Em um livro para ver e pensar, o fotógrafo João Farkas documenta um litoral invisível aos cartões-postais
Em “Margem Equatorial Costa Norte Brasileira”, Farkas revela um território de beleza bruta, culturas tradicionais e conflitos ambientais cada vez mais urgentes


Durante décadas, o litoral brasileiro foi contado a partir de cartões-postais: praias urbanizadas, mar azul-turquesa, coqueiros alinhados. No livro “Margem Equatorial Costa Norte Brasileira” (Edições Sesc São Paulo, 192 páginas), o fotógrafo João Farkas se afasta desse imaginário e propõe outro ponto de vista, revelando um litoral quase invisível — e essencial para compreender o Brasil contemporâneo. Nesse movimento inverso, ele se volta para um trecho pouco conhecido, raramente retratado e profundamente estratégico do país: a costa amazônica e o litoral norte do Brasil. O que se revela é um território de beleza bruta, culturas tradicionais e conflitos ambientais cada vez mais urgentes.
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“A intenção é não apenas retratar a beleza da nossa paisagem e da nossa cultura, mas tentar preservar o nosso patrimônio natural para, pelo menos, criar uma memória para as próximas gerações. E, se possível, mobilizar a consciência nacional para a proteção desse patrimônio natural”, diz Farkas, explicando a sua proposta com esse livro.


Resultado de uma série de sete expedições realizadas entre 2021 e 2025, por terra, mar e ar, a publicação percorre cerca de 2.200 quilômetros de litoral, do Oiapoque, no Amapá, ao Rio Grande do Norte, atravessando a foz do Amazonas, o arquipélago do Marajó, as reentrâncias maranhenses e áreas costeiras onde terra e água se confundem. Por suas páginas distribuem-se aproximadamente 200 imagens, selecionadas de um acervo com mais de 20 mil fotografias produzidas ao longo do projeto.
Diferentemente da ideia clássica de costa como linha fixa entre terra e mar, “Costa Norte” apresenta um litoral em permanente transformação. Manguezais, rios caudalosos, ilhas móveis, dunas, campos alagados e vilarejos que convivem com a instabilidade do território compõem um cenário onde o tempo parece seguir outra lógica. “Minhas imagens revelam essa condição mutável sem recorrer ao espetáculo”, explica Farkas.


O fotógrafo aposta em uma linguagem documental precisa, silenciosa, muitas vezes contemplativa, que convida o leitor a observar — e não apenas consumir — a paisagem. O resultado é um retrato raro de um Brasil costeiro pouco domesticado, onde a presença humana se integra ao ambiente de forma direta e, muitas vezes, frágil.
Mais do que paisagens, o “Costa Norte” é um livro sobre pessoas. Comunidades ribeirinhas, pescadores artesanais, populações tradicionais e pequenos núcleos urbanos aparecem como parte indissociável do território. Não há idealização: a vida cotidiana surge com suas rotinas, dificuldades e saberes ancestrais.


Esse olhar atento às relações entre gente e lugar é uma constante na trajetória de João Farkas, fotógrafo documental com mais de 30 anos de carreira, conhecido por registrar profundas relações entre natureza, cultura e transformações sociais no Brasil. Aqui, ele reforça a ideia de que preservar a costa norte não é apenas uma questão ambiental, mas também cultural e social.
Embora visualmente poderoso, o livro carrega uma camada clara de alerta. A costa norte brasileira está no centro de debates contemporâneos que envolvem mudanças climáticas, avanço do nível do mar, pressões econômicas e projetos de exploração de petróleo, especialmente na região da foz do Amazonas.


Essas tensões aparecem de forma sutil, mas constante, nas imagens e nos textos de apoio. O posfácio, assinado por Fernando Gabeira, amplia a reflexão ao contextualizar o território como uma encruzilhada entre desenvolvimento, soberania e preservação ambiental. Já o texto da pesquisadora Valdete Cecato ajuda a compreender a dimensão histórica e geográfica da região retratada.
Em “Costa Norte”, a fotografia assume claramente o papel de documento. Não se trata apenas de registrar o que existe, mas de guardar memória de um território que pode mudar radicalmente nas próximas décadas. Ao fazer isso, Farkas coloca o leitor diante de uma pergunta incômoda e necessária: que tipo de litoral o Brasil quer preservar — e a que custo?
O livro não oferece respostas prontas. Sua força está justamente em criar espaço para reflexão, usando a imagem como ferramenta de consciência e não de distração. Em resumo, um livro não apenas para ver, mas para pensar.
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