Navio brasileiro afundado por alemães na 2ª Guerra é encontrado no litoral de SP
Após 82 anos do naufrágio, mergulhadores encontraram o cargueiro Tutoya entre as cidades de Peruíbe e Iguape, a 21 metros de profundidade


Um pedaço da Segunda Guerra Mundial foi encontrado nas profundezas do litoral de São Paulo — na verdade, nem tão fundo assim. O navio Tutoya, afundado por um submarino alemão durante os conflitos em julho de 1943, foi descoberto a 21 metros de profundidade, entre as cidades de Peruíbe e Iguape.
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No entanto, se engana quem pensa que esse achado aconteceu por acaso. Após conhecer a história do navio, Tatiana Mello, instrutora de mergulho, turismóloga e especialista em naufrágios, acionou um grupo de mergulhadores para a missão de caçar o Tutoya — mas ainda faltavam várias informações.
Pensando nisso, Mello entrou em contato com o marinheiro Clayton Aloise para saber mais dados sobre o navio. Ele, então, conversou com pescadores, colheu algumas informações e, junto à equipe de Tatiana, partiu da Serra do Guaraú, em Peruíbe, para desvendar esse mistério.


O começo da busca exigiu resiliência. Foram mais de duas horas sem qualquer novidade no sonar (tecnologia utilizada para detectar objetos debaixo d’água pelo som). As coordenadas citadas pelos pescadores não levavam até o navio, mas um relevo diferente no fundo do mar chamou atenção, fazendo brotar a semente da esperança.
Segundo a equipe, o relevo parecia “uma marca, uma imagem bem grande”. Com informações técnicas o suficiente sobre o barco e equipamentos para captar imagens, eles mergulharam. Aos poucos, todas as informações foram batendo.
Quando a gente saiu da água pudemos compartilhar com eles: ‘Gente, tudo bateu’. As medidas bateram, a pesquisa bateu, a gente está mergulhando no Tutoya, é emocionante– comemorou Tatiana à TV Globo


A confirmação veio como um presente de Natal levemente atrasado, no dia 26 de dezembro de 2025. O Tutoya foi encontrado a 21 metros de profundidade — relativamente raso. Mergulhos abaixo dos 40 metros precisam de mais técnica e restringem o número de pessoas. Nas condições atuais, o navio pode ser contemplado por mais mergulhadores.


Para a surpresa dos pesquisadores, o navio é como um “museu congelado”, pois segue com boa parte intacta desde o naufrágio. Nada foi retirado do fundo, segundo Mello, o que transforma o achado em uma pequena viagem ao tempo, na Segunda Guerra Mundial.
A Batalha do Atlântico
Antes de se chamar Tutoya (em homenagem a Tutóia, cidade do Maranhão), o barco foi batizado de Mitcham, ainda em 1913, ano de sua construção na Inglaterra. Dez anos depois, foi vendido para o Lloyde Brasileiro, companhia estatal de navegação brasileira, e rebatizado de Uno. O nome que conhecemos hoje só foi dado em 1929.


Até ser afundado, o navio, do tipo cargueiro de aço, possuía 67,2 metros (220 pés) de comprimento, era movido por duas máquinas a vapor de tripla expansão e carregava cerca de 750 toneladas de produtos como carne salgada, café, batata, chá-mate e madeira — tudo isso se desmantelou no fatídico 1º de julho de 1943.
Naquele ano, o Brasil já tinha declarado guerra às potências do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), justamente por conta de uma série de ataques alemães a navios mercantes brasileiros em 1942. Antes do naufrágio, 28 embarcações brasileiras já tinham sido afundadas pela marinha de Hitler.
Navegar pela costa brasileira nesse período era extremamente perigoso, pois submarinos alemães (U-boats) ficavam à espreita, prontos para afundar qualquer embarcação e cortar as linhas de suprimentos dos Aliados. Detalhe: o Tutoya não carregava matéria prima para os países aliados, apenas produtos para consumo no Brasil.
Para evitar um bombardeio, os barcos, inclusive o Tutoya, navegavam no escuro e próximos do litoral. A estratégia fazia sentido, mas sucumbiu quando o comandante recebeu um pedido para que a embarcação acendesse as luzes e desacelerasse a marcha. Pensando se tratar de um navio de patrulha, a ordem foi atendida. Era tudo que os alemães queriam.


Em questão de poucos minutos, um torpedo vindo do submarino U-513 atingiu o Tutoya, partindo-o em dois e o fazendo afundar pouco tempo depois. O capitão, Comandante Acacio, seu imediato e outras cinco pessoas não tiveram tempo de escapar e morreram.
As vítimas desse ataque nunca tiveram um funeral, tampouco os destroços do Tutoya tinham sido encontrados até dezembro de 2025. Por isso, muito mais que uma descoberta, o naufrágio encontrado representa um desfecho simbólico para as famílias dos militares mortos.
Esses homens deram a vida para manter o comércio e abastecimento de uma país, que na época do conflito, sequer tinha condições de se defender sozinho das agressões da poderosa marinha de Hitler– declarou a equipe de mergulhadores envolvidos no estudo


Atualmente, o naufrágio do Tutoya só pode ser contemplado. O barco é protegido pelas leis brasileiras, nada pode ser retirado dele. Sendo assim, de uma história rica e valente, sobraram apenas as duas partes do casco e um memorial silencioso aos marinheiros que perderam a vida em questão de segundos.
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