Teste Real 280 Special Deck: uma lancha de sangue quente
O barco tem cockpit espaçoso, motor de popa e plataforma ao mesmo tempo; na navegação, chegou a quase 40 nós com um motor de 250 hp


Grande sucesso da Real Powerboats, a Real 280 Special Deck foi feita para quem procura uma lancha de proa aberta com motor de popa, mas sem abrir mão de ficar pertinho do mar, com a utilização do deque traseiro. A equipe de NÁUTICA fez o teste da Real 280 Special Deck nas águas da Baía de Guanabara,
Teste Real 40 Cabriolet: lancha se destaca pelo conforto no cockpit, cabine e posto de comando
Lanchas de 40 pés da Real Powerboats conquistam público
Inscreva-se no Canal Náutica no Youtube
A Real 280 Special Deck usa um truque inteligente para aproveitar melhor o espaço da popa: sobre o motor, está uma mesa de madeira desmontável (item opcional não presente na unidade testada por NÁUTICA). Há ainda uma segunda plataforma (deck beach), espécie de degrau submersível, que permite se sentar com a água na altura do umbigo.


No teste da Real 280 Special Deck, a lancha estava equipada com um motor de popa V8, 4.6 litros, Mercury de 250 hp, a gasolina, com a qual ofereceu uma navegação firme e segura, como se verá adiante. Mas há ainda as opções de 225 e 300 hp, também de popa. Com o 250 hp, navegando com quatro pessoas a bordo, a lancha parecia um foguetinho.
Mas, para quem costuma levar mais gente a bordo (10 ou mais pessoas, lembrando que o barco foi homologado para 13 passageiros + 1), o acréscimo de 50 cavalos certamente será bem-vindo.
A plataforma de popa e o motor externo convivem muito bem. Tudo foi pensado para que os passageiros possam curtir o mar na parte saliente do casco quando a lancha estiver parada. A plataforma contorna todo o motor, graças ao arranjo bem-bolado pelo projetista.
Ao mesmo tempo, desparafusando duas peças, o motor pode ser levantado por inteiro até o limite da caixa do cavalete, facilitando a vida do mecânico na hora da manutenção, ou, ainda, permitindo que o barco fique na água sem deteriorar a rabeta.
Nessa extensão natural do cockpit há uma escada de três degraus na popa, com pega-mão, estrutura aceitável para uma lancha de 28 pés, embora uma escada de quatro degraus fosse uma melhor pedida.


Na área gourmet há uma geleira boreste e uma pia com lixeira a bombordo. A churrasqueira não é fixa (deve ser armada num suporte removível), como era de se esperar num barco desse porte.
No piso (de EVA ou fibra aparente) da plataforma, o marinheiro conta com dois paióis para guardar cabos, defensas, etc., todos com acabamento em gelcoat e com dreno, o que é bem legal.


Na passagem para a área de cockpit, um degrau divide os ambientes e, ao mesmo tempo, bloqueia a entrada de água. A targa, que é recuada, faz um “boné” atrás, gerando um pequeno sombreado nessa área. O piso, característico de lanchas de proa aberta, é nivelado em todo o cockpit.




Como não há escada no meio do para-brisa, o acesso à proa é totalmente livre. Lá na frente, chamam atenção a largura dos assentos e a altura dos encostos do sofá, em V, conversível em solário, com duas curvas ergonômicas nas bases. Pega-mãos nos dois bordos oferecem maior segurança aos passageiros; e dois porta-copos (poderia ter mais dois), mais conforto.


Já na área operacional, apesar do bom comando de âncora pelo guincho elétrico (que tem trava, como pede o figurino), há um problema: se a corrente embolar no fundo da caixa, será preciso erguê-la com as mãos para liberar a tampa e abrir o paiol. A tampa não é bipartida. O estaleiro tem plenas condições de reparar essa falha.




