Quem vai liderar o inevitável desenvolvimento náutico no Brasil?

12/05/2025

O Brasil possui uma das maiores extensões costeiras do mundo, com rios navegáveis que atravessam o território e um clima favorável praticamente o ano inteiro. As condições para o desenvolvimento náutico naturais estão postas — e o mercado está crescendo.

O desenvolvimento dessa cadeia, incluindo o turismo náutico, é inevitável. A questão é: ele será conduzido com protagonismo brasileiro ou dominado por grandes grupos internacionais?

São Paulo Expo durante o São Paulo Boat Show 2024. Foto: Revista Náutica

Hoje, vemos o avanço de parcerias público-privadas e concessões que entregam ativos estratégicos da navegação à lógica de mercado de grandes conglomerados estrangeiros. A travessia litorânea de São Paulo é apenas um exemplo de como a náutica pode ser fisgada sem que o Brasil, de fato, se desenvolva com isso.

 

Marinas, estaleiros, rotas de lazer e de transporte seguem crescendo — mas com pouca ou nenhuma articulação com os saberes e os interesses locais.

Marina Itajaí Boat Show, em 2024. Foto: Victor Santos / Revista Náutica

Ao mesmo tempo, comunidades costeiras, ribeirinhas e pequenos empreendedores brasileiros seguem à margem. Falta acesso a financiamento, formação técnica, regulamentação adequada e inclusão produtiva.

 

A população brasileira está, muitas vezes, impedida de participar desse mercado não por falta de vocação ou de talento, mas por ausência de política pública — e por uma espécie de “apagão estratégico”, que parece proposital.


Essa exclusão econômica e simbólica não é nova. Ela atende a uma lógica que interessa a poucos: manter o povo distante dos recursos que possui, limitando sua capacidade de geração de riqueza e inovação. É o que chamo de “emburrecimento econômico” como ferramenta de dominação ideológica.

 

Afinal, quanto menos o cidadão conhece o valor do seu território, mais fácil é entregar esse valor a terceiros.

Praia de Castelhanos, em Ilhabela. Foto: Paulo Stefani | Sectur Ilhabela

Mas essa história pode (e deve) ser diferente. O Brasil precisa de um plano nacional de desenvolvimento náutico que inclua o turismo, a construção naval, os esportes aquáticos, o transporte, a educação náutica e a infraestrutura costeira e fluvial. Um plano que gere emprego, movimente economias locais e fortaleça nossa soberania no mar e nos rios.

 

O mar está chamando. E não podemos deixar que apenas vozes estrangeiras respondam.

 

Mestre em Comunicação e Gestão Pública, Bianca Colepicolo é especialista em turismo náutico e coordena o Fórum Náutico Paulista. Autora de “Turismo Pra Quê?”, Bianca também é consultora e palestrante.

 

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