Mudança climática faz mar engolir arquipélago panamenho

Por: Redação -
25/06/2019

Às 9 horas da manhã, três mulheres guna, a etnia indígena que habita o arquipélago de San Blas, no Caribe panamenho, tentam secar com areia o bolsão d’água em volta de casa na ilha de Sugdub Gardi. A chuva não teve clemência e as ondas ultrapassaram as rudimentares barreiras de coral que os guna construíram anos atrás para proteger essa ilhota do aumento do nível do mar, um lugar plano e de apenas um hectare e meio de extensão.

Agora, a maioria das vielas está tomada pela lama e a água chegou a entrar em várias cabanas, feitas de paredes de junco e teto de palha. Isso era típico em novembro, o mês dos temporais por excelência no Panamá, mas há um tempo está se tornando cada vez mais habitual em outras épocas do ano: o calendário de chuvas deixou de existir e o mar não para de crescer.

San Blas, o turístico arquipélago de águas transparentes que pertence a Sugdub Gardi e que, por sua vez, faz parte da comarca Guna Yala, é uma das áreas mais prejudicadas da América Latina pelo aumento do nível dos oceanos, uma consequência direta do aquecimento global e do degelo dos polos.

Com base em dados de um mareógrafo instalado nas proximidades do arquipélago, a água nesta parte do Caribe subiu cerca de 30 centímetros no último 50 anos, 11 centímetros a mais do que a média mundial. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), vinculado à Organização das Nações Unidas indicou no seu quinto relatório, publicado em 2014, um cenário desolador e alertou que, se continuar assim, o aumento médio dos oceanos poderia ser de até 30 centímetros em 2065 e de 55 centímetros em 2100, o arruinaria várias comunidades perto do mar.

LEIA TAMBÉM
>>MCP Yachts divulga novas imagens do seu projeto de veleiro em construção
>>Embarcação inflável promete aumentar a diversão na água
>>Superesportiva da Mercedes e Cigarette alia alto desempenho, requinte e tecnologia

Um estudo elaborado em 2004 a partir de imagens aéreas publicadas pela revista “Conservation Biology” afirma que o arquipélago, formado por 365 ilhas – sendo 38 habitadas e as demais usadas para fins de turismo – perdeu em 50.363 metros quadrados em 30 anos. Sugdub Gardi, Ustupu, Mamidub, Anassuguna e Ogobsucun são as comunidades que correm mais riscos atualmente, segundo os especialistas. Mas o futuro não é nada simples para as outras ilhas e seus habitantes sabem disso. As autoridades panamenhas, também.

Cientes que o mar vai acabar se transformando em inimigo voraz e incontrolável, a comunidade de Sugdub Gardi iniciou em 2010 um pioneiro plano de mudança rumo à terra firme que evoluiu a passos lentos e que parece que agora finalmente está se concretizando. Os moradores se acomodaram em um terreno de 17 hectares no continente, a poucos quilômetros da ilha e de propriedade da comarca, e convenceram o governo a erguer um centro médico e uma escola no local.

Após anos sem avanços, há poucos meses, a primeira licitação para a construção de 300 casas foi feita. O plano está pendente de aprovação das autoridades e servirá de exemplo para caso outras comunidades queiram se mudar futuramente para o litoral. De acordo com a ONG suíça Displacement Solutions, Sugdub Gardi será o primeiro povoado indígena da América Latina a ser desalojado pela mudança climática.

O abandono da ilha, que será totalmente voluntário, solucionará também outra dor de cabeça da comunidade: a superpopulação. Sugdub Gardi é pequena, as cabanas se aglomeram umas nas outras e a população não para de crescer. Cada casal tem em média cinco filhos e em cada cabana vivem cerca de 12 pessoas.

Receba notícias de NÁUTICA no WhatsApp. Inscreva-se!

Quer conferir mais conteúdo de NÁUTICA?
A edição deste mês já está disponível nas bancas, no nosso app
e também na Loja Virtual. Baixe agora!
App Revista Náutica
Loja Virtual
Disponível para tablets e smartphones

Náutica Responde

Faça uma pergunta para a Náutica

    Relacionadas

    Relíquias: museu nos EUA reúne mais de 270 motores clássicos

    O Tallahassee Automobile Museum abriga um acervo náutico “old school” com barcos históricos, itens de pesca e motores raros que remontam ao início do século 20

    Novo no Canadá, táxi aquático autônomo deve iniciar testes na água em 2026

    Desenvolvida pela canadense Future Marine Inc., embarcação busca integrar o transporte público de forma sustentável e tecnológica

    No Havaí, plástico retirado do oceano está sendo transformado em asfalto

    Alternativa para o combate à poluição plástica integra itens como potes de iogurte e redes de pesca ao material utilizado para pavimentar estradas

    Colete salva-vidas usado por sobrevivente do Titanic é leiloado por R$ 4 milhões

    Item traz autógrafos feitos por Laura Mabel Francatelli e outros sete sobreviventes do mesmo bote

    FOTOS: Expedição científica descobre mais de 100 novas espécies marinhas na Austrália

    Entre as novidades estão tubarões, raias, caranguejos, anêmonas, esponjas e outros animais até então desconhecidos pela ciência