Mesmo sendo uma lancha de proa aberta, sem cabine, a Real 280 Special Deck conta com um banheiro (instalado no lado oposto ao posto de comando), com vaso elétrico, ducha manual, pia, espelho, iluminação de led e vigia com abertura para ventilação — detalhes importantes durante os passeios com a família.




A porta de entrada, de acrílico, faz o seu papel e ainda valoriza a decoração; o único senão está na trava: uma peça de metal com canto vivo, que oferece o risco de ferir quem entra no banheiro, comprometendo a segurança.
No cockpit, cujo arranjo não foge muito do layout clássico desse tipo de lancha, o projetista tirou bom proveito de seus 2,74 metros de boca. Há um grande sofá em forma de L, a bombordo, com mesa de centro removível, e outro, reto, a boreste. Assim como na proa, os sofás têm encostos altos.


Os assentos, por sua vez, são mais curtos, truque usado para aumentar a área de circulação; mas, apesar da menor profundidade, contam com uma elevação na ponta, que os tornam mais ergonômicos. Além de confortáveis, os sofás oferecem áreas de armazenamento interno; são três paióis camuflados embaixo dos assentos; sem contar outros três paióis distribuídos sob o piso.
A bombordo, paralelo ao posto de comando, fica o banco do acompanhante. Mais atrás, sobre a amurada, há um chuveirinho de água doce.
Além disso, atrás do banco do piloto, a boreste, os ocupantes do cockpit contam com um móvel com pia, duas geleiras, porta-trecos e cristaleira. E para cobrir tudo isso, uma capota de lona bem fixada na targa, que por sua vez tem dois spots e uma faixa de led, que produzem uma iluminação confortável, quase indireta, de tão discreta e charmosa que é.






O painel do posto de comando tem um eletrônico multifuncional Raymarine Element de 7 polegadas, tamanho adequado a uma lancha deste porte. Os flapes estão bem posicionados, assim como o timão e manete do acelerador, que na unidade testada por NÁUTICA tinham comando eletrônico, opcional altamente recomendável, porque com ele o barco fica mais macio e responde muito rápido.






Seriam bem-vindos alguns ajustes, como apoio para o braço do piloto ao lado do acelerador, um lugar para apoiar o celular e uma saída USB para recarregá-lo, o que já não passa de um recurso prosaico nos barcos atuais.
O estaleiro fluminense Real Powerboats soma nada menos que 38 anos de atividades. Nesse período, produziu mais de 12 mil lanchas, conquistando a fidelidade de milhares de consumidores.
Atualmente, de sua fábrica de 36 mil m², na região metropolitana do Rio de Janeiro, saem 15 modelos, de 22 a 60 pés, incluindo a linha Luxury, de acabamento mais refinado. E não param de brotar novidades.


No recente São Paulo Boat Show, a marca anunciou o lançamento de duas novas lanchas com conceito Cabriolet (com capota de lona aberta nas laterais e recolhível na parte da frente, o que resulta em uma generosa circulação de ar pelo cockpit): a Real 34C e a Real 35. E vem aí uma lancha de fly de 53 pés.
Navegação da Real 280 Special Deck
O casco da Real 280 Special Deck tem fundo em V com ângulo de 18°, bom para navegar em águas agitadas. Com isso, antes de acelerar, a expectativa é de uma performance firme, macia e segura. E a Real 280 SD não negou fogo.
Dada a partida, ela começou a devorar milhas, como se estivesse num trilho, passando com firmeza pela ondulação espaçada da saída da Baía de Guanabara, onde foi realizado este teste, e com o trim e os flaps zerados. Uau! Você se sente no comando de um carro esportivo.


Em uma sequência de curvas, o casco se comporta muito bem, mostrando-se sempre ágil e equilibrado. A direção não é tão leve, mas firme e precisa, o que é bom com o barco em alta velocidade. Além de não deslizar, ainda andou rápido, alcançando quase 40 nós de máxima (38,2 nós).
Na aceleração, a Real 280 Special Deck precisou de pouco mais de sete segundos para ir de zero a 20 nós. E olhe que a lancha estava equipada com um motor de 250 hp. A bordo: duas pessoas, 150 litros de combustível e 50 litros de água. Nessas mesmas condições, com um motor de 300 hp, ela vai virar um foguete, mesmo carregada.


