfrentar pequenos blocos de gelo flutuantes, mas não são projetadas para mares completamente congelados. Na prática, isso limita o alcance das expedições científicas em determinadas regiões.

 

Ainda assim, diversas pesquisas avançam graças a esses navios — que, em breve, terão um novo reforço. Em maio de 2023, foi iniciada a construção do Navio Polar Almirante Saldanha (H22), em um estaleiro em Aracruz, no Espírito Santo. À NÁUTICA, a Marinha informou que a embarcação deve ser lançada ao mar em julho de 2026, com entrega prevista para o primeiro semestre de 2027.


Segundo a corporação, o novo navio atenderá a todos os requisitos necessários para operar em apoio às pesquisas do PROANTAR, cujas normas não exigem características de um quebra-gelo propriamente dito. No mais, a Marinha adiantou que o H22 terá 103,6 m de comprimento e 18,5 m de boca, autonomia para 70 dias de operação e espaço para 95 pessoas a bordo, entre tripulantes e pesquisadores.

 

A embarcação será capaz de operar em campos de gelo de até um ano de idade, durante o verão e o outono, conforme o Código Polar da Convenção SOLAS. Também receberá a Classificação Polar 6 (PC6), segundo o Código Polar estabelecido pela Organização Marítima Internacional (IMO).

 

Mas o Brasil, tem, sim, navios quebra-gelo. Segundo catalogado pela Marinha do Brasil em janeiro de 2026, existem dois navios desse modelo registrados sob bandeira brasileira: um em Santa Catarina e outro em São Paulo.

 

No fim, romper o gelo não é apenas uma questão de força bruta. É resultado de engenharia específica, planejamento estratégico e tecnologia que permite navegar por onde poucos conseguem chegar.

 

Náutica Responde

Faça uma pergunta para a Náutica

    Relacionadas

    "Virada de chave": Azov estreia Z440 HT, lancha com proa espaçosa e feita para a família

    Estaleiro pernambucano apresentou barco de 44 pés, que acomoda até 20 passageiros e seis para pernoite; evento segue até dia 29

    Catamarã 99: como barco menos potente que o de Eike Batista quer quebrar recorde da Santos-Rio

    Embarcação de 39,6 pés aposta em fibra de carbono, baixo peso e dois motores Mercury 500 Racing para tentar reduzir a marca atual em quase 1h

    Quarto dia do São Paulo Boat Show 2026 tem live da NÁUTICA

    Transmissão acompanha a movimentação do evento neste domingo no São Paulo Expo

    Uma experiência: Ventura expõe 12 lanchas no São Paulo Boat Show, com 4 lançamentos

    V260 Surf, Iron 32, V550 Crossover New Edition e V400 Crossover New Edition estão entre os destaques, além de motos e bicicletas elétricas, quadriciclos, ATVs e UTVs

    Sedna volta ao São Paulo Boat Show com foco em barcos para pesca oceânica

    Estaleiro apresenta os modelos CC 320 e Cat 370, com propostas diferentes para pesca esportiva e navegação em longas distâncias