“O mar me curou”: a jornada de uma mãe atípica que abriu a própria empresa de passeios de lancha
Deborah Moraes encontrou nas águas do litoral de SP um novo propósito após enfrentar desafios pessoais, maternidade atípica e recomeços


Mesmo com uma infância na Praia das Cigarras, em São Sebastião, no Litoral Norte de São Paulo, Deborah Moraes, hoje aos 41 anos, demorou a perceber que as respostas que tanto buscava estavam no mar. Hoje ela enche os pulmões para dizer “o mar me curou”, mas tudo isso só veio depois de uma grande virada de chave em sua vida, que envolveu a venda de sabonetes artesanais, uma transição de carreira e muitos sinais da imensidão azul.
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Ex-servidora pública e mãe de uma criança autista, o pequeno Felipe Samuel, de 8 anos, Deborah precisou superar desafios pessoais e financeiros ao transitar da estabilidade do trabalho como secretária em uma escola para o comando de sua própria empresa de passeios de lancha.


Em entrevista à NÁUTICA, ela contou essa história e relembrou que via as revistas da editora na mesa dos patrões na juventude, época em que atuava como caseira junto à propria mãe. Hoje, olhando para trás, ela percebe com clareza que esse já era um dos sinais de que as águas eram, mesmo, o seu destino.
Acredito que não existam coincidências na vida– ressaltou
Da licença maternidade ao pedido de passagem para o mar
Era 2019 quando Deborah realizou o sonho de ser mãe. À época, a licença-maternidade garantida pelo trabalho lhe caiu como uma luva. Mas os seis meses, aos poucos, começaram a parecer “muito tempo parada”, como ela define, para alguém tão ativa.
Sempre criativa e dedicada no que se propunha a fazer, ela decidiu que abriria uma saboaria artesanal — habilidade que adquiriu através de vídeos no YouTube. Com os primeiros sabonetes em mãos, passou a vendê-los em um condomínio e sua habilidade como vendedora logo foi notada por um dos condôminos, Erick Turcato.


Turcato tinha nada menos que um barco parado na praia do Lázaro, em Ubatuba, um dos destinos mais visados do Litoral Norte de São Paulo. Sua ideia era utilizar a embarcação para proporcionar passeios turísticos na região. Faltava, porém, alguém para tocar as vendas. Foi observando a lábia de Deborah com os sabonetes que ele a viu como pessoa ideal para assumir o trabalho.
Ele me deu uma oportunidade incrível. Me apresentou nas marinas, me apresentou aos marinheiros e o negócio foi acontecendo– relembra Deborah
Aos poucos, ela, que nunca tinha entrado em uma lancha antes, foi imergindo nesse universo, chegando a aprender até sobre a manutenção dos barcos. “Eu embarcava, fazia drinks. Eu gosto mesmo. Me sinto viva com isso”, detalha. Seu alto astral, aliado ao trabalho feito com excelência, foi atraindo novos clientes para os passeios turísticos — tudo isso enquanto ainda conciliava o cargo como secretária.


Esse agito se estendeu por anos, entre altos e baixos. Equilibrar os dois trabalhos não era fácil — e renunciar a um deles ainda não podia ser uma opção. Na escola, Deborah era tão querida quanto entre os barcos. Ela, aliás, detém uma facilidade muito grande em se estabelecer em seus meios, criando laços verdadeiros.


Durante um ano, ela acabou cedendo e se afastando das águas, mas, ao mesmo tempo, o trabalho na escola parecia não ter mais o mesmo brilho de antes, ainda que fosse feito com muito gosto. As peças não estavam se encaixando. Faltava algo.
A estabilidade foi essencial para eu ter meu filho, mas não tinha um futuro ali– explicou à NÁUTICA
O maior dos sinais
A virada de chave veio em um dos momentos mais delicados de sua vida, quando seu filho, à época com 5 anos, passou por uma fase crítica em que se recusou a comer por cinco dias. Ainda que afastada das águas, Deborah continuava muito requisitada para tocar os passeios. Foi naquele cenário de dificuldades financeiras que um novo convite “caiu do céu”.


Chegando à marina junto do pequeno, para entender a proposta que acabara de receber, o proprietário surgiu com um lanche em mãos — e os olhos de seu filho brilharam. Depois de dias se recusando a comer qualquer coisa, ele fazia, ali, uma refeição. Era o sinal que faltava. O mar a chamava mais uma vez e, ali, ela o agarrou como seu destino.
Uma vida nova
“Eu queria aprender a navegar”, relembra. Durante a pandemia, Deborah tirou sua tão sonhada habilitação de Arrais. Sua maior experiência prática veio ao navegar por 30 dias seguidos com um mentor experiente, o capitão Valdecir Ribeiro (o Val), em uma lancha de 33 pés.
Hoje eu sou mais conhecida no mar do que em terra– pontua
A perda da mãe de forma inesperada, há pouco mais de dois anos, a colocou em xeque novamente. O trabalho, de novo, seria sua válvula de escape — mas, agora, somente um deles. Deborah retomou contatos, abriu seu CNPJ e deu início a novos projetos. Trocou um terreno por uma lancha, a Twister, de 23 pés, que chegou como um verdadeiro furacão.


O barco colecionava “gambiarras” no motor e na rabeta. Ela foi ajudada por figuras como Val e o mecânico aposentado Roberto Francisco, que, sensibilizado por sua história, deu a manutenção da rabeta de presente.
Desde novata até se tornar dona da própria empresa de passeios, a “Sinta o Mar”, Deborah destaca que nunca lhe faltou socorro sobre as águas e que até mesmo as “concorrentes” sempre a apoiaram com parcerias e auxílio técnico.


Não à toa, ainda que agora tenha o próprio barco, ela destaca que segue “vendendo experiências”. Na prática, ela conecta seus clientes a embarcações que fazem sentido para o que procuram, seja um pedido de casamento ou um cafézinho em um fim de tarde na Ilha Anchieta — sua “estrelinha dos olhos” —, o que nem sempre casa com a proposta do seu barco, mas sim com os de colegas.


Ainda sendo levada pelas ondas e confiando no que o mar a pode proporcionar, Deborah passa por uma fase de reestruturação. Seu objetivo agora é consolidar sua empresa de passeios de lancha com qualidade e confiança, mas também sonha com conquistas ainda maiores, que logo devem marcar os próximos capítulos de sua trajetória.
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