No posto de comando, há um ponto alto e um ponto baixo. Apesar de o piloto se acomodar em uma poltrona individual confortável, com assento rebatível, encosto ergonômico e apoio para os pés inclinado, a posição é baixa. Mesmo para um timoneiro com estatura acima da mediana, como esse que vos escreve (1,95 m), a visão para a proa não é boa.
A melhor forma de pilotar esse barco é com o assento rebatido (ou até em pé), mesmo o volante não sendo escamoteável.


Saiba tudo sobre a Real 280 Special Deck
Pontos altos
- Navegação ágil e firme
- Cockpit espaçoso
- Motor de popa com plataforma
Pontos baixos
- Banco do piloto baixo
- Tanque de combustível um pouco pequeno
- Trava da porta do banheiro
Características técnicas
- Comprimento: 8,47 metros
- Boca: 2,74 m
- Ângulo de V na popa: 18 graus
- Tanque de combustível: 200 litros
- Tanque de água: 50 litros
- Capacidade: 14 pessoas
- Peso com motor: 1400 kg
- Motorização: 1 popa de 225 a 300 hp


Náutica Responde
Faça uma pergunta para a Náutica
Relacionadas
Embarcação de luxo com casco planante foi construída pelo Grupo Ferretti e lançada ao mar em Ancona
Com planejamento e cooperação regional, rios do Mato Grosso do Sul abrem caminho para novos destinos náuticos e oportunidades de desenvolvimento sustentável
Maior evento náutico da Bahia movimenta a Baía de Todos-os-Santos dos dias 5 a 8 de novembro; Saiba o que esperar do salão
Salvador recebeu o 2º Fórum Náutico Internacional, realizado pela Associação Náutica da Bahia, com empresários, gestores públicos, especialistas e convidados de fora do país. A Baía de Todos-os-Santos é um dos maiores ativos náuticos do mundo, e ninguém na plateia precisava ser convencido disso. Ouvimos casos de sucesso, projetos de marinas, roteiros, regatas, oportunidades de investimento. Mas, quando chegou a minha vez de encerrar, preferi falar sobre o que ainda nos impede de transformar todo esse potencial em desenvolvimento de verdade.
O setor náutico brasileiro ainda não sabe se defender.
Um setor que conversa consigo mesmo
Somos estaleiros, marinas, garagens náuticas, clubes, escolas de vela, operadores de passeio, fornecedores, mecânicos, marinheiros, guias, pescadores esportivos, agências de turismo. Cada elo da cadeia tem sua associação, seu grupo de WhatsApp, sua pauta. E, enquanto conversamos entre nós, as decisões que definem o nosso futuro são tomadas em outros lugares, quase sempre sem a gente na mesa.
Pense em quantas instâncias de poder tocam a náutica. O licenciamento ambiental de uma marina. A alíquota de ICMS sobre a embarcação. As normas da Marinha. O plano diretor que define o uso da orla. O ordenamento de praias e acessos públicos à água. As linhas de crédito para o pequeno empreendedor. A formação de mão de obra. O saneamento. Câmaras municipais, assembleias legislativas, Congresso Nacional, conselhos, órgãos ambientais, ministérios. Em cada um desses espaços, alguém está falando sobre o nosso setor. A pergunta é: somos nós?
Na maioria das vezes, não. E quem não está na mesa costuma estar no cardápio.
[caption id="attachment_208270" align="alignnone" width="920"]

