i9 Vela transforma a vida de jovens de Salvador por meio da náutica

08/11/2024

A Associação i9 Vela – Náutica Solidária existe, ao menos nos moldes atuais, há cerca de três anos. A ideia, porém, surgiu há mais de 15. Mas a vontade de fazer mais pelo próximo está no peito de seu fundador, Juan Sobral, desde a infância. É o que ele contou à Revista Náutica durante o Salvador Boat Show.

A iniciativa ensina aos visitantes conceitos básicos da vela e até a como montar um veleiro, numa ação batizada de Clínica Básica de Vela — apenas uma das muitas frentes atuantes da Associação. “É uma espécie de guarda-chuva”, como define Sobral.

Foto: Gabriel Alencar/ Revista Náutica

Debaixo desse guarda-chuva existem diversos projetos sociais– conta

O principal deles é chamado de Odisseia. Uma vez por mês, a associação coloca um de seus 10 veleiros em uma “carretinha” e o reboca até uma das comunidades de Salvador. “Geralmente as mais precárias, que a gente acredita que as pessoas têm mais necessidade desse tipo de ação”, explica Juan.

Foto: Gabriel Alencar/ Revista Náutica

A partir daí, o horizonte ganha novas cores, o mar recebe novos apaixonados e a vela vira ferramenta de transformação 100% gratuita. “O critério é só morar em uma comunidade e ser aluno matriculado numa escola pública”, conta Juan.

 

“Num sábado pela manhã, a gente faz uma Clínica de Vela. Eu faço uma demonstração da teoria, focada nas crianças entre 10 e 16 anos. Elas aprendem sobre as partes do barco, como se usa um colete. Sobem, sentam, mexem e aprendem para que serve cada partezinha”, detalha o idealizador da iniciativa.

Foto: Gabriel Alencar/ Revista Náutica

As crianças que demonstram interesse pela vela têm seus pais convocados pela associação, que combina com os responsáveis a programação: levar as crianças, no dia seguinte, para a praia, na base da iniciativa, no bairro do Ribeira.

Foto: Gabriel Alencar/ Revista Náutica

“No Ribeira a gente faz a aula de vela prática no domingo, o dia todo. Quem gostar e quiser continuar no curso, vai voltando”, conta sobral. Os jovens passam por treinamento de segurança, de conhecimento da náutica e aprendem a nadar de colete.

Você vai ver na praia 10 barcos como esse com jovens velejando sozinhos– ressalta Sobral

“O pessoal na praia agora já sabe, mas no começo era um desespero. Chamaram até o helicóptero dos bombeiros uma vez”, brinca o fundador da Associação.

Foto: i9 Vela / Divulgação

Um verdadeiro “guarda-chuva” de projetos sociais

O projeto Odisseia é o carro-chefe da Associação i9 Vela, mas nem de longe o único. Enquanto nele os jovens ganham uma oportunidade de lazer, na Oficina Náutica, outra frente da iniciativa, os participantes garantem capacitação — que inclusive pode virar uma futura profissão.

Foto: i9 Vela / Divulgação

Através do projeto, os jovens aprendem como executar a manutenção de um veleiro nos próprios barcos da Associação, que “vira e mexe” recebem uma pancada ou outra, como conta Juan.

Eles aprendem a laminar com fibra de vidro. Estamos criando uma oficina onde eles vão aprender a fabricar o mastro, o leme, a bolina. Vão aprender a montar um barco– explica Juan

Já o i9 Foto, outra iniciativa da Associação, leva um profissional da área de cinema e da fotografia, com equipamento profissional e semiprofissional, para ensinar aos jovens como manusear o material.

Eles aprendem sobre tempo de exposição, obturação, luz, sombra, ISO– conta Sobral

O i9 Cabeças, por sua vez, leva psicólogas e terapeutas voluntários para atenderem os jovens do projeto de forma gratuita. “A cada 15 dias elas fazem atendimentos presenciais e em grupo. Durante a semana, fazem alguns atendimentos online.”

Paixão que vem desde a infância

A relação de Juan com o mar começou quando ele tinha ainda seis anos de idade, ao passar as férias na casa da avó, que era marisqueira. “Eu sempre via os pescadores velejando com as canoas daqui da Baía de Todos-os-Santos, que são um pouquinho diferentes das outras”.

 

“Eu via aqueles panos coloridos lindos e os caras se equilibrando numa ‘tora’ de madeira. Para mim era como se fosse uma mágica. Como eles ficavam de pé numa ‘casquinha’ daquela, com uma vela gigantesca? Isso sempre me encantou”, relembra.


A paixão se estendeu junto com o passar dos anos. Aos 17, já na faculdade, ele se deparou com o veleiro que até hoje é seu companheiro. “Eu vi esse barco na calçada, na frente de uma loja. Desci do ônibus desesperado porque eu nunca tinha visto um barco assim e era o que eu queria para mim. Falei que queria comprar só que não tinha o dinheiro”.

O cara dividiu em ‘trocentas’ milhões de vezes o barco. Para ele foi um péssimo do negócio, mas para mim foi ótimo– brinca Juan

“Só pude pegar o barco depois que eu quitei. São já 26 anos desse barquinho comigo. São 26 anos de vela. Ele [o barco] já tinha 20 anos. Deve ter uns 46 anos esse barco, foi um dos primeiros dingues fabricados”.

Ajude a i9 Vela

Atualmente a Associação i9 Vela está em busca de patrocinadores para ajudarem a manter e a expandir o projeto. Se você quer ser um deles, entre em contato com o Juan através do telefone (71) 99178-1441, ou pelo e-mail [email protected].

1º Salvador Boat Show

O Salvador Boat Show chega em grande estilo, com 100% de seus expositores sobre as águas da Bahia Marina, na inconfundível Baía de Todos-os-Santos. Embarcações de diversos modelos, motores, equipamentos, acessórios e serviços ligados ao setor estão na capital baiana.

Foto: Victor Santos / Revista Náutica

Visitantes tem a sensação genuína de imergir no universo náutico visitando estandes flutuantes, conferindo barcos lado a lado, em um cenário mais que convidativo para uma vida no mar. Já consagrado como o maior salão náutico do Nordeste, o evento ainda apresenta experiências exclusivas e um mar de oportunidades.

 

Anote aí!

1º SALVADOR BOAT SHOW

Quando: De 6 a 10 de novembro de 2024
Horário: Das 14h às 21h
Onde: Bahia Marina (Av. Lafayete Coutinho, 1010, Salvador – BA)
Ingressos: site oficial de vendas
Mais informações: 
site oficial do evento

 

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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