Último navio negreiro a vir ao Brasil pode ter sido encontrado no Rio de Janeiro

Pesquisadores acreditam ter achado o navio Brigue Camargo, que transportou 500 pessoas escravizadas no século 19

07/08/2023
Foto: AfrOrigens / Reprodução

Um triste pedaço da história da escravidão pode ter sido encontrado no Rio de Janeiro, no mar de Angra dos Reis. Um grupo de pesquisadores acredita ter achado a embarcação Brigue Camargo, um navio negreiro afundado em 1852 e que transportava 500 pessoas escravizadas.

Tal embarcação foi roubada nos Estados Unidos pelo comerciante americano Nathaniel Gordon, que transportou ilegalmente centenas de africanos escravizados, partindo de Moçambique até o porto clandestino de Bracuí, localizado em Angra dos Reis, Rio de Janeiro.

As buscas pelo navio Brigue Camargo começaram no ano passado e envolvem uma equipe composta por pesquisadores do Instituto AfrOrigens, da Universidade Federal Fluminense e da Universidade Federal do Sergipe, sem contar o apoio de outras instituições dos Estados Unidos.

Yuri Sanada, co-fundador da AfrOrigens, disse ao site Hyperallergic que os pesquisadores continuam procurando mais resquícios do navio negreiro, visto que a embarcação está afundada na lama.

Nosso plano é remover a lama na próxima fase, em outubro, para vermos a maioria do que há lá embaixo — Yuri Sanada

Os possíveis destroços do naufrágio, que já foram encontrados pelos pesquisadores até este momento, foram apresentados na sede do Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, no início do mês de julho.

Importante reconhecimento

Foto: AfrOrigens/ Reprodução

Os integrantes da comunidade do Quilombo Santa Rita do Bracuí podem estar perto de descobrir o que aconteceu com os seus antepassados. Eles também fazem parte do projeto envolvendo o navio Brigue Camargo, em que seus descendentes podem ter sido levados à região.

Eles pegaram nosso povo africano do outro lado do Atlântico e trouxeram para cá, por isso estamos aqui hoje e reivindicamos essa terra como comunidade quilombola — Emerson Luiz, ao AfrOrigens

Emerson, integrante do Quilombo Santa Rita do Bracuí ainda contou que, para essa comunidade, a possível identificação do naufrágio representa um reconhecimento de muita importância na história do seu povo.

Que fim levou Nathaniel Gordon?

Ilustração da execução de Nathaniel Gordon. Foto: Cortesia da Divisão de Fotografias e Impressões, Schomburg Center for Research in Black Culture, The New York Public Library/ Reprodução

Vale lembrar que, em 1852, o tráfico escravo já era proibido nas Américas. Mas nada que impedisse que o famigerado Nathaniel Gordon, capitão estadunidense, trouxesse o navio Brigue Camargo com 500 africanos escravizados a bordo até Bracuí.

Acredita-se que o próprio Gordon incendiou e afundou o navio para fugir das autoridades brasileiras, após finalizar o transporte dos escravizados até o porto clandestino. O capitão fugiu vestido de mulher e o naufrágio segue desaparecido quase dois séculos após o acontecimento.

 

Mas a justiça chegou para Gordon, que, dez anos mais tarde, foi capturado em outra viagem escravagista, sendo preso e condenado a pena capital pelo mesmo crime. Até hoje, ele é o primeiro e único traficante de escravizados condenado à morte na história dos Estados Unidos.

 

Náutica Responde

Faça uma pergunta para a Náutica

    Relacionadas

    SailGP abre venda de ingressos para etapa no Rio de Janeiro, que acontece em abril

    Após percalços na temporada 2025, regata de alta velocidade finalmente terá disputa na América do Sul e em águas brasileiras

    "Jet" de madeira: paraense viraliza com potente moto aquática artesanal; assista!

    À NÁUTICA, construtor do "rabejet" revelou bastidores da embarcação cujos vídeos somam quase um milhão de visualizações nas redes sociais

    Náutica Responde: é necessário ter rádio VHF no barco?

    Nos termos da Lei, a resposta depende do porte da embarcação e do tipo de navegação. Na prática, todavia, o equipamento é recomendado por especialistas

    Novos olhares sobre a navegação: artista contemporâneo transforma barcos em esculturas

    Erwin Wurm usa embarcações, veículos e objetos cotidianos para discutir absurdo, forma e comportamento humano

    Estados Unidos discutem isenção de imposto sobre juros no financiamento de barcos

    Projeto federal propõe dedução de até US$ 10 mil por ano em juros de financiamento de barcos, seguindo o modelo do setor automotivo