Conheça Gribshunden, o “castelo flutuante” que pertencia a um rei da Dinamarca

Navio naufragou no final do século 15, interrompendo o plano mais importante do monarca

24/02/2025
Foto: Blekinge Museum/ Divulgação

Certo dia, Brendan Foley, arqueólogo marinho e pesquisador da Universidade de Lund, na Suécia, encontrou uma caneca presa sob um emaranhado de pedaços de madeira, a cerca de 9 metros da superfície fria e turva do Mar Báltico.

Enquanto o analisava, ele notou que o objeto liberava bolhas de gás, que poderiam ser resultado de algum processo químico — envolvendo resquícios de cerveja ou hidromel, por exemplo — iniciado há mais de 500 anos.

Foto: Brett Seymou/ Universidade de Lund/ Divulgação

Mas essa seria apenas a primeira pista de que Foley estava muito perto de um verdadeiro tesouro submerso. Aqueles pedaços de madeira eram, na verdade, destroços do Gribshunden, navio pessoal do Rei Hans, que governou a Dinamarca e a Noruega entre 1455 e 1513.

 

De acordo com registros da época, essa histórica embarcação, apelidada de “castelo flutuante”, afundou por volta de 1495, enquanto estava ancorada — o monarca não estava presente. Acredita-se, ainda, que a causa do naufrágio foi uma explosão de pólvora.

A caneca deve ter sido derrubada, por um dos tripulantes, no momento em que o navio explodiu. Poder tocar algo assim é como uma conexão direta com essas pessoas– Brendan Foley

Um naufrágio real

Mais de 500 anos atrás, uma caneca como aquela não era vista em qualquer lugar, muito menos com cerveja ou hidromel. Logo, o pesquisador desconfiou que aquele navio pertencia a uma família bem rica, que tinha acesso a produtos que, no século 15, muitos não tinham. Ele não poderia estar mais certo.

Foto: Brett Seymou/ Universidade de Lund/ Divulgação

Pouco antes da explosão, o Rei Hans embarcaria no Gribshunden e navegaria rumo a uma reunião política em Kalmar, na Suécia. A intenção era finalmente tirar do papel o plano de unificar os países sob sua coroa — o que nunca aconteceu.

Hans usou esse [navio] como uma fortaleza militar, mas também como centro administrativo, centro cultural e base para políticas econômicas– Brendan Foley

Semelhante aos barcos grandiosos e fortemente armados que Vasco da Gama usou para chegar à Índia e que Cristóvão Colombo usou para chegar às Américas, o Gribshunden representa a primeira geração de navios de artilharia naval. Essas “fortalezas” foram fundamentais para as longas viagens de exploração e colonização capitaneadas pelos europeus.

Naufrágios são como chamadas telefônicas, carregadas de informações– Foley

Um museu debaixo d’água

Um achado assim, é claro, não decepcionaria os especialistas no quesito artefatos históricos. Entre os principais até o momento, destacam-se itens que provavelmente eram usados pelos soldados a bordo, como bestas de madeira intactas e armas de fogo que, inclusive, marcam o início da transição para armamentos com funcionamento a base de pólvora.

Foto: Brett Seymou/ Universidade de Lund/ Divulgação

No “castelo flutuante”, também foram encontrados uma bolsa de moedas de prata, que reflete o enfraquecimento da troca de produtos e serviços (escambo), e temperos como cravo, pimenta-do-reino, pedaços de gengibre e pedaços de açafrão, que teriam sido importados da Indonésia especialmente para dar sabor aos banquetes da realeza.

Encontramos coisas nesse navio que não têm precedentes arqueológicos. Tudo sobre ele é fascinante– Foley

Ah, e a caneca mencionada lá no início mostrou-se ainda mais singular. Feita de madeira de amieiro, ela tem uma coroa esculpida perto da base e, segundo os envolvidos na pesquisa, seu design é diferente de qualquer outra feita na época.

Foto: Brett Seymou/ Universidade de Lund/ Divulgação

É importante pontuar que o Gribshunden já havia sido encontrado, no início dos anos 1970, por mergulhadores locais. No entanto, a embarcação não recebeu a devida atenção até 2018, com os trabalhos liderados por Foley.

 

Até o momento, aliás, no máximo 2% do navio foram explorados. Porém, de acordo com o arqueólogo, as descobertas já feitas são o suficiente para manter ele e o restante da equipe ocupados por anos.

 

Por Áleff Willian, sob supervisão da jornalista Denise de Almeida

 

Náutica Responde

Faça uma pergunta para a Náutica

    Relacionadas

    St. Barts: o "clube dos bilionários" onde os megaiates dominam o metro quadrado mais caro do Caribe

    Ilha que pertence à França é sinônimo de luxo, privacidade e cultura náutica; local recebeu diversas estrelas e mais de 226 iates no Réveillon

    SailGP: time brasileiro compete na Austrália antes de etapa inédita no Rio

    Terceira fase da competição ocorre nos dias 28 de fevereiro e 1ª de março, em Sydney. Equipe acumula expectativas para competir em casa, em abril

    Schaefer Yachts terá duas lanchas estreantes no Rio Boat Show 2026

    Estaleiro aposta em 8 modelos para surpreender no evento que acontece de 11 a 19 de abril, na Marina da Glória. NÁUTICA testou a maioria; confira!

    Um país náutico: Brasil se aproxima de 1 milhão de embarcações registradas

    De acordo com relatório anual da Marinha do Brasil, o país acumula mais de 990 mil barcos inscritos oficialmente

    Aleixo Belov retorna a Salvador em nova volta ao mundo histórica neste sábado (28)

    Aos 83 anos, comandante completará 6ª circum-navegação após conquistar a temida Passagem Nordeste a bordo do veleiro-escola Fraternidade