Nova técnica com pistola de ar comprimido pode revolucionar combate a coral invasor no Brasil
Estudo mostra que novo método elimina tecido do coral-sol sem risco de regeneração. Tecnologia pode facilitar controle em marinas, cascos e áreas protegidas


Controlar o avanço do coral-sol invasor sempre foi uma corrida contra o tempo e contra a própria natureza resiliente da espécie. Agora, um novo estudo brasileiro aponta para uma virada nesse cenário, baseado em uma solução simples que se mostrou comprovadamente eficaz para combater esse tipo de coral: o uso de pistolas de ar comprimido debaixo d’água.
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A técnica, testada por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostrou ser capaz de remover praticamente todo o tecido vivo do coral sem precisar arrancá-lo da rocha. Na prática, a estrutura calcária do coral-sol permanece onde já estava, mas o tecido mole que dá vida ao invasor é desprendido da “base” e não consegue voltar à vida, nem que se prenda a outra estrutura.
Invasor se multiplica com facilidade
Originário de outras regiões do planeta, o coral-sol (Tubastraea spp) se espalhou pelo litoral brasileiro desde a década de 1980 e hoje representa uma ameaça concreta à biodiversidade marinha. Esse fator foi o que incentivou pesquisadores brasileiros a buscarem uma forma eficaz e viável de controlar esse tipo de coral, que cresce aos montes.


Altamente agressivo, ele compete com espécies nativas, altera o equilíbrio dos ecossistemas e tem uma característica que dificulta ainda mais seu controle: a capacidade de regeneração. Em outras palavras, um pequeno fragmento de coral-sol é suficiente para dar origem a uma nova colônia inteira.
De acordo com o novo estudo, publicado em abril na revista científica Ecological Solutions and Evidence, o controle desse coral invasor é feito, tradicionalmente, por remoção manual, com uso de martelo e ponteira.


O problema é que, ao quebrar o coral, fragmentos acabam se espalhando pela água, criando novos focos da espécie. Além disso, ainda é um método exaustivo, demorado e cujo processo exige uma logística complexa, que inclui a retirada dos resíduos do fundo do mar que, em muitos casos, alcançam áreas de mais difícil acesso, como fendas e outras estruturas submersas.
Problema no mar, solução no ar
O novo método desenvolvido pelos pesquisadores brasileiros propõe uma abordagem diferente para controlar o coral-sol. Em vez de retirar o coral por inteiro, o objetivo é eliminar seu tecido vivo, ou seja, aquilo que, na prática, o torna uma ameaça.


A solução foi encontrada na forma de uma pistola de ar comprimido acoplada a um regulador de mergulho. Os pesquisadores aplicaram jatos diretamente sobre as colônias de coral-sol e a alta pressão removeu o tecido mole deles, deixando apenas o esqueleto calcário preso à rocha, conforme explicou Guilherme Pereira-Filho, pesquisador e coautor do estudo. E é justamente aí que está o avanço.
Sem o tecido, o coral não sobrevive. O esqueleto remanescente, por sua vez, passa a ser ocupado por algas e outros organismos.


Pistola de ar comprimido: solução eficaz que não volta atrás
Uma das principais preocupações dos cientistas era o risco de o tecido liberado na água gerar novas colônias de coral-sol, o que tornaria o método inviável. Os testes em laboratório, no entanto, puseram fim a essa preocupação.
Pereira-Filho afirma que o tecido destacado do esqueleto do coral não é capaz de voltar a sobreviver em outra superfície, e nem dar início a um novo coral. Segundo o estudo, o material disperso apresenta capacidade regenerativa insignificante, o que reduz drasticamente o risco de propagação acidental — que é um dos principais problemas das técnicas atuais.
Menos impacto e mais eficiência no manejo
Além de evitar a dispersão de fragmentos, o método também resolve a questão do descarte dos materiais removidos. Isso porque, enquanto o método de remoção manual necessita que os resíduos sejam coletados e descartados fora d’água para evitar uma nova leva de corais-sol, o jateamento com pistola de ar comprimido mantém a estrutura no local e, o que sai dela, não apresenta risco de gerar novas colônias.
Assim, diferente da remoção manual, não há necessidade de recolher grandes volumes de material do fundo do mar. Os testes de campo feitos na pesquisa analisaram que, após 180 dias, as colônias tratadas com pistola de ar comprimido apresentaram redução significativa no número de pólipos e na área total, enquanto corais não tratados continuaram crescendo. O estudo foi realizado no Arquipélago de Alcatrazes, no litoral de São Paulo.


Além disso, a pesquisa aponta que cascos de embarcações, píeres, marinas e até plataformas de petróleo funcionam como vetores para a espécie invasora de coral, uma vez que facilitam seu transporte entre diferentes regiões. A solução do jateamento a partir de pistolas de ar comprimido serve, também, para realizar a limpeza nessas estruturas artificiais.
Nesse contexto, o uso do ar comprimido se revelou também uma alternativa prática, com potencial de aplicação rápida e menor impacto ambiental para estas situações também.
Próximo passo: ampliar a escala
Até agora, os testes foram feitos em escala controlada, mas os pesquisadores já pensam em expandir a técnica, que se provou eficaz, para uma escala maior. A ideia é que o próximo passo seja realizar a limpeza do coral invasor em áreas maiores de conservação ou até ilhas inteiras — o que pode representar um avanço significativo no controle do coral-sol no Brasil.
Ideias relativamente simples podem gerar soluções com grande potencial de benefício– resumiu Pereira-Filho


Se os resultados se confirmarem em larga escala, a pistola de ar comprimido pode avançar de uma ferramenta experimental para uma aliada estratégica na proteção dos ecossistemas marinhos. A descoberta da nova tecnologia, inclusive, é motivo de orgulho entre os pesquisadores.
Transformar conhecimento ecológico em soluções concretas é uma das formas mais importantes de devolver à sociedade o investimento feito na ciência– disse Pereira-Filho à NÁUTICA
O coordenador do Laboratório de Ecologia e Conservação Marinha da Unifesp ainda relembrou que nem sempre as ideias científicas funcionam de imediato, pois muitas vezes exigem anos de pesquisa até que algo novo possa ser considerado seguro. “Esse trabalho é um exemplo de como a ciência produzida nas universidades pode dialogar diretamente com desafios reais e urgentes”, finalizou.
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