Navegar pelo Brasil: o desafio do abastecimento e o papel das Secretarias de Turismo

27/03/2025

Muito se fala sobre os 8 mil quilômetros de costa brasileira como um imenso potencial para o desenvolvimento do turismo náutico. Mas, na prática, como é navegar no Brasil por essas águas?

Meu marido, Capitão Johan Negrão, teve recentemente a oportunidade de conduzir uma lancha de Barreirinhas, no Maranhão, até o Rio de Janeiro, passando por algumas das paisagens mais incríveis do litoral brasileiro.

Barra de São Miguel, em Maceió, Alagoas. Foto: Wikimedia Commons/ Creative Commons/ Reprodução

Contudo, além dos desafios naturais que são superáveis com experiência e técnica — como a navegação em Barra de São Miguel (Maceió), Guamaré (Rio Grande do Norte) e Camocim (Ceará) –, a jornada revelou grandes lacunas estruturais, principalmente no abastecimento.

A dura realidade do abastecimento marítimo

Ao longo de todo o percurso, foram pouquíssimos os pontos de abastecimento diretamente acessíveis do mar. Na maioria das paradas, a solução foi recorrer a postos de gasolina em terra firme, carregando galões de combustível manualmente até a embarcação.

Foto: TDyuvbanova/ Envato

Atualmente, do Maranhão para o Sul, há abastecimento marítimo apenas em Fortaleza, Barra de São Miguel, Salvador (com a melhor estrutura), Vitória, Cabo Frio e Rio de Janeiro. Aracaju tem um posto próximo à margem do rio, que atende de forma razoável.

 

O argumento ambiental para a falta de postos náuticos perde força quando se considera os riscos de derramamento durante o transporte manual de combustível.

Segurança: outro desafio para o navegador

Outro ponto crítico é a segurança. Em alguns estados, como no Ceará, a presença de facções criminosas nos píeres é um fator que assusta visitantes e limita o desenvolvimento da navegação. Navegar no Brasil sem apoio e sem segurança não é sustentável, nem do ponto de vista turístico nem econômico.

Foto: Sandsun/ Envato

O papel das Secretarias de Turismo

No Brasil ideal para navegar, teríamos postos de abastecimento a cada 100 km (hoje nesse trecho temos a média de um posto a cada 375km) e apoio institucional para quem se aventura pelo mar. Mas este artigo não trata apenas de infraestrutura — ele é uma provocação às Secretarias de Turismo dos municípios náuticos.

Foto: marccalleja/ Envato

Como gestora pública da área, orientei meu marido: “Em caso de dúvidas, procure a SETUR.” Acreditava que as secretarias teriam as informações básicas ou, no mínimo, a intenção de auxiliar. Nenhuma atendeu. Quem prestou apoio foram lojas comerciais de produtos náuticos e operadores de turismo náutico, sempre solícitos e bem informados.

 

Por isso, fica a reflexão: você, gestor de turismo de um município náutico, sabe onde um barco viajante pode aportar e abastecer? E, se sabe, sua cidade oferece um canal de comunicação 24 horas para orientar sobre isso?

Com tanta tecnologia disponível, incluindo inteligência artificial e atendimento automatizado, seria um esforço pequeno e um impacto grande para melhorar o ato de navegar no Brasil. Afinal, não basta ter um litoral extenso e belo — é preciso estar preparado para receber os navegadores que querem explorá-lo.

 

Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

 

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