Esperança: estudo revela que fungos são capazes de digerir plástico do oceano

22/08/2025

Um estudo liderado pela Universidade do Havaí revelou que fungos marinhos podem digerir poliuretano, um dos plásticos mais comuns e resistentes da atualidade. A descoberta é vista como uma alternativa promissora e ecológica para o combate à poluição plástica nos oceanos.

Já não é segredo que resíduos do material se acumulam, cada vez mais, no mar. Bom exemplo disso pode ser observado no Giro do Pacífico Norte, ao norte do Oceano Pacífico, onde instaurou-se um “novo continente” feito de uma imensa ilha de lixo.

 

A partir de acúmulos como esse, os plásticos se fragmentam, eventualmente se transformando em microplásticos que, por sua vez, são incorporados às cadeias alimentares e aos ecossistemas. Nesse ciclo, o material acaba no organismo de animais marinhos — muitos deles, consumidos por humanos.

Ilha de Lixo do Pacífico. Foto: The Ocean Cleanup/ Divulgação

Enquanto a humanidade parece não dar a devida atenção ao problema, os fungos capazes de digerir poliuretano mostram que a natureza pode estar desenvolvendo sua própria solução.

Resultados animadores

É importante frisar que, sim, os fungos também estão nos oceanos — embora assim como fora dele, grande parte da vida fúngica dos mares seja desconhecida pela ciência. Para se ter uma ideia, estima-se que menos de 7% do total de fungos são conhecidos.

 

Uma pequena virada de chave nesse sentido veio pelo estudo da “plastisfera”. Trata-se de uma comunidade microbiana composta por bactérias, algas e fungos, que formam biofilmes sobre o plástico flutuante das águas, em um movimento de adaptação para a sobrevivência no habitat sintético.

Lixo plástico é um perigo para a vida dentro e fora da água
Foto: melis82/Envato

Partindo da ideia de adaptabilidade desses organismos, os pesquisadores coletaram amostras de ecossistemas costeiros ao redor da ilha de O’ahu e isolaram 68 cepas de fungos diversos.

 

Alguns deles eram pertencentes a grupos que evoluíram para decompor materiais naturais resistentes, como a lignina, um composto de plantas que compartilha algumas propriedades químicas com plásticos. A ideia era testar a capacidade de cada cepa em digerir poliuretano em um ambiente controlado.


Os resultados foram animadores: mais de 60% dos isolados apresentaram algum grau de degradação do poliuretano. Inclusive, ao todo, 42 cepas mostraram capacidade de usar o poliuretano como fonte de carbono.

 

Vale destacar que esses fungos não foram geneticamente modificados — são nativos e já adaptados ao ambiente poluído. Sendo assim, o estudo representa a primeira demonstração em larga escala de que fungos marinhos podem decompor poliuretano.

 

Não satisfeitos com o resultado, uma equipe de microbiologistas liderada pelo Dr. Anthony Amend decidiu testar se esses fungos seriam capazes de trabalhar em ritmo acelerado, em um processo conhecido como “condicionamento”. Nele, os objetos de estudo são expostos a concentrações maiores de um material específico — neste caso, o poliuretano — ao longo do tempo, visando estimular a sua adaptação natural.

Fungos marinhos isolados ao redor de O’ahu “comendo” plástico de poliuretano. Os halos translúcidos ao redor dos tampões mostram as áreas de degradação do plástico. Foto: Ronja Steinbach / Reprodução

Nove das cepas de melhor desempenho foram expostas gradualmente a maiores concentrações de poliuretano. Após três meses, três delas degradaram o plástico 15% mais rapidamente — em um processo natural, sem engenharia genética, comparável a um “treinamento biológico”.

Um modelo natural, replicável e esperançoso

Os fungos usam enzimas para quebrar materiais complexos da mesma forma que decompõem madeira, folhas e outras matérias orgânicas ao longo de milênios. Essas mesmas enzimas, especialmente as capazes de decompor a lignina, podem atingir polímeros sintéticos, como o poliuretano.

 

É justamente essa conexão que faz dos fungos organismos preciosos na micorremediação, uma técnica que os utiliza para degradar ou transformar poluentes em substâncias menos nocivas, como dióxido de carbono e água. Trata-se de um processo de baixo custo, sustentável e escalável, ao contrário da reciclagem industrial tradicional. Há, porém, desafios e limitações.


Escalar o uso desses fungos requer cautela ecológica, já que o crescimento descontrolado pode impactar outros organismos. Fatores como temperatura, salinidade e pH ainda podem afetar a eficácia desses organismos no processo de degradação do plástico. Além disso, até agora, os fungos foram estudados em atuações apenas sobre poliuretano — outros tipos de plástico seguem sendo um desafio.

 

De qualquer forma, o estudo serve como modelo replicável: outras regiões costeiras podem mapear fungos locais e treiná-los para lidar com plásticos predominantes em seus mares, sem o uso de organismos geneticamente modificados e respeitando a lógica dos ecossistemas naturais.

 

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