Carnaval alemão: há 90 anos foliões personalizam barris para descer riacho em “barcos” divertidos

19/02/2026

Se engana quem pensa que a celebração do Carnaval é restrita ao Brasil — embora, por aqui, ela seja mundialmente reconhecida. A festa se estende para partes do mundo todo, cada qual a sua maneira. Na Alemanha, por exemplo, um dos pontos altos é o Da‑Bach‑Na‑Fahrt, em que barris viram barcos divertidos, personalizados pelos próprios participantes, para descer — ou tentar descer — um riacho cercado por uma multidão.

A disputa, que acontece sempre na segunda-feira de Carnaval, neste ano completou 90 anos de tradição sobre as águas do riacho Kirchenbach, na cidade de Schramberg, sudoeste da Alemanha. Por lá, cerca de 40 barris de madeira decorados, chamados de Zuber, percorrem 500 metros entre trechos desafiadores, de largura e altura limitadas. Veja:

 

 

Na prática, o que se vê são embarcações que vão desde a Peppa Pig até uma nave de Star Wars descendo desenfreadas uma corredeira, enquanto seus pilotos (geralmente duplas e também customizadas) tentam concluir o trajeto sem cair nas águas congelantes do pico do inverno alemão.

Foto: Instagram @schrambergimschwarzwald / @dbnf_official / @sptmbr_designagentur / Reprodução
Foto: Da-Bach-Na-Fahrer Schramberg / Kasenbacher Online / Divulgação

Carnaval da Alemanha: o público faz parte da festa

Carnaval, sem público, não é Carnaval — e isso, sim, parece não mudar, independentemente da coordenada. No Da‑Bach‑Na‑Fahrt, arquibancadas são montadas ao longo do riacho, com lugares disputadíssimos.

Foto: Annette Kasenbacher / Wikimedia Commons / Reprodução

Torcer, porém, não basta. É necessário participar de forma ainda mais ativa, com direito a um “vocabulário” específico, quase como um manual de sobrevivência para quem vai assistir a disputa. Funciona como um jogo de grito e resposta: o piloto grita uma palavra e o público responde com outra, tal como um “código social” da festa — e se você não souber responder, facilmente será notado como um turista perdido.

Foto: Instagram @schrambergimschwarzwald / @dbnf_official / @sptmbr_designagentur / Reprodução

O dialeto carrega o típico humor alemão e é bastante específico:

  • Kanal – voll (canal — cheio): “Kanal” (canal) grita o condutor — “Voll” (cheio) grita o espectador. O evento brinca dizendo que a expressão não se refere ao estado de alguns espectadores depois de horas em pé no frio e do consequente consumo de Glühwein (vinho quente), mas sim ao nível da água do riacho.
  • Batsch – nass (patsch — molhado/encharcado): “Batsch” (patsch) grita o condutor — “Nass” (molhado) o espectador. O grito se refere ou ao espectador (quando está chovendo ou quando alguém cai acidentalmente na água) ou, mais comumente, ao próprio condutor que caiu no riacho.
  • Furz – trocken (peido — seco): Aqui a referência é ao condutor seco — que gera um certo desgosto nos espectadores.

Além desses dialetos, para aqueles que não querem ou não conseguem aprender os “gritos de guerra”, existe o clássico “Narri-Narro”, uma saudação carnavalesca tradicional e considerada a mais “entediante”.


Um trabalho sério, feito em muitas mãos

O Da‑Bach‑Na‑Fahrt é uma disputa divertida e de tradição que anima carnavais desde 1936. Para tudo isso dar certo, três semanas antes da tão esperada descida do riacho os 40 barris são distribuídos aos participantes através de um sorteio. Esse é o tempo que os concorrentes têm para personalizar o barco. Vale usar e abusar da criatividade, sem esquecer de algumas regras: não é permitido furar ou danificar o Zuber, bem como usar substâncias que poluam a água.

Foto: Instagram @schrambergimschwarzwald / @dbnf_official / @sptmbr_designagentur / Reprodução

Na noite anterior ao evento, os participantes de primeira viagem são “batizados” em uma cerimônia solene. Eles chegam a receber um nome de batismo e, em seguida, são autorizados a “aproveitar” sua primeira e curta viagem pelas águas frias do riacho. Já quando chega a tão esperada segunda-feira de Carnaval, ainda pela manhã, as embarcações decoradas desfilam pelo centro de Schramberg até a Ponte Nova, animando o púbico para a Da-Bach-Na-Fahrt.

Foto: Da-Bach-Na-Fahrer Schramberg / Divulgação

Às 13h, um tiro — de verdade — dá a largada para a descida pelo rio, que é acompanhada por cerca de 30 mil espectadores. Não bastassem os desafios do percurso, as equipes ainda enfrentam esforço físico para levar as embarcações até a água. Mas tudo promete valer a pena, já que, ao final, os participantes podem tomar um banho quente — ou, se permanecerem secos, beber vinho quente.

 

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