Peixes sabem escalar? Vídeo flagra espécie rara subindo rochas de cachoeira no MS

Momento foi registrado por policiais ambientais e atraiu pesquisadores da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul

27/08/2025
Foto: Instagram @ecologiaeacao/ Reprodução

Os pássaros voam, os cavalos andam, as cobras rastejam e os peixes… escalam? É o que sugere um flagra feito por policiais ambientais no Mato Grosso do Sul, que registraram um tipo de “peixe escalador” subindo as rochas da Cachoeira do Sossego, em Corguinho.

O animal em questão é o bagre-abelha (Rhyacoglanis paranensis), espécie rara e de biologia ainda pouco conhecida. Apesar disso, a filmagem feita no rio Aquidauana mostra centenas desses peixes, que escalam paredes rochosas com mais de 4 metros de altura. Assista!

 

 

O comportamento inédito chamou a atenção de especialistas, que começaram a examinar o caso. Uma semana depois do registro, pesquisadores da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) foram até o local, e o resultado do estudo foi publicado no Journal of Fish Biology.

 

De acordo com os estudiosos, essa foi a primeira vez que eles relataram uma aglomeração em massa e o comportamento migratório e de escalada entre peixes da família Pseudopimelodidae. Além de Corguinho, o mesmo fenômeno foi observado na Cachoeira Diamantes, em Rochedo (MS).

Como esse peixe consegue escalar?

Para estudar como os peixes escaladores fazem tal peripécia, os especialistas contaram com a autorização do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade (SisBio) para selecionar um dos 439 peixes para análise.

Foto: Instagram @ecologiaeacao/ Reprodução

Além da análise individual do espécime capturado, os cientistas observaram o comportamento em grupo de centenas desses peixes durante a pesquisa. Eles observaram que, ao longo do dia, vários bagres-abelhas se mantinham escondidos sob rochas e em áreas com sombra.

 

Já à noite, centenas deles começavam a subir as pedras — inclusive sozinhos — , desde as mais íngremes até as de superfícies verticais com água corrente. Em determinadas rochas, a concentração dos animais chegava a formar verdadeiras “paredes de peixes”, com um em cima do outro. Inclusive, alguns chegaram a escalar rachaduras e objetos artificiais — teve até escalada de cabeça para baixo!

Conforme publicado no artigo, essas criaturas criam impulso por meio das nadadeiras abertas, a cauda e movimentos laterais. Inclusive, o estudo aponta que os bagres dessa espécie parecem formar uma cavidade entre o corpo e a rocha, responsável por criar uma pressão negativa que permite aos peixes se fixarem mesmo em superfícies íngremes ou verticais — habilidade parecida com animais como lagartixas e lulas, por exemplo.

 

Outras espécies que vivem em rios com forte correnteza também têm comportamento próximo, mas a musculatura usada pelo peixe escalador ainda não foi totalmente entendida.

O que se sabe sobre os peixes escaladores?

O comportamento e as características do Rhyacoglanis paranensi ainda não são muito claras para a ciência. Até o momento, se sabe que eles costumam medir até 9 centímetros e possuem uma aparência peculiar, com manchas escuras sobre o corpo claro e nas nadadeiras.

Rhyacoglanis paranensis. Foto: Oscar Akio Shibatta & Richard P. Vari et.al/ CC BY-NC 4.0/ Reprodução

Esses peixes vivem em rios de correnteza forte e fundo rochoso e, assim como vários, precisam migrar para se reproduzirem. Ainda não se sabe como funciona o seu acasalamento, mas acredita-se que a migração em massa — como é observada no vídeo — , logo no início das chuvas, tenha ligação com a desova.

 

Em outro momento do estudo, os cientistas da UFMS analisaram 14 peixes (quatro fêmeas adultas, cinco machos e cinco jovens), e revelaram que os bagres-abelhas não se alimentam durante a migração e vivem na bacia do rio Paraguai-Paraná, uma das mais estudadas do Brasil — o que pode explicar a concentração registrada no Aquidauana.

 

Segundo os pesquisadores, o fenômeno destaca a importância das observações em campo para compreender o papel ecológico e a conservação de pequenos peixes migratórios.

 

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