Tartarugas podem ajudar a mapear fundo do oceano melhor do que imagens de satélite; entenda

18/12/2024

Sempre foi uma enorme dificuldade para os cientistas mapear o fundo do oceano. Já que a luz mal penetra em certas profundidades, realizar o estudo de ervas marinhas, por exemplo, se torna uma missão ingrata. Até que os estudiosos pensaram: “por que não usar uma tartaruga?”.

Calma, explicamos. Ervas marinhas são organismos cruciais na conservação da biodiversidade marinha, além de ajudarem na captação de carbono feita pelos oceanos — o chamado “carbono azul”. Porém, encontrá-las não é uma tarefa fácil, pois onde a maioria está localizada nem sequer as imagens de satélite alcançam.

Ervas marinhas. Foto: Creative Commons/ Reprodução

Até que veio a ideia: se há animais que vão até as ervas marinhas, por que não segui-los? Dito isso, eles rastrearam as tartarugas-marinhas por um ano, e o resultado foi surpreendente: se obteve mais assertividade com apoio delas do que com as imagens de satélite.

 

A equipe de Hugo Mann, ecologista marinho da King Abdullah University of Science and Technology, marcou 53 tartarugas-marinhas em quatro praias do Mar Vermelho, na Arábia Saudita. Uma vez que elas nadassem para longe, suas coordenadas seriam passadas para os satélites assim que os animais emergissem para respirar.

Durante o processo, os cientistas começaram a presumir algo curioso: quando o caminho de uma tartaruga se cruzava várias vezes no mesmo local, os cientistas presumiam que haviam ervas marinhas naquele local. E não é que deu certo? O estudo foi publicado no periódico Proceedings of the Royal Society B.

Certeiras e confiáveis

O resultado dessa grande ideia rendeu frutos. No total, foram 43 manchas de ervas marinhas que nunca haviam sido registradas antes. Além disso, 1/3 delas estava abaixo dos 8 metros de profundidade — a ponto de não ser identificável para a maioria das imagens de satélite.

Para checar se as tartarugas realmente estavam certas, os pesquisadores foram averiguar de perto. Assim, eles viajaram de barco para 22 dos locais identificados como novos e confirmaram ervas marinhas em todos os lugares que olharam, totalizando 14 distintas — embora algumas sejam parte de uma grande mancha.

 

Então, para fazer a comparação com o método de imagens de satélite, os pesquisadores viajaram para 30 manchas identificadas por um mapa baseado em sensoriamento remoto, chamado Allen Coral Atlas. Neste método, apenas 40% delas tinham ervas marinhas.

Além disso, os cientistas estimam que, somando todas as ervas marinhas encontradas pelas tartarugas, os locais armazenam cerca de 4 teragramas de carbono — quase equivalente ao que 900 mil veículos de passageiros emitem por ano.

Ótimo, mas não perfeito

Segundo James Fourgurean, ecologista marinho e especialista em ervas marinhas da Flórida International University — que não estava envolvido na pesquisa — , os resultados são bons, mas não infalíveis. Ele aponta que as tartarugas podem evitar algumas manchas robustas se tiver predadores por perto, por exemplo.

Algumas tartarugas podem não comer ervas marinhas, mas sim microalgas, de acordo com o especialista. Para ele, o método “não é perfeito, mas é uma ótima maneira de obter um mapa preliminar, sair e verificar o que realmente está lá” — exatamente como o grupo de Mann fez.

 

Inclusive, o local escolhido (Mar Vermelho, na Arábia Saudita) se deu justamente pela sua deficiência de dados nesta parte do oceano. Assim como outros ecossistemas aquáticos, as ervas marinhas também estão cada vez mais ameaçadas pelo desenvolvimento costeiro.

Saber onde estão esses recursos nos ajuda a protegê-los e manter os serviços que eles estão fornecendo– Hugo Mann

Mann, que já havia feito um experimento semelhante com tubarões-tigre pra descobrir o maior pedaço de ervas marinhas do mundo, visa ampliar o rastreamento de tartarugas além das linhas costeiras.

Peixe-escorpião em meio as ervas marinhas. Foto: Creative Commons/ Reprodução

Ele acredita que a técnica utilizada pode servir para países onde não há recursos suficientes para pesquisas dedicadas de ervas marinhas. O cientista ainda disse que confiar nas tartarugas pode ajudar a “progredir com a conservação desses recursos muito importantes”.

 

Por Áleff Willian, sob supervisão da jornalista Denise de Almeida

 

Náutica Responde

Faça uma pergunta para a Náutica

    Relacionadas

    ‘É um sonho’: empresária ganha primeira lancha em sorteio do São Paulo Boat Show 2026

    Conheça a ganhadora da Focker 188 Joy equipada com motor Yamaha de 90 hp

    Primeira plataforma solar offshore feita a partir do bambu fica na China

    Iniciativa busca substituir componentes poluentes, como aço e plástico, por materiais mais ambientalmente sustentáveis

    Disputa até a última regata: Brasileiro de Oceano muda sistema de pontuação

    Ideia é manter a competição aberta até a última regata. Santos-Rio abre o campeonato em 22 de outubro e não poderá ter nota descartada. Entenda!

    Orcas podem estar atacando barcos por pura diversão, aponta estudo

    Pesquisadores acompanharam o comportamento desses animais e registraram até a "entrega de presentes" à tripulação atingida

    Como deixar o barco mais confortável termicamente? Veja soluções que ajudam a controlar o calor a bordo

    Da escolha dos materiais à circulação de ar, diferentes recursos podem reduzir o calor e melhorar o conforto dentro da embarcação