Navegar para descobrir: oportunidades para o turismo náutico no Brasil

Especialista no tema, Bianca Colepicolo analisa obstáculos para setor e propõe soluções para crescimento da área

20/01/2025
Angra dos Reis, Rio de Janeiro. Foto: petero31/ Envato

Imagine navegar pelo mundo, explorando diferentes culturas, paisagens e desafios. Parece um sonho distante? Não para milhares de pessoas que, neste exato momento, estão cruzando oceanos a bordo de seus veleiros. O conceito de circum-navegação — dar a volta ao mundo navegando — é mais do que um desafio; é um estilo de vida e uma forma de turismo em crescimento.

Famílias, amigos, casais e até velejadores solitários escolhem essa jornada, que combina a emoção da aventura com a imersão cultural. Esses viajantes fazem paradas estratégicas para reabastecer suas embarcações, realizar manutenções e, claro, conhecer profundamente os locais por onde passam.

Foto: nblxer/ Envato

Trata-se de um perfil de turista que valoriza experiências autênticas, contribuindo para o desenvolvimento sustentável das comunidades que visitam. Logo, o turismo náutico é fomentado — embora precise de mais oportunidades.

A costa brasileira: potencial e obstáculos

Com 8.500 quilômetros de litoral, o Brasil tem um imenso potencial para atrair navegadores do mundo todo. No entanto, algumas barreiras dificultam a plena realização desse potencial.

Rio de Janeiro. Foto: YuriArcursPeopleimages/ Reprodução

Por exemplo, enquanto muitos países oferecem estadias prolongadas para turistas náuticos, o Brasil limita o visto a 90 dias, insuficientes para quem percorre distâncias no ritmo de um veleiro. Uma extensão para 270 dias seria mais compatível com o tempo necessário para explorar nossa costa.

Além disso, a infraestrutura náutica do Brasil ainda precisa avançar. Marinas públicas — verdadeiros “hotéis para barcos” com segurança, água doce e energia elétrica — são raras.

Marina Itajaí, durante o Marina Itajaí Boat Show. Foto: Revista Náutica

A ausência de locais adequados para pernoite segura muitas vezes força os navegadores a ancorar em condições precárias ou a buscar alternativas em outros países.

 

A burocracia também é um desafio. Para entrar no Brasil por mar, é necessário passar por três órgãos distintos — Marinha, Polícia Federal e Receita Federal — cada um com processos próprios.

Foto: Agência Marinha / Divulgação

Embora iniciativas como o SAC Náutico de Salvador, que unifica esses serviços em um único ponto, representem avanços importantes, o país ainda carece de oportunidades e soluções integradas e acessíveis a favor do turismo náutico, incluindo atendimento em línguas estrangeiras.

Exemplos inspiradores e ações necessárias

Histórias como a de um casal de franceses que, após velejarem pelo Brasil, retornaram em um cruzeiro e, em uma terceira visita, decidiram explorar todo o litoral, mostram o encanto que nossa costa exerce sobre quem a conhece.

Rio de Janeiro. Foto: Edovideo/ Reprodução

Entretanto, para transformar visitantes ocasionais em embaixadores de nosso turismo náutico é preciso investir em políticas e oportunidades que facilitem a chegada, permanência e circulação desses viajantes. Isso inclui:

  • Revisão das políticas de visto: ampliar a permanência permitida para velejadores;
  • Investimento em infraestrutura: construir e modernizar marinas públicas e privadas;
  • Simplificação de processos: expandir o modelo do SAC Náutico para outros portos e capacitar servidores em idiomas estrangeiros;
  • Promoção internacional: posicionar o Brasil como destino de excelência para o turismo náutico.

Oportunidade no turismo náutico para o futuro

O turismo náutico não é apenas uma oportunidade econômica, mas também uma possibilidade e meio de promover a cultura e a beleza do Brasil de forma sustentável.

 

Enquanto outros países já reconhecem o valor desses “turistas qualificados”, o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer para se tornar um destino competitivo.

Baía de Antonina, litoral do estado do Paraná. Foto: msandrioli/ Envato

Facilitar a chegada de velejadores é, acima de tudo, abrir as portas para que o mundo descubra o que o Brasil tem de melhor. Nossa costa já encanta — o desafio agora é garantir que todos queiram (e consigam) voltar.

 

Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

 

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    Quem fala pela náutica?

    Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.

     

    O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.

    Um setor que conversa consigo mesmo

    Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.

     

    Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?

     

    Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.

    [caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"] Foto: NatalieZera / Envato[/caption]

    Advocacy não é palavrão

    Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.

     

    Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.

     

    Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.

     

    Explicar para quem não navega

    O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.

     

    Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.

     

    Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.

     

    Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.

    [caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"] Foto: nd3000/ Envato[/caption]

    Náutica precisa de água limpa

    Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.

     

    É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.

     

    Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.

    O próximo passo é nosso

    Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.

     

    Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.

     

    A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.

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