“Frustração”: Martine Grael lamenta cancelamento de etapa brasileira do SailGP

Por: Nicole Leslie -
10/04/2025

Martine Grael, capitã do veleiro Mubadala Brazil SailGP Team, que compete no SailGP, lamentou o cancelamento do Rio SailGP, que aconteceria nos próximos dias 3 e 4 de maio. A decisão foi tomada pela organização do evento após identificarem um defeito nas Velas Asas (wingsails) dos catamarãs F50 que sofreram um acidente recentemente.

Fica um sentimento de frustração, principalmente porque estávamos muito empolgados para correr em casa e dar continuidade à evolução que vínhamos construindo como equipe — Martine Grael, capitã do time brasileiro no SailGP

Apesar da frustração, Grael reconhece a importância da decisão, que busca conseguir tempo para revisar e adequar os veleiros do campeonato antes da próxima etapa, em Nova York, marcada para o mês de junho.

Martine Grael comanda o veleiro Mudabala Brazil no SailGP
Foto: AT Films / Divulgação

Nesse momento, a prioridade precisa ser a segurança– destacou Martine

“Sabemos que ainda temos outras etapas importantes pela frente e o foco agora é seguir trabalhando duro para manter o ritmo de crescimento”, completou a atleta que, na estreia do Brasil na competição, sagrou-se como a primeira mulher a assumir o posto de capitã na história da disputa.

"Agora, quero transformar essa energia em motivação para as próximas disputas", revela Grael
Foto: SailGP / Divulgação

Esperançosa, Martine relembra que ela e outros colegas de competição estavam animados com a etapa do campeonato na “Cidade Maravilhosa”. Agora, ela busca “transformar essa energia em motivação” para as próximas etapas.


O cancelamento do Rio SailGP foi oficializado nesta quarta-feira (9), menos de um mês antes da data prevista. O acidente que motivou a pesquisa na estrutura dos veleiros aconteceu na etapa de San Francisco, nos Estados Unidos, no último dia 23.

 

Na ocasião, a vela da equipe australiana se rompeu logo após a largada e quase atingiu outras tripulações. No momento do acidente, a Baía de San Francisco registrava ventos de 10 a 15 nós e a causa do impasse envolvendo a estrutura do veleiro ainda é desconhecida.

Vela de barco australiano quebrou na etapa de San Francisco do SailGP, em 23 de março. Foto: Simon Bruty / SailGP / Divulgação

No entanto, foi constatado que o colapso aconteceu logo após uma manobra abrupta feita pela equipe australiana, que tentou evitar uma colisão com e equipe italiana. Por acontecer em alto-mar e em alta velocidade, o susto foi grande — apesar de ninguém ter sido ferido.

 

De acordo com a política do SailGP, todos os portadores de ingressos serão reembolsados integralmente nos próximos dias, enquanto o campeonato avalia possíveis opções para remarcar o evento de 2025 do Rio de Janeiro.

 

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

      Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

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