São Paulo inaugura estruturas náuticas de uso público para alavancar turismo

23/02/2024

O estado de São Paulo tem cerca de 50 reservatórios (somando-se lagos e represas) e 4.200 Km de rios navegáveis. Localizadas no entorno desse mar de água doce, pelo menos 120 cidades têm potencial para se destacar como autênticos paraísos do turismo náutico. Faltavam-lhes, porém, estruturas náuticas para que pudessem cumprir a profecia. Não falta mais.

Pereira Barreto, Três Fronteiras e Rubinéia, três cidades do extremo Noroeste do Estado, foram escolhidas para dar início à primeira fase do Programa de Turismo Náutico, um imenso projeto criado pela Secretaria de Turismo e Viagens de São Paulo (Setur-SP) com o objetivo de estruturar e fomentar o fluxo de visitantes a partir da qualificação da atividade náutica.

 

 

Por conta disso, pode-se dizer que o secretário de Turismo e Viagens de São Paulo (Setur-SP), Roberto de Lucena, passou um fim de semana inesquecível. No último dia 17, ele esteve na Estância Turística de Pereira Barreto, às margens do rio Tietê, onde deu o pontapé inicial ao projeto, ao lado do prefeito João de Altayr, do secretário municipal de Turismo, Igor Grespan, e de diversas autoridades, como o Capitão dos Portos do Tietê Paraná, Renato Luís Kodel.

Novas estruturas náuticas na cidade de Rubinéia. Foto: Victor Santos/Revista Náutica

“Com a inauguração desse moderníssimo conjunto de píeres de atracação, com recursos do Estado, estamos entregando aqui a primeira de uma série de 13 estruturas náuticas de uso público programada para este ano. O Turismo náutico é uma forma sustentável de desenvolver um destino e aproveitar as riquezas naturais que essa cidade tem, além de promover a consciência ambiental e de gerar emprego e renda para a população”, disse Lucena.

Novas estruturas náuticas na cidade de Três Fronteiras. Foto: Victor Santos/Revista Náutica

São passarelas, píeres flutuantes de atracação e sistemas de ancoragem construídos pela Metalu, com alumínio naval e madeiramento. “Os turistas que vinham para cá atrás de sol e pescaria agora encontrarão essa estrutura náutica maravilhosa, localizada na Praia Pôr-do-Sol”, comemorou o prefeito Altayr.

Novas estruturas náuticas na cidade de Pereira Barreto. Foto: Victor Santos/Revista Náutica

“Além de fomentar o turismo, esse sistema reafirma a identidade e vocação náutica de Pereira Barreto”, acrescentou o Secretário Municipal de Turismo, Igor Grespan, que — para inaugurar os píeres da cidade em grande estilo — recepcionou os convidados com um verdadeiro show da orquestra de sopro e percussão Facmol, grupo instrumental composto por estudantes de música e professores.

Novas estruturas náuticas na cidade de Rubinéia. Foto: Victor Santos/Revista Náutica

Na manhã do dia seguinte, foi a vez da cidade de Três Fronteiras inaugurar a sua estrutura náutica de uso público. Os equipamentos foram instalados no Parque Ecoturístico da Areia Branca, num braço escandalosamente limpo do Rio Paraná.

Novas estruturas náuticas na cidade de Pereira Barreto. Foto: Victor Santos/Revista Náutica

O evento teve a presença do prefeito de Três Fronteiras, Rubens José Belão, que disse que o número de embarcações na região saltou de 500, em 2020, para 900, em 2023. Com a implantação das novas estruturas, o fluxo de barcos e de turistas deve aumentar ainda mais.

Por sua vez, a administradora do Parque Ecoturístico da Areia Branca, Ludmila Martins, revelou que, antes da inauguração dos píeres, foi realizado uma espécie de evento teste. “Nesse ensaio, nada menos que 45 barcos atracaram na nossa estrutura náutica, o que dá uma boa ideia da sua importância para a cidade e para a região”, disse ela.

Novas estruturas náuticas na cidade de Três Fronteiras. Foto: Victor Santos/Revista Náutica

Na inauguração houve um novo encontro de embarcações — lanchas de até 44 pés navegaram de Três Fronteiras até Rubinéia, em um passeio de 20 minutos, levando a bordo o secretario Roberto de Lucena e diversos políticos da região.

 

Localizada quase na divisa com o Mato Grosso do Sul, na margem esquerda do Rio Paraná, Rubinéia passou a ser banhada pelas águas do Lago Artificial da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, ao longo dos quais se distribuem parque e praias.

Novas estruturas náuticas na cidade de Rubinéia. Foto: Victor Santos/Revista Náutica

Em uma dessas orlas — a gostosa Praia do Sol, propícia para banhos, pesca, esportes náuticos — foi instalada a estrutura náutica da Metalu, inaugurada já no início da tarde do domingo, 18 de fevereiro.

 

“Se já era um prazer administrar uma cidade banhada por esse marzão de água doce, imagina agora, com esses píeres. É só uma questão de tempo para nos tornarmos referência em turismo náutico em São Paulo”, disse o prefeito de Rubineia, Osvaldo Lugato, após a solenidade de inauguração.

Novas estruturas náuticas na cidade de Pereira Barreto. Foto: Victor Santos/Revista Náutica

Assim como fizera em Pereira Barreto e em Três Fronteiras, Roberto de Lucena assinou um convênio transferindo a operação da estrutura náutica da Secretaria de Turismo para a prefeitura dos respectivos municípios.

 

A entrega das estruturas náuticas é resultado de um plano de desenvolvimento de grande impacto com investimento total de R$ 30 milhões para 13 municípios do interior paulista: Avaré, Fartura, Pederneiras, Piraju, Sales, Timburi, Mira Estrela, Presidente Epitácio e Rosana, além dos três já citados.

Novas estruturas náuticas na cidade de Três Fronteiras. Foto: Victor Santos/Revista Náutica

De acordo com o coordenador do projeto, Luís Sobrinho, da Invest/Setur-SP, no próximo mês serão entregues estruturas náuticas a quatro dessas cidades: em Avaré, Araçatuba, Timburi e Pederneiras.

 

A expectativa é que o número de turistas e excursionistas nas doces águas paulistas salte dos atuais 1,82 milhão para 6 milhões em dez anos, gerando empregos e movimentando toda cadeia, com impacto na economia de R$ 2,5 bilhões, pois o programa também é um poderoso indutor de investimentos. A inauguração das estruturas de Pereira Barretos, Três Fronteiras e Rubinéia foi apenas o pontapé inicial.

 

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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