Advocacy não é palavrão
Por isso defendi, no encerramento do fórum, que o mercado náutico precisa se unir para construir um trabalho permanente de advocacy. Não se trata de lobby no sentido pejorativo, nem de defender o interesse de uma empresa isolada. É representação organizada: uma agenda comum, dados confiáveis, propostas técnicas e presença constante em todos os espaços onde se decide algo que afeta o setor.
Tenho visto de perto o que isso produz. Em São Paulo, o Fórum Náutico Paulista reúne voluntariamente empresários, gestores públicos e pesquisadores há quase duas décadas. Foi esse trabalho paciente, reunião após reunião, que ajudou a construir o plano de desenvolvimento do turismo náutico sustentável que virou programa de estado, o decreto de fomento ao setor, a nova regulamentação ambiental para estruturas náuticas e a agenda de redução de ICMS e de crédito para o setor. Nada disso caiu do céu. Aconteceu porque havia alguém, em nome do setor, sentado à mesa certa, com a proposta pronta.
Esse modelo precisa existir na Bahia, em cada estado com vocação náutica e, sobretudo, em escala nacional.
Explicar para quem não navega
O segundo ponto da minha fala é tão importante quanto o primeiro: precisamos de assessoria de imprensa e de comunicação profissional para o setor.
Para boa parte da população, a náutica ainda é "coisa de rico". Uma marina nova é vista como ameaça ao acesso à praia; um projeto de garagem náutica, como problema ambiental. E, quando não explicamos, alguém explica por nós, quase sempre mal.
Temos uma história poderosa para contar e não contamos. Um estudo do Fórum Náutico Paulista mostrou que a cadeia náutica de lazer movimentava cerca de R$ 5,3 bilhões por ano no estado de São Paulo e gerava mais de 27 mil empregos. E apenas 0,8% da população paulista usava embarcações de lazer, contra 5,3% no Reino Unido. Ou seja, o potencial de crescimento é enorme, e esse crescimento significa renda para o marinheiro, para o mecânico, para o laminador, para a cozinheira do restaurante da marina, para o operador de passeio caiçara que se formaliza.
Essa é a náutica que precisa chegar ao jornal, à TV, às redes sociais, à conversa de bar. O cidadão que entende que a cidade náutica gera emprego para o filho dele deixa de ser opositor e passa a ser aliado. E o político que percebe que a população apoia o setor passa a apoiá-lo também. Comunicação e advocacy andam juntas.
[caption id="attachment_206807" align="alignnone" width="920"]

Náutica precisa de água limpa
Não poderia falar de união do setor sem lembrar de uma bandeira que o Dr. Castello Branco, presidente do Fórum Náutico Paulista, repete há anos e que se tornou princípio do nosso trabalho: náutica precisa de água limpa.
É simples e é definitivo. Não existe turismo náutico, não existe marina, não existe regata, não existe mergulho, não existe passeio de barco em água poluída. O setor náutico é, por natureza, o maior interessado em rios, represas, baías e mares saudáveis. E é exatamente por isso que essa bandeira deveria estar no centro do nosso advocacy.
Quando o setor náutico se coloca como defensor do saneamento, da qualidade da água e da conservação dos ambientes aquáticos, ele inverte a narrativa. Deixa de ser visto como ameaça ambiental e passa a ser reconhecido como guardião da água. Um setor unido, que cobra investimento em saneamento nas mesmas instâncias em que discute tributo e licenciamento, ganha legitimidade para todo o resto da agenda.
O próximo passo é nosso
Saí da Bahia convencida de que o Brasil náutico tem tudo: costa, rios, represas, gente talentosa, empresas competentes, gestores públicos interessados. O que falta é organização. Falta transformar dezenas de vozes isoladas em uma voz coletiva, técnica e presente.
Fóruns como o da Bahia são o começo dessa conversa. O desafio agora é que ela não termine no encerramento do evento. Que vire rede, agenda comum, representação permanente e comunicação com a sociedade.
A pergunta que deixei para a plateia, e que deixo para você, leitor, é a do título: quem fala pela náutica? Enquanto a resposta for "cada um por si", seguiremos perdendo espaço. Quando a resposta for "todos nós", o setor finalmente vai ocupar o lugar que merece no desenvolvimento do país.
Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.Driving Change realiza sua 3ª edição com sete jovens velejadoras; Conheça a iniciativa!




