Hidrogênio é o futuro dos barcos? Itaipu Parquetec avalia

14/05/2025

O termo “hidrogênio verde” está em alta. O Brasil, inclusive, é pioneiro no assunto quando o tema envolve barcos — não à toa. Em novembro, será apresentado na COP30 o projeto brasileiro JAQ, iniciativa encabeçada pelo Grupo Náutica e pela Itaipu Parquetec para desenvolver barcos movidos a hidrogênio verde. Mas, afinal, o hidrogênio é o futuro da navegação?

O tema foi discutido pelo professor Irineu Colombo, diretor-superintendente da Itaipu Parquetec, ao lado de Daniel Cantane, gerente do Centro Hidrogênio Verde Itaipu Parquetec, em entrevista a Marcio Dottori, no Estúdio Náutica.

 

Está todo mundo atrás do desenvolvimento tecnológico do hidrogênio. Na questão dos barcos, juntos com a NÁUTICA, somos pioneiros– revelou Colombo

Antes de mergulhar nesse papo que envolve um futuro cada vez mais exigido pelo presente, vale entender por que a dupla tem propriedade para falar do assunto.

O que é o Itaipu Parquetec

O Itaipu Parquetec, do qual Colombo e Cantane fazem parte, é o braço tecnológico da Itaipu Binacional, que, por sua vez, destaca-se como a terceira maior usina hidrelétrica do mundo, localizada na fronteira entre Brasil e Paraguai. Inclusive, como o “binacional” sugere, trata-se de uma empresa regida por dois governos — no caso, brasileiro e paraguaio.

Foto: Turismo Itaipu / Divulgação

A usina gera energia limpa e renovável a partir dos recursos hídricos do rio Paraná, sendo uma importante fonte de energia para ambos os países. “É a maior geradora de energia limpa do mundo”, afirmou o professor Colombo.

 

O Itaipu Parquetec é um parque tecnológico instituído em 2003, para fomentar novas tecnologias e apresentar soluções tanto para a própria Itaipu Binacional quanto para outras empresas — como é o caso da JAQ Hidrogênio Verde, divisão do Grupo Náutica.


Trata-se, como define Colombo, de um ambiente de inovação com universidade, pesquisadores e centros de inovação, como o Centro Hidrogênio Verde Itaipu Parquetec, gerido por Daniel Cantane.

Nós desenvolvemos soluções, criamos novas empresas, apresentamos vários projetos– explica Colombo

O hidrogênio é o futuro dos barcos?

Cantane detalha que o hidrogênio é um vetor energético versátil, porque pode ser utilizado tanto diretamente como um combustível, quanto como um insumo para a produção de outros da indústria química.

Ele pode produzir desde outros tipos de combustíveis até a produção de plástico, fertilizante, aço e outros elementos– explica Cantane

Quando o assunto é o uso do elemento em barcos, Daniel conta que o hidrogênio tem a possibilidade de atuar como combustível para alimentar geradores, para o funcionamento da hotelaria da embarcação e toda sua parte de navegabilidade, e também diretamente nos propulsores do barco.

 

Colombo complementa explicando que, em cerca de quatro anos, os barcos navegarão sem o barulho dos motores a combustão, graças à propulsão elétrica movida por células a combustível. Nesse sistema, o hidrogênio é processado dentro da célula, que separa os elétrons e gera energia para movimentar o motor elétrico, liberando apenas vapor d’água como subproduto.

Esse é o nosso sonho. Realizaremos diversos testes tecnológicos e teremos custos — por isso, buscamos parceiros que queiram embarcar conosco nessa jornada de inovação– ressalta o professor

O Projeto JAQ

A primeira embarcação movida a hidrogênio verde do Projeto JAQ, que será apresentada na COP30, contará com um sistema híbrido, que combina óleo diesel com a injeção de hidrogênio, conforme detalha Colombo.

 

Com essa tecnologia, o impacto ambiental será drasticamente reduzido: “estimamos uma emissão de apenas 3% a 7%, em comparação aos 100% gerados pelo uso exclusivo do diesel”.

Explorer H1, uma das embarcações do Projeto JAQ. Foto: Divulgação

O resíduo gerado pelo sistema é apenas água, o que contribui para a preservação dos corais e oferece ganhos ambientais significativos. Para Cantane, experimentos tecnológicos como o Projeto JAQ têm como resultado direto ou indireto novas possibilidades.

Você pode usar parte desse know-how das tecnologias embarcadas para explorar plataformas de petróleo, por exemplo, como a energia eólica offshore– ressalta

“Com certeza o resultado desse projeto vai trazer novas possibilidades, não só na embarcação, mas fora dali”, complementa. Para Colombo, as alternativas incluem usos na indústria química e automobilística, desde carros até caminhões.

Nosso objetivo é chamar a atenção de governos e empresas para o potencial desse projeto. Queremos atrair investimentos que tornem essa iniciativa viável e lucrativa– aponta o professor

Liderado pelo Itaipu Parquetec, referência na produção de combustível sustentável no Brasil, e coordenado por Colombo, o Projeto JAQ conta com a parceria da JAQ Hidrogênio Verde, divisão do Grupo Náutica, e envolve duas embarcações: Explorer H1 e Explorer H2. O projeto conta ainda com o apoio da GWM, empresa chinesa que está fornecendo toda a sua tecnologia para o desenvolvimento do hidrogênio verde.

 

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    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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