Iniciativa aposta no DNA ambiental para encontrar soldados perdidos no mar

Projeto testa uso de eDNA para localizar restos de mais de 40 mil militares americanos desaparecidos no mar desde a Segunda Guerra Mundial

06/03/2026
Arqueólogos marcam com bandeiras os locais de coletas de amostras de eDNA nos destroços de aeronave derrubada durante a 2ª Guerra. Foto: Jeremy Borelli / Divulgação

O fundo do mar esconde mistérios que vão além da vida marinha desconhecida pela ciência. Suas profundezas também são berço de vidas humanas perdidas — embora jamais esquecidas. E é em prol delas que uma iniciativa ambiciosa quer usar DNA ambiental (eDNA) para encontrar, especialmente, soldados perdidos no mar.

O ponto de partida para essa busca é o Grumman TBF Avenger, um avião de guerra que repousa desde 1944 no fundo do porto de Saipan, nas Ilhas Marianas do Norte. Estima-se que a aeronave, agora já coberta de corais e parte do ecossistema marinho, tenha caído após a Batalha de Saipan, confronto decisivo da Segunda Guerra Mundial no Pacífico.

Um Grumman TBF Avenger (1942). Foto: Governo dos EUA/ Wikimedia Commons / Reprodução

O avião levava três tripulantes, dos quais apenas um sobreviveu à queda. Os restos mortais dos outros dois nunca foram recuperados, como é o caso de centenas de outros soldados que ainda não puderam encerrar o ciclo da vida nas memórias dos entes queridos.

 

Por outro lado, o local onde habitam agora atua como uma espécie campo de testes de uma tecnologia que pode transformar a busca por militares desaparecidos no mar. Isso porque a Agência de Contabilização de POW/MIA da Defesa dos EUA (DPAA) tem a missão de localizar mais de 40 mil soldados americanos presumidamente perdidos no oceano desde a Segunda Guerra Mundial.

 

E, para enfrentar um dos ambientes mais desafiadores do planeta, que não cansa de desafiar a ciência, como é o fundo do mar, a agência aposta no chamado DNA ambiental, ou eDNA.

Uma busca pelo invisível

O eDNA nada mais é do que o material genético que organismos vivos — ou mortos — liberam no ambiente. Logo, ele pode ser encontrado na água, no solo ou em sedimentos, sem a necessidade da recuperação física de ossos ou objetos pessoais.

Imagem ilustrativa. Foto: wirestock / Envato

A técnica já é utilizada em pesquisas de conservação desde 2008, quando identificou uma espécie invasora de rã-touro (Lithobates catesbeianus) na França, depois que métodos tradicionais falharam. Em terra, também ajudou arqueólogos a extrair DNA humano de sedimentos com dezenas de milhares de anos, sobretudo em cavernas.

 

No oceano, porém, o cenário é outro. Variáveis como correntes, temperatura, profundidade e a própria movimentação da água tornam a preservação do DNA muito mais incerta.

O projeto-piloto

Em parceria com o Instituto Oceanográfico Woods Hole e o Centro de Biotecnologia da Universidade de Wisconsin, a DPAA conduziu um estudo entre 2022 e 2023 em 12 naufrágios — sete aeronaves abatidas e cinco navios — em três ambientes distintos:

  • águas rasas e profundas de Saipan (Pacífico ocidental);
  • Lago Huron, na fronteira entre EUA e Canadá;
  • costa de Palermo, na Itália.

Os locais incluíam tanto pontos de interesse militar quanto naufrágios comerciais. A coleta, por sua vez, envolveu amostras de água e de sedimentos do fundo do mar — essa última, a etapa mais difícil, especialmente em áreas de recife rochoso, como no Avenger.

 

A equipe teve o próprio DNA catalogado e utilizou equipamentos de proteção durante o trabalho, para evitar que o ambiente fosse “contaminado” com o DNA deles mesmos.

Imagem ilustrativa. Foto: Image-Source / Envato

Entre 2023 e 2024, o material foi analisado por meio de metagenômica, técnica que sequencia todo o DNA presente na amostra, seja ele humano ou não. O principal desafio desta etapa foi distinguir DNA humano antigo, possivelmente ligado a restos mortais de décadas atrás, de material recente, deixado por mergulhadores ou nadadores, por exemplo.

 

Para driblar esse obstáculo, os pesquisadores levaram em conta que, após a morte, o DNA se fragmenta. Assim, sequências com menos de 150 pares de bases são consideradas degradadas, enquanto fragmentos ainda menores, com cerca de 40 pares de bases, sugerem material mais antigo. Com o método, os estudiosos conseguiram detectar e diferenciar DNA humano degradado de sequências contemporâneas.


Em sedimentos de duas aeronaves (na lagoa de Saipan e na Itália), foram encontradas altas concentrações de fragmentos curtos, justamente em áreas onde se suspeita da presença de restos humanos. Em cada caso, uma amostra apresentou abundância significativamente maior que as demais, indicando possível capacidade de apontar áreas específicas de interesse.

 

Como era de se esperar, as amostras de sedimento se mostraram mais informativas que as de água, já que o fundo marinho é menos sujeito à dispersão que a coluna d’água. De qualquer forma, para os pesquisadores, trata-se de uma “prova de conceito”: é possível recuperar DNA humano degradado e diferenciá-lo do recente em ambiente subaquático.

Perguntas em aberto

O estudo, porém, não recuperou restos mortais nos locais analisados. Sem escavações direcionadas às áreas onde houve maior concentração de DNA antigo, não foi possível confirmar se os sinais estão, de fato, associados a ossos humanos. O relatório final, inclusive, recomenda novas escavações, mas ainda não há decisão sobre a continuidade.

Imagem ilustrativa. Foto: Image-Source / Envato

Por outro lado, os dados também trouxeram um resultado inesperado. Em águas frias e profundas (em Saipan e no Lago Huron), amostras de controle, coletadas em áreas sem suspeita de restos humanos, apresentaram maior concentração de fragmentos antigos de DNA humano do que os próprios pontos investigados.

 

A hipótese é que o material genético possa se acumular devido a esgoto, chuva ou ao fato de que humanos estão presentes em praticamente todos os ambientes, liberando constantemente traços de DNA, especialmente em águas frias, onde esse material pode se conservar por mais tempo.

 

A análise também identificou microrganismos possivelmente ligados à decomposição e genes associados a moléculas presentes em pele, cartilagem e vasos sanguíneos, mas a relação direta com restos humanos ainda precisa ser comprovada.

O que pode mudar

Hoje, a DPAA depende de escavações subaquáticas longas e caras, que podem durar meses. O eDNA não identifica indivíduos nem substitui exames forenses tradicionais, mas pode funcionar como ferramenta preliminar para indicar presença ou ausência de material humano antes de uma operação complexa.

 

A agência avalia os resultados com cautela e também aguarda dados de outro projeto piloto que utiliza drones submarinos e aprendizado de máquina. Para os pesquisadores, o método ainda está no “reino do possível”. Para as famílias dos desaparecidos, ele não representa uma solução imediata — mas pode, no futuro, tornar mais precisa e eficiente a busca por aqueles que jamais voltaram do mar.

 

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