Pesquisa brasileira identifica microalga que remove resquícios de antibióticos da água

Estudo aponta que organismo retirou até 42% de antibiótico de águas residuais

Por: Nicole Leslie -
10/07/2025
Foto: Antony Trivet / Envato

O futuro da água está sob ameaça por diversos fatores, como escassez, poluição e contaminação por substâncias químicas. Em meio a esse cenário, um estudo brasileiro recente aponta uma possível solução natural: pesquisadores identificaram uma microalga capaz de remover resíduos de antibióticos da água, tendo reduzido em até 42% a concentração dessas substâncias.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do ABC (UFABC), e publicada em maio deste ano na revista científica Biochemical Engineering Journal.

 

O estudo investigou o potencial da microalga Monoraphidium contortum para remover os antibióticos sulfametoxazol e trimetoprima da água residual. Em testes laboratoriais, o organismo conseguiu eliminar até 42,3% do sulfametoxazol e 28,6% da trimetoprima quando os compostos foram aplicados separadamente.

Microalga (Monoraphidium contortum). Foto: Marcelo Chuei Matsudo / Reprodução

No entanto, quando os dois antibióticos foram adicionados simultaneamente à água, a capacidade de remoção do sulfametoxazol caiu para 7%, indicando uma possível competição entre as substâncias ou um efeito inibidor na atividade da microalga.

 

Outro dado relevante da pesquisa é que a biomassa gerada após o processo de biorremediação manteve um perfil bioquímico estável, com teor lipídico adequado à produção de biodiesel — o que reforça a viabilidade do uso da alga em uma cadeia sustentável de bioenergia.

Imagem ilustra processo analisado na pesquisa. Foto: ScienceDirect / Reprodução

No processo, as microalgas adicionadas na água contaminada utilizam luz solar e dióxido de carbono para realizar a biorremediação, reduzindo a carga de antibióticos. O sistema gera dois subprodutos: um efluente tratado e uma biomassa rica, que pode ser aproveitada comercialmente.

Redução dos riscos de contaminação

Os antibióticos analisados no estudo estão entre os dez mais consumidos no Brasil, englobando tratamentos médicos e uso na agropecuária. Como o corpo humano não metaboliza integralmente essas substâncias, parte delas é excretada por meio da urina e fezes, chegando às estações de tratamento de esgoto.

 

O problema, segundo os autores, é que as Estações de Tratamento de Esgoto (ETE) convencionais não são projetadas para remover resíduos de antibióticos, permitindo que essas substâncias permaneçam nas águas residuais e se espalhem para o meio ambiente. Isso pode acarretar impactos severos tanto para os ecossistemas quanto para a saúde humana, ao favorecer, por exemplo, a proliferação de bactérias resistentes a medicamentos.


Diante desse cenário, o estudo defende a urgência na adoção de tecnologias eficazes e seguras para remover esses micropoluentes da água — e destaca o uso de microalgas como uma alternativa viável, acessível e de baixo risco, ao contrário de alguns métodos convencionais que geram subprodutos perigosos.

 

“A biorremediação baseada em microalgas surgiu como uma abordagem promissora para o tratamento terciário de esgoto e águas residuais industriais. Esse método oferece múltiplos benefícios, incluindo biofixação de dióxido de carbono, bioassimilação de nutrientes, remoção de contaminantes emergentes e produção de biomassa potencialmente valiosa”, conclui o estudo.

 

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