Interiores náuticos sustentáveis: como novos materiais transformam o design de barcos

Uso de revestimentos vinílicos adesivos e práticas de economia circular ganham espaço na indústria náutica; JAQ H1 é exemplo da tendência

Por: Nicole Leslie -
23/03/2026
Foto: Uirá Dantas / Projeto JAQ Hidrogênio

A busca por soluções ambientalmente responsáveis tem impactado a indústria náutica em diferentes frentes, desde a propulsão até a materiais para acabamentos internos. Durante a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30), realizada em Belém, no Pará, o lançamento do JAQ H1 — primeiro barco-escola movido a hidrogênio do mundo — reforçou que a sustentabilidade começou a transformar o design de interiores das embarcações.

Apresentada no evento, a embarcação chamou atenção pela proposta de gerar energia limpa a partir de moléculas de hidrogênio, sem emissão direta de poluentes durante a navegação. Mas a inovação não se limitou ao sistema de propulsão: o interior do JAQ H1 também foi desenvolvido com foco na redução de impacto ambiental, substituindo parte de materiais tradicionalmente empregados no design náutico, como madeira maciça, pedras e laminados.

JAQ H1. Foto: Victor Santos / Revista Náutica

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, a economia circular é um dos pilares das estratégias nacionais para reduzir impactos ambientais, ao priorizar o reaproveitamento de insumos e a diminuição de resíduos. O conceito vem sendo incorporado gradualmente por diferentes setores industriais — e tem ganhado espaço inclusive na indústria náutica.

Foto: Alltak

No JAQ H1, parte da madeira natural prevista para o interior do barco-escola foi substituída por Revestimento Vinílico Adesivo (RVA), em um material que reproduz texturas e padrões da madeira. No ambiente marítimo, esse tipo de solução ainda representa redução de peso, aplicação mais ágil e facilidade de manutenção — o que é relevante tanto para embarcações de serviço quanto de lazer.

Revestimento Vinílico Adesivo da Alltak substituiu madeira em alguns ambientes do JAQ H1. Foto: Alltak

Cerca de 300 m² de superfícies internas foram envelopadas com RVA fornecido pela Alltak, empresa brasileira do segmento de revestimentos vinílicos autoadesivos. O material foi aplicado em tetos, paredes, portas, móveis e no painel de comando da embarcação, em um processo executado por apenas dois profissionais ao longo de dez dias.

 

Os revestimentos vinílicos adesivos que imitam textura de madeira utilizados no JAQ H1 foram da linha Decor Freijó Astúrias. Além dele, também foram aplicados o Kroma Forma Falésia, o Decor Tramatto Bege, o Laka Acetinado Preto Modena e o Brushed Black em diferentes ambientes do barco-escola.

Foto: Uirá Dantas / Projeto JAQ Hidrogênio

Também com viés sustentável, a fabricante mantém uma usina própria de reciclagem voltada ao reaproveitamento de resíduos gerados na produção. O resultado? Mais de 1.800 toneladas de insumos poupados da natureza a cada ano. O material recuperado retorna como matéria-prima em um modelo específico de revestimento.

Foto: Uirá Dantas / Projeto JAQ Hidrogênio

Outro ponto que a Alltak destaca é o uso de tecnologias à base d’água em parte da produção, que reduz a emissão de compostos orgânicos voláteis durante o processo industrial. Embora não eliminem completamente os impactos ambientais associados a materiais sintéticos, medidas desse tipo indicam uma adaptação às exigências regulatórias e às novas demandas do mercado.


No setor náutico, a adoção de RVAs também permite renovar a estética de ambientes sem a substituição estrutural de mobiliário, o que pode prolongar a vida útil dos interiores e reduzir o descarte — além de ser bastante útil em refits e modernizações.

Foto: Alltak

Se antes a inovação sustentável na indústria náutica era limitada aos motores e sistemas energéticos, agora ela começa a alcançar o design interior de embarcações. Assim a transformação passa a unir estética, desempenho e ciclo de vida dos materiais.

 

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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